15 de junho de 2026
CRÔNICA

A gente não escolhe, a gente herda

Por Leonardo de Oliveira | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação

Não tenho muitas lembranças da Copa de 2002. Tinha quatro anos, e embora já desfilasse com uma camisa amarela pelas ruas, ainda não entendia o que carregava no corpo. O que ficou foi uma imagem imprecisa: subir a rua da casa do meu bisavô, em Patrocínio Paulista, e encontrar a cidade celebrando o penta. A casa ainda tem aquela cara de interior paulista - janela virada para a rua, calçada estreita de cimento queimado, muro baixo. O tipo de lugar que a gente reconhece antes de lembrar onde já viu.

Era naquela calçada que uma das histórias mais famosas da família tinha nascido décadas antes. Meu bisavô, Geraldo, abriu as portas para os vizinhos acompanharem a primeira Copa transmitida em cores. A televisão, no entanto, não era colorida. Isso não impediu a aglomeração. A casa não era grande, mas ele não fazia conta.

O genro dele, meu avô Clézio, completou 88 anos nesta quinta. No dia de abertura da copa.

Não sei se é coincidência ou se é só o tipo de coisa que acontece nas famílias que levam futebol a sério. O que sei é que foi ele quem me ensinou a ver o jogo. Não só torcer, ver. Entender a jogada antes de ela acontecer, respeitar o jogador que trabalha sem aparecer, reconhecer quando um time está bem mesmo perdendo. Foi ele quem me apresentou o Corinthians, com a naturalidade de quem passa um sobrenome.

Assistir ao jogo com ele é uma experiência específica. Ele senta, cruza os braços, e fica assim - olhos fixos na televisão, postura de quem está avaliando, não torcendo. A conversa existe, mas é econômica: esquema, posicionamento, uma ou outra observação sobre o desempenho. E quando alguém erra o que não deveria errar, vem a exclamação - curta, precisa. Depois volta o silêncio e os braços cruzados. Não sei de onde ele tirou isso, se herdou de alguém ou inventou sozinho. Mas reconheço o gesto. Aprendi a ver futebol assim.

É assim que essas coisas chegam até a gente. Não por escolha. Por herança.

Muito tempo se passou desde 1970. Hoje, com meus recém-completos 28 anos, é aquela copa que ocupa minha cabeça desde a estreia de A Saga do Tri, série nova da Netflix. Eu poderia passar este texto inteiro celebrando Lucas Agrícola como Pelé, a reprodução magnífica do futebol jogado ou a semelhança precisa dos atores com seus personagens. Carlos Alberto Torres, o "capita", impressiona. Mas não quero só recomendar. Quero conversar.

Porque a série entende uma coisa que a gente às vezes esquece de nomear: futebol é assunto que passa de mão em mão. De banco de praça, de fila de banco, de sala de espera de hospital. Todo mundo tem uma escalação na ponta da língua - herdada, discutida, defendida como se fosse doutrina de família. Não era diferente em 1970, e por isso João Saldanha aparece na série como figura recorrente com precisão cirúrgica. A frase que o técnico devolveu ao presidente Médici, quando o ditador pediu a convocação de Dadá Maravilha, não chega perto de um comentário de internet - ela os precede em cinquenta anos: "Não escalo os ministérios e ele não escala a seleção." Em plena ditadura militar, isso não passaria batido. Saldanha deu lugar a Zagallo, e o resto você já sabe - ou seu pai te contou, ou seu avô contou pro seu pai.

A obra se preocupa em mostrar onde estavam os jogadores e onde estava o povo. Nos bares, nas ruas, dentro das casas: o Brasil parava para o Brasil. Isso não é tradição inventada. É uma herança que ninguém assinou, mas todo mundo recebeu. Até os que dizem não ligar, depois de um jogo aqui e outro acolá, soltam em voz baixa: "E o Brasil, ganhou?" É o mesmo reflexo. É a mesma coisa que fez meu bisavô abrir a porta, e que fez meu avô me ensinar a cruzar os braços e prestar atenção.

Saldanha toca no vira-latismo num momento de licença poética da série. A verdade é que ele existe. Mas no mesmo DNA onde ele mora, mora também o amor pela comemoração, pelas ruas tomadas de gente, pela imagem do maior jogador da história nos braços de Jairzinho após abrir o placar na final, e pelo choro doído depois do 7 a 1. São a mesma coisa. São os dois lados de quem se importa demais, e aprendeu a se importar assim porque alguém antes dele também se importava.

Pelé carrega esse peso melhor do que qualquer outro. O homem negro, de Três Corações, que ainda criança viu o pai chorar pela derrota para o Uruguai em 50, cresceu e se tornou a imagem que nós passamos adiante quando queremos explicar o que é o Brasil para quem nunca esteve aqui. Na cobertura da sua morte, Milton Neves foi o primeiro a dizer que Edson havia morrido - Pelé seria eterno. Não foi figura de linguagem. Foi constatação. Algumas coisas não morrem porque já não pertencem só a quem as viveu.

Se você não conhece a história, A Saga do Tri é um bom lugar para começar.

E se um dia passar por Patrocínio Paulista, talvez entenda o resto. Tem casas que atravessam o tempo sem precisar mudar de cara. A calçada de cimento queimado ainda está lá. O meu bisavô não está mais, mas o meu avô está - 88 anos no dia de abertura de copa, provavelmente sentado com os braços cruzados e os olhos na televisão. Farei o mesmo. É a única herança que nunca precisei pedir, e que nunca vou devolver.

Leonardo de Oliveira é músico, publicitário, repórter e escritor