Polarização. Nos últimos anos, essa palavra se tornou presença obrigatória no vocabulário do brasileiro. É impossível ignorar o quanto caminhamos para uma lógica permanente de escolha. Conservadores contra progressistas. Empregadores contra o fim da escala 6x1, trabalhadores ansiando por ela. Neymar convocado ou deixado de fora da Copa do Mundo. E esses talvez sejam apenas os exemplos mais leves. Existem discussões muito mais profundas, violentas e definitivas atravessando o nosso cotidiano.
Mas gostaria de propor um exercício de reflexão através da cultura pop.
Em 1857, os Estados Unidos viviam um dos períodos mais violentos de sua curta experiência democrática. A corrida do ouro, iniciada em 1848, havia terminado poucos anos antes e deixado como herança o cenário que os livros de história mais tarde chamariam de Velho Oeste. Embora o imaginário popular costume tratar esse período como uma disputa moral entre “civilização” e “barbárie”, a realidade era muito mais simples e cruel: tratava-se de sobrevivência.
As tribos nativas do meio-oeste resistiam ao avanço do governo americano enquanto tentavam preservar as terras que escapavam por entre os dedos e proteger aquilo que, por gerações, chamaram de lar. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas cruzavam o país em busca de oportunidade, ouro, território ou simplesmente alguma chance de continuar vivas.
É exatamente desse cenário que nasce Terra Indomável. A série acompanha Sara Rowell e seu filho Devin atravessando o país rumo a Crook Springs, um assentamento comandado pelo pai do garoto — um homem cuja ausência é tão marcante que seu nome sequer é revelado de forma clara. Desde os primeiros episódios, a produção se preocupa em mostrar aquilo que os antigos filmes de John Wayne tentavam retratar, mas raramente conseguiam alcançar pelas limitações tecnológicas da época: a brutalidade cotidiana daquela América era feita de fome, sujeira, sangue, doença e poeira.
Ao chegarem a um forte ocupado por brancos, indígenas, chineses e mórmons, mãe e filho descobrem que o guia responsável pela viagem partiu sem eles após um atraso provocado por uma intempérie. Pouco depois, somos apresentados a Isaac, interpretado por Taylor Kitsch, que usa sua habitual presença silenciosa para construir um personagem quebrado, deslocado e misterioso. Um homem carregado por dores que a minissérie revela aos poucos, sem pressa e sem transformar trauma em espetáculo.
Mas o verdadeiro mérito de Terra Indomável está em outra camada. A série funciona como um lembrete desconfortável de que o passado raramente foi esse lugar mais simples, puro ou moral que tantos insistem em imaginar. Existe uma tendência quase natural de romantizar épocas distantes, como se os conflitos atuais fossem fruto exclusivo da modernidade. Como se em algum momento da história as pessoas tivessem convivido em harmonia antes de tudo “dar errado”.
A obra desmonta essa fantasia de maneira brutal. O Velho Oeste não era um território de honra cinematográfica e homens virtuosos cavalgando ao pôr do sol. Era um ambiente dominado pela precariedade, pelo medo e pela violência constante. Sobreviver exigia escolhas cruéis. A civilização americana, tantas vezes transformada em símbolo nostálgico, foi construída sobre disputa territorial, exploração, morte e escravidão.
É por isso que a série dialoga tão bem com os tempos atuais. Em meio ao desgaste provocado pela polarização contemporânea, cresce também a sedução pela ideia de que “antigamente era melhor”. Terra Indomável lembra que o passado não era necessariamente melhor — apenas distante o suficiente para que a memória apague o cheiro da pólvora, a lama nas botas e o peso real da sobrevivência.
Em determinado momento da minissérie, somos apresentados a Abish Pratt, interpretada pela jovem Saura Lightfoot-Leon. A personagem é colocada na posição de esposa de um jovem mórmon que atravessa o país em busca de Sião, a “terra prometida” dos seguidores da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. O grupo tenta encontrar um lugar que possa finalmente chamar de lar, distante da perseguição e da hostilidade que os acompanha.
À primeira vista, Abish poderia facilmente cair no arquétipo da mulher ingênua deslocada em um mundo hostil. Mas Terra Indomável é inteligente o bastante para utilizar justamente o olhar dela como principal lente da brutalidade daquele universo. É através de Abish que percebemos o quanto aquele ambiente é absurdo, cruel e desumanizador. Entre os personagens centrais, ela é quem mais enfrenta adversidades físicas, emocionais e morais.
Existe algo muito contemporâneo nisso. As redes sociais transformaram a violência em pauta permanente. Discussões sobre agressividade, intolerância, radicalização e crueldade fazem parte do cotidiano digital. Mas a série parece interessada em lembrar que a violência nunca deixou de existir. Ela apenas muda de forma. Às vezes cresce, às vezes se esconde, às vezes se torna tão banal que sequer percebemos sua presença. O avanço do chamado “mundo moderno” não eliminou os conflitos humanos — apenas os sofisticou.
É essa lição que Abish aprende ao longo da jornada. A sobrevivência nunca foi simples. E, se observados com cuidado, os conflitos enfrentados por aquelas pessoas não são tão diferentes dos nossos quanto gostaríamos de acreditar. Mudam os cenários, mudam as ferramentas, mudam os discursos, mas permanecem o medo, o sentimento de pertencimento, a necessidade de proteção e a busca desesperada por dignidade.
Nesse aspecto, a personagem Duas Luas exerce um papel fundamental. A jovem indígena foge da própria tribo após sofrer violências provocadas pelo pai e encontra, em meio ao caos, alianças improváveis. A série faz questão de mostrar que os laços humanos raramente nascem em momentos de estabilidade; eles costumam surgir justamente durante o conflito.
É justamente aí que a minissérie alcança sua melhor versão. Porque, no fundo, ela não fala apenas sobre conflitos antigos, disputas territoriais ou violência histórica. Fala sobre fanatismo religioso, sobre o complexo messiânico de indivíduos que acreditam ter sido escolhidos para algo maior e, principalmente, sobre o que acontece quando seres humanos são colocados em situações para as quais simplesmente não existe preparo possível.
A fotografia me incomodou em alguns momentos, confesso. O trabalho de Jacques Jouffret funciona quando a intenção é mergulhar o espectador no caos daquela realidade suja, sufocante e imprevisível. Mas certas escolhas de luz, combinadas à maquiagem e à direção de arte, criam composições que nem sempre conversam entre si da maneira mais harmoniosa. Ainda assim, existe personalidade estética suficiente para sustentar o realismo e a identidade visual da obra.
O texto da série também não tenta reinventar o gênero do faroeste. Os diálogos cumprem bem a função de fazer aqueles personagens parecerem pessoas comuns tentando sobreviver a circunstâncias extraordinárias. E é nas atuações que a trama ganha força. Taylor Kitsch entrega um protagonista silencioso, quebrado e extremamente humano, enquanto Jai Courtney surge como uma das maiores surpresas da produção, construindo uma presença intimidadora sem nunca cair na caricatura.
E eu não poderia encerrar este ensaio sem destacar a delicadeza, a força e a humanidade que Betty Gilpin entrega à Sara. A atriz transforma a protagonista em alguém atravessado por perdas, frustrações e cicatrizes emocionais profundas, mas que jamais abandona o instinto de proteger. Sara é uma mulher constantemente empurrada ao limite, defendendo a si mesma e às crianças do grupo da única maneira que consegue, enquanto tenta preservar algum resquício de esperança em um mundo construído para destruir qualquer traço de inocência.
As cenas protagonizadas por Gilpin carregam justamente essa dualidade desconfortável que a série trabalha tão bem: em alguns momentos, causam repulsa; em outros, admiração absoluta. Sara não é heroica no sentido clássico. Ela é dolorosamente real.
O mesmo vale para Dane DeHaan. Conhecido por muitos como o Duende Verde de O Espetacular Homem-Aranha 2, o ator surge aqui quase irreconhecível. Em Terra Indomável, ele entrega um homem consumido pelo desgaste psicológico, pela paranoia e pela exaustão emocional constante.
Existe algo em sua atuação que lembra o estado mental desesperado vivido por Leonardo DiCaprio em O Regresso. E isso não é exagero. DeHaan constrói um personagem permanentemente à beira do colapso, como alguém esmagado pelo ambiente ao redor e incapaz de encontrar qualquer sensação real de descanso ou pertencimento.
É justamente por isso que a obra permanece na cabeça mesmo depois do último episódio. Porque a série compreende algo que parte do debate contemporâneo parece esquecer: civilização nunca significou ausência de barbárie, apenas reorganização. Mudam as épocas, os discursos, as fronteiras e as armas, mas o ser humano continua atravessado pelos mesmos medos, pelas mesmas disputas e pela mesma necessidade desesperada de pertencimento.
Hoje observamos nossas próprias crises amplificadas pelas redes sociais, pela velocidade da informação e pela obrigação constante de tomar partido. A violência mudou de roupa, mas continua existindo.
Existe algo profundamente honesto na maneira como Terra Indomável encara essa realidade. A série não oferece conforto, respostas fáceis ou heróis absolutos. Oferece apenas pessoas reais tentando sobreviver a um mundo brutal — exatamente como fazemos hoje, ainda que sob medidas diferentes. O passado não era mais digno, mais puro ou moralmente superior. Era apenas um lugar onde a violência ainda não havia aprendido a se esconder tão bem.
Encarar isso é mais desconfortável — e mais necessário — do que continuar acreditando em qualquer nostalgia conveniente.
Terra Indomável está disponível na Netflix.
Leonardo de Oliveira é músico, publicitário, repórter e escritor