24 de julho de 2026
CURIOSIDADE

O Brasil quase teve Messi e tudo começou perto de Franca

Por Pedro Dartibale | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Sampi/Franca
Reprodução/Conmebol
Messi comemorando um gol pela seleção argentina

Muito antes de Lionel Messi levantar a Copa do Mundo pela Argentina e se tornar um dos maiores jogadores da história do futebol, um capítulo pouco conhecido da trajetória de sua família passou pelo interior de São Paulo, bem próximo de Franca. Uma pesquisa conduzida pelo historiador italiano Fiorenzo Santini revela que os antepassados maternos do craque viveram em Rincão, município localizado a cerca de 150 quilômetros de Franca, e que foi em Ribeirão Preto, a cerca de 100 quilômetros onde nasceu aquele que viria a ser seu bisavô.

A descoberta é resultado de um trabalho de reconstrução da árvore genealógica da família de Messi, desenvolvido entre 2019 e 2022. Cruzando documentos italianos com registros brasileiros, Santini reconstituiu o caminho percorrido pelos ancestrais do jogador desde a Itália até a Argentina, passando por um período pouco conhecido em solo paulista.

Uma viagem que passou pelo interior de São Paulo

A história começa em San Severino Marche, na província italiana de Macerata. Foi ali que nasceu Raniero Coccettini, tataravô materno de Messi. Casado com Rosa Ricchezza, ele teve os dois primeiros filhos do casal — Giulia e Francesco — ainda na Itália.

Em busca de novas oportunidades, a família embarcou para o Brasil a bordo do navio Washington e desembarcou no Porto de Santos em 20 de setembro de 1899, conforme registros preservados pelo Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

Foi logo na chegada que surgiram as primeiras mudanças. Nos documentos brasileiros, Raniero passou a ser registrado como Ramiero Concenttini, um tipo de alteração relativamente comum entre imigrantes da época, quando nomes estrangeiros eram adaptados pela grafia utilizada nos cartórios.

A ligação com a região de Franca

Depois de desembarcar em Santos, Ramiero foi contratado como agricultor para trabalhar em uma das propriedades do fazendeiro Martinho Prado Júnior, em Rincão.

Foi ali, no interior paulista e a pouco mais de uma hora de Franca, que a família escreveu parte importante de sua história.

Durante o período em que viveu na região nasceram mais dois filhos do casal. A primeira foi Ermínia, em 1º de janeiro de 1900. Quatro anos depois, em 27 de janeiro de 1904, nasceu Arderigo, ambos registrados em Ribeirão Preto.

É justamente desse nascimento que surge a ligação direta entre Messi e o Brasil.

O sobrenome que nasceu no Brasil

Ao registrar Arderigo, outra mudança acabaria marcando definitivamente a história da família.

Segundo Fiorenzo Santini, o menino passou a ser identificado como Federico e o sobrenome Coccettini foi alterado para Cuccittini.

Foi essa nova grafia que atravessou gerações até chegar ao nome completo do craque argentino: Lionel Andrés Messi Cuccittini.

Federico, nascido em Ribeirão Preto, é apontado pelo pesquisador como o bisavô materno do jogador.

A mudança definitiva para a Argentina

A passagem da família pelo Brasil foi relativamente breve.

Em 1905, quando Federico tinha apenas um ano, os Coccettini — já registrados como Cuccittini — deixaram o interior paulista e seguiram para Rosário, na Argentina.

Foi ali que nasceram as gerações seguintes da família: o avô Antônio Cuccittini, a mãe de Messi, Célia María Cuccittini, e, décadas depois, Lionel Andrés Messi Cuccittini.

Segundo Santini, não há registros de familiares do jogador que tenham permanecido no Brasil após essa mudança.

Uma investigação que começou por curiosidade

Bancário de profissão e historiador por paixão, Fiorenzo Santini conta que a pesquisa teve início quando Messi ainda despontava no Barcelona.

Curioso sobre a origem do sobrenome do jogador, ele primeiro identificou a linhagem paterna na cidade italiana de Recanati. Anos mais tarde, a própria família de Messi o procurou para reconstruir também a árvore genealógica materna, trabalho que acabou revelando a inesperada passagem dos antepassados do atleta pelo interior paulista.

Durante a investigação, um detalhe chamou a atenção do pesquisador: o sobrenome Cuccittini simplesmente não existia na Itália.

A resposta apareceu após o recebimento de documentos enviados por um primo da mãe de Messi, que explicavam as mudanças de nomes e sobrenomes ocorridas durante a imigração para o Brasil.

Foi a partir desse material que Santini conseguiu conectar os registros italianos aos documentos brasileiros e confirmar que o sobrenome utilizado pela família do craque teve origem justamente durante sua passagem pelo interior de São Paulo.

Um elo preservado pela história

Mais de um século depois, não há descendentes da família de Messi vivendo no Brasil. Ainda assim, os documentos preservados em arquivos italianos e brasileiros mantêm vivo um capítulo pouco conhecido da trajetória do camisa 10 argentino.

A descoberta também desperta uma inevitável reflexão. Caso a família de Messi não tivesse deixado o interior paulista rumo à Argentina em 1905, o Brasil poderia, em tese, ter sido o berço de dois dos maiores jogadores da história do futebol: Pelé e Lionel Messi. A história, porém, seguiu outro roteiro, e foi em Rosário que nasceu aquele que se tornaria o principal ídolo do futebol argentino, ao lado de Maradona. 

Antes de a família construir sua história em Rosário e dar ao mundo um dos maiores jogadores de todos os tempos, ela viveu, trabalhou e aumentou a família no interior paulista. E foi justamente a cerca de 150 quilômetros de Franca que essa história ganhou um de seus capítulos mais curiosos.