A ascensão vertiginosa da inteligência artificial e das ferramentas de automação na escrita tem acendido debate inevitável: as máquinas poderão, algum dia, substituir o escritor? À primeira vista, algoritmos parecem capazes de tudo. Eles cruzam dados, combinam palavras em milissegundos, mimetizam estilos consagrados e estruturam narrativas com precisão cirúrgica. No entanto, há uma fronteira intransponível entre o processamento de dados e o ato de conceber literatura. A tecnologia, por mais avançada que seja, não substitui o pensamento crítico nem a essência da criação literária.
Essas ideias vêm ocupando a cena intelectual em todo o mundo e foram tema de diversas mesas do evento ‘São Paulo Innovation Week’, que desde o início de maio e por duas semanas movimentou a capital dos paulistas na Arena Pacaembu, na Fundação Armando Alvares Penteado e nas periferias da cidade. O SPIW teve como proposta enxergar as transformações do mundo contemporâneo sob diferentes perspectivas e, mais que um festival, foi ponto de encontro de especialistas que refletiram sobre a influência da tecnologia no cotidiano e na criatividade. Debates, oficinas e experiências imersivas voltadas a tecnologia, empreendedorismo, trabalho e cultura mobilizaram o público interessado em ouvir opiniões de nomes expressivos do Brasil e Exterior nas áreas citadas. Um deles, Rebecca Goldstein, 76, norte-americana, autora de dez títulos de ficção e não-ficção, entre os quais ‘Platão no Googleplex: Por que a filosofia não vai acabar’.
‘Criar é trazer algo novo ao mundo, algo que não estava nele antes. Humanos, queremos provar para nós mesmos que não estamos desperdiçando nosso tempo. É isso que nos diferencia de outras espécies’, considerou a escritora ao participar da mesa cuja tema era ‘O poder da criação, como juntar pensamento e ficção’. Rebecca, agraciada com a Medalha Nacional de Humanidades pelo ex- presidente Barack Obama, e filada intelectualmente ao pensamento de Bertrand Russell e Baruch Spinoza, falou sobre as relações entre tecnologia, pensamento e criação literária. Por uma hora expôs seu ponto de vista segundo o qual o ato de escrever está intrinsecamente ligado ao pensamento - uma atividade que vai muito além de gerar respostas rápidas. Pensar criticamente por meio da escrita é um processo muitas vezes doloroso e caótico. O autor hesita, apaga, reformula e, nesse percurso de dúvida, descobre o que realmente quer dizer. A inteligência artificial elimina o esforço da busca, entregando um produto pronto e polido. Mas, ao pular o processo, elide a profundidade.
Acho que todos que escrevem concordam com a filósofa. Uma literatura gerada sem a angústia da escolha e sem o peso da intencionalidade intelectual tende a ser estéril, uma casca vazia de significado profundo. Porque literatura não é um mero arranjo estatístico de vocábulos agradáveis ou coerentes entre si. O fato literário nasce da experiência humana, do atrito com o mundo, das dores, amores e muito especialmente das contradições que constituem o humano. Um algoritmo cria com base no passado; ele analisa bilhões de textos existentes para prever qual palavra deve vir a seguir, num tipo de eco sofisticado. A verdadeira literatura, seja a de um ficcionista ou a de um poeta, reside na capacidade de romper com o previsível. Ela surge do imprevisto, da metáfora inédita que nasce de um trauma de infância ou de um detalhe observado pela fresta de uma janela. A máquina simula a emoção, mas é o escritor que a vive. Ao lado de Rebecca, a psicanalista brasileira Maria Homem, autora dos livros ‘Coisa de menina?’ e ‘Lupa da Alma’, atuou como moderadora e em certo momento usou uma frase que soou perfeita no contexto: “Estou na missão delirante de ampliação com a consciência e entendo que a criação vem da angústia’. E a angústia, sabemos, é sentimento genuinamente humano.
Ambas rejeitaram, portanto, a ideia de que as máquinas vão substituir escritores, como já estão substituindo rapidamente caixas de supermercados. Mas ao responder a questões filosóficas que o progresso científico e tecnológico vem provocando, o marido de Rebecca, o linguista canadense Steven Pinker, que também esteve no evento e participou de outra mesa com o físico e escritor brasileiro Marcelo Gleiser, teve uma postura menos assertiva e mais cuidadosa revelada na afirmação de que “somos ignorantes sobre as desvantagens das novas tecnologias. Não temos bola de cristal sobre os perigos à frente. Temos de aprender a fazer ajustes, conforme formos avançando.’
Acompanhando as considerações de Rebecca, Maria Homem e Pinker, fiquei pensando se essas máquinas às quais chamamos Inteligência Emocional estão realmente pensando, se vão de fato nos substituir no ato de pensar, se afetarão radicalmente a criatividade humana. Acho que não, mesmo diante dos computadores que agilizam pesquisas, organizam cronogramas, até ajudam a vencer o bloqueio da página em branco ao sugerir caminhos. Sou levada a crer que a argumentação de muitos que pensam diferente talvez se restrinja à equação instrumento e artista. O pincel não pinta sozinho; o processador de texto e a IA são apenas extensões modernas da esferográfica que substituiu a pena. O núcleo da obra - a centelha que faz o leitor se arrepiar e se reconhecer na página - continua e continuará dependendo exclusivamente da mente e do coração humanos. A tecnologia pode democratizar o acesso à escrita e refinar a técnica, mas a alma da literatura permanece protegida pela nossa própria humanidade. Enquanto as máquinas operam na esfera da lógica e da probabilidade, a verdadeira literatura prospera no terreno do paradoxo, do mistério, da ambiguidade e, claro, antes de tudo, da sensibilidade. Ela não se restringe a algoritmos otimizados, ela é expressão viva da nossa busca por sentido. E essa busca, nenhuma linha de código jamais poderá fazer por nós.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras