Existe um país que o Brasil inventou.
Ele não aparece em nenhum mapa. Não tem presidente, moeda ou fronteiras. Também não fala português.
Mas existe.
Esse país fica espalhado pelo mundo inteiro e é formado por pessoas que aprenderam a amar o Brasil sem nunca terem colocado os pés aqui.
Nesta semana ele apareceu de novo.
Milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo lotaram as ruas de Bangladesh para acompanhar a vitória da Seleção Brasileira sobre o Japão. Fogos de artifício, bandeiras tremulando, crianças pintadas de verde e amarelo, gente chorando, gritando e cantando como se estivesse em qualquer esquina de Belo Horizonte, Recife ou Franca.
Mas era Bangladesh.
Mais de 15 mil quilômetros separam os dois países.
Língua diferente.
Religião diferente.
História diferente.
Tudo diferente. Menos o futebol.
Enquanto assistia às imagens, fiquei pensando em uma pergunta curiosa. Como é possível amar um país que você nunca conheceu?
O Brasil nunca exportou apenas jogadores. Exportou sonhos.
Nós gostamos de dizer que Pelé mudou o futebol. É verdade. Gostamos de lembrar que vieram Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar, Marta. Também é verdade.
Mas a maior obra do futebol brasileiro aconteceu longe dos estádios. O Brasil convenceu o mundo de que futebol podia ser arte. E quando um povo descobre uma obra de arte, pouco importa onde ela nasceu. Ela passa a pertencer a todos.
Foi isso que aconteceu em Bangladesh.
Eles nunca tiveram uma Seleção capaz de disputar uma Copa do Mundo. Nunca viveram uma final. Nunca carregaram a expectativa de um título mundial. Então adotaram a nossa história.
Enquanto nós discutíamos se o tetra era maior que o penta, ou se este ou aquele técnico estragou uma geração, havia crianças do outro lado do planeta aprendendo que a camisa amarela era a roupa dos heróis.
Existe um privilégio que o brasileiro perdeu a capacidade de enxergar. Nós nascemos dentro da história mais importante que o futebol já escreveu. Quem cresce cercado por cinco estrelas acaba acreditando que elas sempre estiveram ali.
Não estavam. Foram conquistadas por homens que fizeram um esporte atravessar oceanos.
É por isso que Bangladesh me emociona. Não porque eles torcem pelo Brasil. Mas porque eles nos lembram de um Brasil que nós mesmos esquecemos.
Um Brasil que encantava antes de vencer. Que inspirava antes de levantar taças. Que fazia crianças do outro lado do mundo sonharem sem entender uma única palavra da nossa língua.
Esse é o verdadeiro significado de ser o país do futebol. Não é ganhar sempre. É continuar fazendo alguém acreditar.
Mesmo a quinze mil quilômetros de distância.
Leonardo de Oliveira é músico, publicitário, repórter e escritor