04 de julho de 2026
LITERATURA

70 anos de 'Grande Sertão: Veredas'

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 7 min
Reprodução
Capa para primeira edição foi assinada por Poty Lazzarotto

Estudado em escolas e universidades, descrito como leitura desafiadora, considerado revolucionário no contexto da literatura brasileira, ranqueado como um dos melhores romances do século XX por especialistas respeitados, “Grande Sertão: Veredas” completa sete décadas de publicação pela Livraria José Olympio  Editora. Antônio Cândido, que o resenhou assim que foi lançado, escreveu em 6/10/1956 no Suplemento Literário do Estadão: ‘A característica fundamental deste romance é a transcendência do regional (cuja riqueza peculiar se mantém intacta) graças à incorporação em valores universais de humanidade e tensão criadora.”

Sintetizar o enredo é quase impossível, mas se pode dizer, a grosso modo, que ele se constrói pela narração de Riobaldo, ex-jagunço agora fazendeiro, em longo monólogo dirigido a um interlocutor culto e silencioso chamado de ‘doutor’, que ouve sem interromper o recontar das peripécias do protagonista pelo sertão e sua relação de amor/amizade com o companheiro Diadorim, perfilado num gênero fluido que constitui o centro nevrálgico da história. Pioneiro na forma, altamente criativo no enredo, o romance entretece em sua trama temas perenes como bem e mal, medo, morte, violência e amor.

As celebrações da data redonda já começaram a pontuar o noticiário. A editora Nova Fronteira publicou uma biografia de 700 páginas, escrita pelo historiador Leonencio Nossa. A Companhia das Letras, que lançou um audiolivro narrado pelo ator Caio Blat (intérprete de Riobaldo no teatro e no cinema), estará nas livrarias em agosto com outra biografia, assinada pelo poeta, escritor e professor de Literatura Gustavo de Castro. Ao mesmo tempo, colocará à disposição do público uma edição comemorativa do romance, com materiais extras, textos de especialistas, depoimentos de personalidades influenciadas pelo romance, como Milton Hatoum e Mia Couto. A Autêntica não ficou atrás e publicou três títulos: ‘Para Ler Grande Sertão: Veredas’, do professor, curador e escritor Ítalo Moriconi; ‘Diário do Grande Sertão’, onde Bruna Lombardi relembra bastidores da adaptação da obra para a TV; ‘Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Rosianas’, de Jacques Fux, ensaio que relaciona a obra do escritor mineiro com sua passagem por Veneza.

Nas mídias que abrem espaços para as letras também vêm sendo publicadas matérias consistentes, como a reportagem de Júlia Queiroz no caderno Literatura, de O Estado de São Paulo, edição do último dia 27. A jornalista ouviu três renomados especialistas que têm estudado a obra rosiana. São eles:  Yudith Rosembaum, Érico Melo e Alison Entrekin. Esta, além de professora, crítica literária e doutora como os dois primeiros, aceitou desafio custoso: traduzir  ‘Grande Sertão: Veredas’ para o idioma inglês. A previsão de publicação da obra é para início do próximo ano.

Júlia Queiroz propôs a seus entrevistados algumas questões e a primeira delas foi: ‘Por que ler ‘Grande Sertão: Veredas’?

Rosembaum respondeu que é “uma experiência de contato com uma língua brasileira familiar e infamiliar, uma linguagem marcada pela oralidade sertaneja ao lado do apuro da escrita culta. Também é um encontro com o Brasil e suas ambiguidades, contradições, repetições e alumbramentos. Do ponto de vista psicanalítico, o narrador é dono da palavra e quer encontrar o sentido de sua vida.’

Melo afirmou que ler esse romance “significa resistir contra os processos sistemáticos – e cada vez mais automáticos- de destruição da beleza e promoção da ignorância. Significa participar efetivamente da luta contra o aviltamento da língua brasileira e simbolicamente contra a extinção do cerrado em Minas Gerais e na Bahia, principais cenários do romance. Significa dar um voto de confiança à poesia e ao amor em todas as suas gradações sensíveis e inteligíveis. E, sobretudo, significa se permitir ser outras coisas: virar onça, buriti, jagunço ou rio. Ninguém sai desse livro como entrou.”

Entrekin assinalou que ‘leitores vão encontrar uma verdadeira alquimia linguística, poesia em prosa, uma meditação existencial, uma história de amor e aventura, personagens inesquecíveis. E muito humor- algo de que pouco se fala, há trechos hilários”.

Fica nítida nessas respostas a consideração comum que sintoniza a experiência de leitura não apenas como curiosidade pelo enredo, o que em geral atrai o leitor, mas principalmente pela linguagem.  É por demais sabido que ela deriva de uma pesquisa profunda do dialeto do sertão de Minas Gerais: o escritor viajou pela região anotando termos, cadências e narrativas. Mas não fez um registro puramente documental ou folclórico, como alguns escritores brasileiros, especialmente modernistas. Rosa operou uma transfiguração: cifrou o ritmo e a melodia da oralidade do sertanejo e do jagunço e os alçou a um nível literário altamente sofisticado. Sob esse aspecto, a linguagem não lhe serviu apenas para descrever o cenário ou a trama; ela se tornou a própria ferramenta de investigação existencial do narrador e atuou como um instrumento imbuído do propósito de decifrar os mistérios do bem, do mal, do destino humano, da imensidão do mundo.

Neste contexto, o pacto com o demônio, o amor ambíguo por Diadorim e o medo da loucura exigiam palavras que dessem conta do invisível e do indizível. Daí a criação de neologismos, característica marcante do estilo deste escritor que dominava mais de uma dezena de idiomas e usava processos clássicos de formação de palavras para expandir o vocabulário da nossa língua portuguesa: a derivação sufixal (‘viveroso’) e prefixal (‘amigabilidade’); a composição por aglutinação(‘vagalumear’); a conversão de classes gramaticais (‘sertanejar’). Rosa também resgatou termos do português arcaico que sobreviveram isolados nas comunidades rurais do interior do Brasil, conferindo-lhes valor literário, criando metáforas, paradoxos, aforismos, frases filosóficas diluídas no falar popular como a muita citada "O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia".

Sobre a sintaxe, tem sido objeto de centenas de ensaios acadêmicos e muitas análises desde que o livro foi publicado. As primeiras leituras já anotavam a quebra da estrutura das frases, considerando-se a ordem tradicional da gramática normativa. O autor criava grande número de elipses, eliminava conectivos, aproximava de forma inusitada substantivos e verbos em construções que buscavam imitar o raciocínio fragmentado e intuitivo do homem do sertão. Também enxertava nas falas estruturas importadas de línguas em que era versado e essa mistura fazia com que o espaço geográfico do sertão perdesse suas fronteiras rígidas, transformando o interior de Minas Gerais em um território linguístico global. O resultado era uma prosa densa, poética, musical, onde a sonoridade do que era dito importava tanto quanto o seu significado.

A maioria dos especialistas que corajosamente têm mergulhado nas páginas de ‘Grande Sertão: Veredas’ ressalta que a linguagem rosiana alcança uma dimensão metafísica que leva o leitor a um tipo de aprendizagem estética. O romance não se torna sedutor apenas pelo enredo, mas pelo prazer intelectual da travessia empreendida no texto. Sob este ângulo, o prefácio de Paulo Rónai à primeira edição é antológico ao analisar o sentido do título:

“A significação do título se aclara sucessivamente por diversos trechos do romance, onde encontramos o narrador empenhado em definir o termo ‘grande sertão’ que, além de conteúdo geográfico bem nítido, para ele tem ainda outros conteúdos vagos e amplos. Essas definições vão do estritamente mesológico ao simbólico: nelas a narrativa sai mais de uma vez do tom reprodutivo, e o narrador cede lugar ao romancista. Para quem nele nasceu e viveu e com ele se identificou, o ‘sertão’ acaba sendo a confusa e tumultuosa massa do mundo sensível, caos ilimitado de que só uma parte ínfima nos é dado conhecer, precisamente a que se avista ao longo das ‘veredas’, tênues canais de penetração e comunicação. Assim o sinal _:_ entre os dois elementos do título teria valor adversativo, estabelecendo a oposição entre a imensa realidade inabrangível e suas mínimas parcelas acessíveis, ou, noutras palavras, entre o invisível e o conhecível."

Um livro que atravessa 70 anos com vitalidade e permanece surpreendendo o público merece todas as reverências que lhe estão sendo prestadas. Já nasceu realista ao propor questões fundamentais como a percepção de que o bem o mal não são categorias estanques mas forças que atravessam os humanos. Já nasceu crítico ao mostrar que a modernidade não foi capaz de aniquilar problemas sociais como desigualdade, pobreza, marginalidade.  Já nasceu político ao mostrar que a ausência do Estado leva à desordem jurídica, às injustiças, ao desamparo das pessoas. Já nasceu profético ao prenunciar na luta dos bandos de jagunços no sertão, as futuras guerras entre facções criminosas nas metrópoles. Já nasceu filosófico, ao apontar para a coragem como condição essencial à travessia da vida com todos os seus mistérios.

Ler pela primeira vez ou reler este livro é também uma forma de prestar homenagem ao seu autor, gênio que dedicou suas energias a criar um mundo onde nosso país é perfilado entre a barbárie e a civilização e onde podemos nos reconhecer pela via humana como seres de complexa subjetividade.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras