Tenho acompanhado com interesse a novela ‘Guerreiros do Sol’, produzida diretamente para o streaming (no caso, o Globoplay), mas que pode ser vista também na TV aberta logo depois de “Quem ama cuida”, a nova das nove. É aposta bem sucedida em releitura da clássica temática do cangaço, inspirada livremente na história de Lampião e Maria Bonita. Criada e escrita por George Moura e Sergio Goldemberg, a obra conta ainda com colaboração de Claudia Tajes, Mariana Mesquita, Ana Flávia Marques, Dione Carlos, Marcos Barbosa e Frederico Pernambucano de Mello, escritor, historiador e autor do livro homônimo sobre o cangaço.
O grande acerto da narrativa é o equilíbrio entre o gancho ágil das séries e o melodrama clássico que o público do gênero ainda ama. A trama central funciona muito bem opondo não só cangaceiros e policiais, mas também dois irmãos, além de traçar um arco amoroso percorrido pelo casal protagonista, Josué e Rosa. Quanto ao visual, é deslumbrante: a direção de Rogério Gomes foge do clichê do sertão puramente árido, cinzento e castigado, trazendo uma paleta de cores muito mais viva e solar, com o aproveitamento da luz natural do Nordeste para marcantes ambientações geográficas. No que diz respeito ao figurino e caracterização, os cangaceiros ganharam roupagem moderna. Couros, adornos e texturas, ricos em detalhes, mostram-se impecáveis na representação de uma escolha claramente voltada para a estilização artística. Louvores também para a trilha sonora, que dita o tom épico da produção, misturando a regionalidade nordestina com arranjos contemporâneos que aumentam a tensão nas cenas de ação.
O elenco entrega performances intensas, impulsionadas pela crueza das situações que o roteiro propõe. Isadora Cruz consolida-se como uma das grandes atrizes de sua geração ao viver Rosa, personagem que transita entre a doçura da jovem oprimida na pobreza da vida sertaneja e o destemor e ousadia da mulher que entra para o cangaço. Thomás Aquino confere masculinidade rústica, mas cheia de camadas de vulnerabilidade, ao protagonista Josué. José de Abreu, como o Coronel Eloi, entregou nos primeiros capítulos e na medida certa o cinismo e a soberba dos coronéis da época. Alinne Moraes convence como Jânia, mulher à frente de seu tempo, envolvida em causas feministas e de libertação, fazendo um contraponto urbano e intelectual valioso para a trama. Alexandre Nero alcança composição madura e marcante como Miguel Inácio, veterano mentor de Josué. Irandhir Santos vive o cruel Arduíno, irmão e inimigo de Josué. Marcélia Cartaxo, de “A Hora da Estrela”, faz bem Dona Generosa, matriarca da família Alencar, cujo destino muda drasticamente já no início da trama.
Esta novela tão bem produzida, que ainda de quebra tem diálogos verdadeiros e inspiradores que remetem a Guimarães Rosa, me levou a considerar algo que tenho visto analisado por historiadores e críticos- uma relação entre o Sertão nordestino dos cangaceiros de chapéu de couro e a Europa medieval dos cavaleiros de armadura. Uns e outros bebem na mesma fonte mítica: o heroísmo trágico, a honra e o romance de cavalaria.
Para entender essa ligação, precisamos voltar ao tempo em que os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, trazendo em suas bagagens a tradição oral da Península Ibérica. Entre as histórias mais populares estavam os romances de cavalaria — contos de cavaleiros andantes (como o Rei Artur ou Amadis de Gaula) que vagavam por terras sem lei para defender os fracos, fazer justiça com as próprias mãos e honrar suas amadas.
No isolamento do Nordeste brasileiro essa mentalidade encontrou um solo fértil. O Sertão, marcado pela ausência do Estado, pelo coronelismo e pela busca brutal de sobrevivência, transformou-se no cenário ideal para o surgimento de uma "cavalaria cabocla". O cangaço, portanto, não foi apenas um fenômeno social e de banditismo; ele reencarnou o mito da cavalaria adaptada à caatinga. Basta que transportemos a estrutura dos romances medievais para o universo do cangaço (e de ‘Guerreiros do Sol’), para semelhanças serem constatadas. A ver.
Assim como os cavaleiros tinham seus rituais, armaduras simbólicas e juramentos, os cangaceiros criaram uma estética própria. Seus chapéus de couro adornados com estrelas e signos salomônicos funcionavam como escudos místicos contra as balas. No campo do código de honra e da mística, vigorava nas duas organizações uma ética de lealdade onde a traição era o pior dos pecados. O líder, fosse cangaceiro ou cavaleiro errante, era herói justiceiro para os amigos e vilão implacável para os inimigos. Com relação ao amor, era sentimento que se imiscuía no meio dos combates e florescia em meio à guerra, à poeira, à iminência da morte. Se na cavalaria do medievo o cavaleiro lutava por uma dama idealizada, no cangaço do século XX a entrada das mulheres inseria elementos trágicos.
A jornada de Josué e Rosa, coluna vertebral de ‘Guerreiros do Sol’, resgata a estrutura do herói de cavalaria empurrado para o destino do combate. Os tiroteios na caatinga são filmados com a mesma carga dramática e coreográfica de batalhas de espadas medievais. As emboscadas das "volantes" (a polícia) assemelham-se às perseguições dos exércitos reais contra os cavaleiros rebeldes ou foragidos. Por fim, nessa linha de comparação de gêneros, é importante lembrar que a literatura de cordel, que transformou o cangaceiro em mito ao cantar suas façanhas como se fossem as de um guerreiro medieval, é herdeira direta das cantigas de gesta. Cordel e cantiga são poesia visual e narrativa.
Enfim, ‘Guerreiros do Sol’ não é apenas uma história sobre o Nordeste brasileiro dos anos 1920 e 1930; é a prova de que os arquétipos humanos são universais. O Sol do Sertão, que castiga a terra e doura o couro dos cangaceiros, brilha com a mesma intensidade dramática que a Lua sobre as armaduras dos cavaleiros europeus. Mudar os cenários, as armas e os sotaques não mudam a essência da alma humana em busca por justiça, liberdade e amor em um mundo hostil.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras