“Em 1976, o biólogo Richard Dawkins criou o termo ‘meme’, hoje vulgarizado, para definir uma unidade de informação cultural que se espalha de pessoa para pessoa, mudando ou se adaptando ao longo do tempo. Assim, as receitas culinárias geradas nos núcleos familiares, eventualmente, difundem-se nas comunidades, criando o patrimônio gastronômico regional. Esta cultura, transmitida por tradição oral, é instável e dinâmica e somente cristaliza-se, como história, quando registrada documentalmente.”
Com essas palavras José Luz Alvim Borges, presidente da Academia Brasileira de Gastronomia, inicia o segundo prefácio a ‘Com Açúcar, Com Afeto e uma Pitada de Sal’, que Sabina Donadelli escreveu como tributo à sua mãe, Maria Luiza Junqueira Donadelli, que teve oportunidade de ver a gênese da obra antes de falecer há oito meses.
O livro fala em primeira instância sobre comida. E a comida, além de nos nutrir, pode ter um superpoder. Uma única garfada é capaz de nos transportar, em fração de segundo, cruzando décadas de distância, direto para a cozinha de uma avó que já partiu, para a mesa de uma tia querida, para um almoço de domingo onde as crianças falavam alto e ao mesmo tempo. A comida tem sua magia. E é sob o influxo dessa magia, e de outras emoções prazerosas, que o leitor viajará por suas140 páginas.
Sobre a autora, o perfil traçado por Rodrigo Maito da Silveira nas duas orelhas, reponde com precisão à pergunta: “Quem é Sabina?”
“(...) nutricionista que se especializou na aplicação de abordagens integrativas de medicina natural, ayurveda, fitoterapia. Sua prática profissional vai além da aplicação de planos alimentares. Seu profundo conhecimento e sua larga experiência nesse campo são direcionados para que os seus pacientes alcancem alimentação consciente e natural, com resultados sustentáveis e voltados à longevidade (...) Profissional apaixonada pelo que faz, Sabina é autora de outras obras, dentre elas ’50 receitas para viver saudável’, ’10 perguntas e respostas para viver em paz com o espelho’, ‘Jejum intermitente’, “Dormir bem emagrece sim, senhor’ e ‘Mediterrâneo afetivo’.
Quando Sabina me disse que estava escrevendo um livro cujo assunto tinha por tema a culinária, confesso que imaginei o óbvio: uma lista técnica de ingredientes, tempos de cozimento, temperos bem escolhidos, temperaturas de forno. Afinal, vivemos na era dos tutoriais de trinta segundos na internet, onde a comida virou "conteúdo visual" rápido e, muitas vezes, frio. Mas, quando ela entrou em detalhes, percebi o meu engano. Não se tratava apenas de um manual de instruções para nutrir o corpo ou acariciar o estômago; mas de um cardápio cordial, um tipo de cartografia culinária onde vibrava a alma de sua mãe. Nas 140 páginas, as receitas não são apenas fórmulas matemáticas de xícaras e colheres. Elas se impõem como itens de um menu composto por afetos, palavra-chave tão importante que povoa a obra desde o título. Cada ingrediente listado carrega uma história. Cada modo de preparo desvela um jeito peculiar de quem foi refinando habilidades. Cada especialidade colocada na travessa mostra uma tradição familiar que se recusou a morrer com o tempo.
Isso porque a saudosa Maria Luiza, com quem vizinhei por quase dez anos no Edifício Barramares, sempre teve um dom especial. Quem a conheceu de perto sabe que sua cozinha nunca foi laboratório de ensaio, mas sim um porto seguro. Pelo relato da autora, de familiares, de amigas e amigos, ficamos cientes de que ela cozinhava como quem exercitava um dom e desejava oferecer ao outro o seu melhor. Por conta disso, nas receitas que encontramos no livro, sentimos que o açúcar não serve apenas para adoçar, ele reconta a doçura de tardes ensolaradas onde brilhavam conversas muito femininas. O sal não é só para temperar, ele carrega a história do suor bíblico no exigente trabalho cotidiano. O afeto não é detalhe sutil, é a linha que tudo costura tecendo memórias sólidas.
Tendo acompanhado de longe a elaboração do livro, percebi que escrevê-lo foi um ato de coragem. Mexer nas panelas velhas da memória com certeza exigiu no primeiro momento resgatar em sua inteireza o gesto inicial de quebrar um ovo ou mostrar o ponto ideal do pão de queijo. Depois, as circunstâncias mudaram e o caminho ficou mais difícil porque a cadeira ao redor da mesa ficou definitivamente vazia. Mas Sabina Donadelli já havia aprendido com sua mãe que “cozinhar é o amor tornado visível’’, como escreveu Mia Couto. E, com o coração de uma narradora, a reconhecida competência profissional e, especialmente, o terno amor filial, transformou a nostalgia e o luto em histórias que nos mostram que cozinhar é, também, um ato de resistência contra o esquecimento.
Enquanto receitas de família continuarem sendo preparadas, aquela avó, aquele pai, aquele amigo querido continuarão vivos, bem ali, no sabor do prato. Ao reunir anos de amor, de encontros, de conversas no espaço da cozinha e da sala de jantar, Sabina eternizou sua mãe, de quem seu pai, Jorge Donadelli, cujo talento literário é reconhecido, esboça retrato comovente no prólogo, do qual destaco um parágrafo:
“Nos primeiros dias de vida a dois, o cotidiano já era encantamento. Bastava que eu cruzasse a soleira ao meio-dia e tudo me parecia um sonho habitável: a mesa posta como num ritual, a comida perfumando o ar como incenso doméstico, o sol se deitando sobre os talheres. Eu que já a conhecia desde os tempos de noivado, estranhava aquele sabor novo: o sabor da permanência. Agora era diferente. Éramos casa. Éramos vida começando’.
‘Com Açúcar, com Afeto e uma Pitada de Sal’ (publicado pela NSM Editora), é livro que se leva para casa com aviso implícito: não deve ser guardado na estante da sala e sim levado para a bancada da cozinha. É preciso que suas páginas fiquem um pouco manchadas de molho, que ganhem o aroma do azeite, que exibam o salpicar da farinha. Será de grande proveito testar os pratos que Maria Luiza (e outras mulheres com quem conviveu) tão generosamente partilhou. E permitir que as memórias expressas nas páginas despertem memórias particulares com certeza representará enriquecimento aos leitores.
O mundo moderno nos pede pressa, nos pede fast-food, nos pede telas e isolamento. “Com Açúcar, com Afeto e uma Pitada de Sal” é o oposto disso tudo. É um manifesto pelo desacelerar. É um convite para sentar à mesa, olhar nos olhos, passar a travessa e partilhar a vida. Não é para ser lido com pressa; é para ser degustado devagar porque antes de tudo ele é um banquete para o coração.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras