Impactada pelo artigo “Letras machistas, milhares de cliques”, assinado pela jornalista e professora Luciana Grabin no Estadão do dia 6 deste junho, fui atrás da pesquisa à qual ela se referiu ao fundamentar comentários sobre gerações inteiras crescendo ao som de músicas que subestimam as mulheres. Veiculada pela revista Marie Claire, a reportagem analisou a demanda dos brasileiros na Spotify e mostrou dados que revelam de forma clara como o preconceito contra as mulheres permanece arraigado entre nós também pela via das produções culturais de massa.
Os dados são reveladores: metade das dez músicas mais ouvidas no país reproduz, de forma direta, discursos misóginos. As letras enfatizam expressões grotescas, retratam a mulher apenas sob a ótica da posse e do descarte, reduzem o feminino a mero objeto de satisfação sexual. No repertório dessas composições que inspiram centenas de outras, um aspecto que pode passar despercebido, mas é sintomático, pulsa na exaltação romantizada do ciúme excessivo, da dependência emocional e da perseguição ao fim de um relacionamento. Entoadas em coro em shows, festas e playlists familiares, as composições tanto evidenciam um machismo recreativo disfarçado de entretenimento como suavizam a percepção da violência de gênero na vida real. Ao cantar a plenos pulmões uma música que desmerece a autonomia da mulher, o público, quase sempre de maneira inconsciente, valida o pano de fundo ideológico que sustenta o machismo.
E aí mora o risco. A reprodução contínua desses discursos conversa com dados trágicos da realidade social. O Brasil figura recorrentemente entre os países com os maiores índices de feminicídio e violência doméstica do mundo. Sociólogos, psicólogos e defensores dos direitos humanos apontam que a violência física é apenas a ponta do iceberg, sustentada por uma base sólida de violência simbólica da qual a música de massa, infelizmente, faz parte. Letras que tratam o consentimento feminino como algo negociável, flexível ou irrelevante reforçam diretamente a cultura do assédio sexual. Ao propagar a ideia de que o "não" de uma mulher é apenas um charme ou um obstáculo a ser superado pela insistência masculina, esse tipo de música interfere na formação psicossocial de jovens e adolescentes. Meninos crescem consumindo referências onde o domínio e a agressividade definem a masculinidade, enquanto meninas são ensinadas a aceitar a submissão e a depreciação como componentes normais do afeto e do desejo. E quem pensa que tais violências são fenômenos restritos a um único nicho musical, está equivocado. A depreciação do feminino atravessa fronteiras sonoras.
É claro que não se pode ignorar a existência de movimentos de contestação a esse posicionamento no cenário musical brasileiro. O avanço do "feminejo" e a ascensão de compositoras e cantoras no funk, no rap e na MPB, por exemplo, trouxeram novos olhares para o centro do debate. Mulheres artistas têm reivindicado o controle de suas próprias histórias, cantando sobre independência financeira, desejo, prazer, superação, solidariedade feminina. No entanto, para equilibrar a balança, a existência de vozes progressistas não é suficiente; é preciso haver uma mudança radical na postura do público consumidor. Deixar de dar o "play" em faixas explicitamente violentas e misóginas, questionar o conteúdo daquilo que se ouve no modo automático e apoiar ativamente artistas que promovem a equidade deveriam ser passos fundamentais. Porque se é verdade que a cultura reflete a sociedade, também é fato que a primeira molda muitas vezes a segunda. Reverberar discursos que desumanizam metade da população é perpetuar as bases da nossa própria barbárie diária.
Atente-se ainda para o fato de que o perigo não se encontra apenas na existência de letras prenhes de preconceitos, mas também e especialmente na forma como elas são divulgadas. O lado pesado da pesquisa mostrada pela revista e comentada pela jornalista traz à tona uma engrenagem cultural que insiste em comercializar a violência de gênero, transformando-a em produto de consumo rápido e de alta lucratividade. Assim, quando uma canção que objetifica, humilha ou incentiva o controle sobre o corpo e as escolhas da mulher atinge o topo das paradas, ela passa por um processo de ‘normalização’. Embalados por batidas envolventes e refrões fáceis, discursos violentos e machistas entram no cotidiano das pessoas sem passar por qualquer filtro crítico. O Spotify, como a maior vitrine musical do planeta, opera por meio de algoritmos desenhados para engajamento e retenção de usuários. Se uma música começa a gerar cliques, ela é inserida organicamente em playlists editoriais de grande alcance, como o "Top 50 - Brasil". Cria-se, assim, um ciclo de retroalimentação: a música toca porque alcançou status popular, e torna-se ainda mais popular porque não para de tocar.
Nesse modelo de negócios pautado exclusivamente pelas métricas de visualizações e reproduções, o debate ético sobre o teor das composições é ignorado. Ou irrelevante. A indústria fonográfica, aparentemente dominada em nosso país por estruturas patriarcais, parece enxergar na hipersexualização formas lucrativas e de rápida resposta comercial. Até que ponto as gigantes da tecnologia e do entretenimento devem se manter neutras diante de conteúdos que ferem a dignidade humana e perpetuam desigualdades históricas? Este tem sido um questionamento crescente que tem levado à conclusão de que, cada vez mais, se torna necessário analisar a corresponsabilidade das grandes gravadoras e das plataformas de streaming para compreender a extensão e a gravidade do fenômeno.
Ao revelar que metade do topo do Spotify Brasil exala machismo e misoginia, a Marie Claire aponta para sintoma irrefutável, qual seja, a desconstrução do machismo estrutural está muito longe de resolução entre nós. E mais do que apontar dedos para gêneros específicos, o estudo publicado convoca a sociedade, os artistas, a mídia e a indústria de tecnologia a uma profunda reflexão sobre a responsabilidade ética do que se produz e do que se consome como arte e entretenimento no país. Luciana Grabin, por sua vez, ao comentar o trabalho da reportagem de fôlego, faz pergunta incômoda em seu artigo: ‘E o que acontece quando gerações inteiras crescem ouvindo que mulheres valem pelo corpo, pela disponibilidade sexual ou pela capacidade de satisfazer expectativas masculinas?’ Ela própria responde: “Ninguém vira machista por conta de uma só música, mas a repetição dessas mensagens fortalece uma cultura em que objetificar a mulher parece engraçado, banal, inevitável. Palavrões se multiplicam, termos ofensivos viram ‘brincadeira’, violência vem disfarçada de ironia. Não se trata de mimimi, censura ou moralismo. Músicas sempre falaram de desejo e relações humanas. Mas é bem diferente falar de sexo e pregar posse sobre outra pessoa e subserviência feminina. Sobretudo num país onde casos de violência contra a mulher se contam aos milhares, embalados por canções que deveriam na verdade estar no lixo eletrônico.”
A conexão entre letras machistas e o alarmante crescimento dos índices de feminicídio no Brasil demanda um olhar aprofundado de quem se preocupa com a violência exercida contra as mulheres. Porque é inegável que centenas de canções reproduzem incessantemente discursos que coisificam a mulher e atuam como reforçadores do machismo estrutural. Combater o machismo (e a misoginia tantas vezes inerente) exige, entre outros propósitos, desconstruir estratégias musicais que o normalizam.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras