Nesta última semana, o Governo Federal lançou o programa Desenrola 2.0, voltado à renegociação de dívidas. Com algumas mudanças em relação à primeira edição, a ação tenta ser mais eficaz, uma vez que o primeiro Desenrola, lançado em maio de 2024, não surtiu o efeito desejado: o endividamento e a inadimplência, por fim, aumentaram. De acordo com dados do Serasa, Jundiaí tinha 146.375 pessoas inadimplentes em março de 2025. No mês de março deste ano, o número subiu para 154.919.
O endividamento na cidade também subiu: eram 590.020 dívidas em março do ano passado e, no mesmo mês deste ano, a cidade soma 670.810 dívidas. A média de valor (tíquete médio) da inadimplência saltou de R$ 7.654,64 para R$ 8.839,05. O tíquete médio das dívidas foi de R$ 1.899 para R$ 2.041,32. Neste cenário, o valor total das dívidas de jundiaienses foi de cerca de R$ 1,12 bilhão para cerca de R$ 1,37 bilhão.
Nesta nova roupagem do Desenrola, uma das apostas do Governo Federal para diminuir a inadimplência é o uso do FGTS para abatimento de dívida. A medida é polêmica, pois é vista como paliativa. Educadora financeira, Cíntia Senna diz que o programa resolve questões de curto prazo, mas não age na raiz do problema e não planeja o longo prazo, porque não há educação financeira.
“Se a gente olhar, este é o segundo Desenrola e não sentimos tanto efeito no primeiro, o que mostra a falta de tirar a pessoa da inadimplência e orientar para que não volte. É o olhar para o problema e não para a causa, que resolve temporariamente, mas não definitivamente. É um programa importante, mas tem que ter uma medida paralela, senão posso até ampliar o problema. A pessoa sai da inadimplência e pode assumir outros compromissos sem entender o que a levou àquela situação, então pode voltar”, explica.
Para além da falta de uma educação financeira, há fatores que fragilizam a saúde financeira da população. Um dos assuntos mais recorrentes na Justiça envolvendo direito do consumidor e contratos de consumo é o empréstimo consignado. Fica atrás apenas do financiamento de produtos. Quando o contrato de consumo é bancário, o empréstimo consignado é o que mais gera ações na Justiça. Só neste ano, entre janeiro e março, a Justiça já recebeu 77 novos casos relacionados ao assunto em Jundiaí. No ano passado, foram 305, e impressionantes 494 em 2024. O que indica melhor no cenário, apesar dos números ainda altos.
A educadora financeira Cíntia Senna enxerga dois cenários relacionados aos empréstimos. “No primeiro cenário está quem, mesmo com mais informação, pode enxergar o consignado como uma ‘alternativa mais barata’, porque olha para as taxas de juros mais atrativas e tem uma falsa percepção positiva, mas a instituição financeira pode tirar o dinheiro direto da conta, sem alternativa. A pessoa olha a taxa, mas não olha o impacto ao longo do contrato. E esse empréstimo é apresentado como uma resolução de problemas, só que esses aposentados, funcionários públicos, adiam o problema e não resolvem, e têm dificuldade de negociação.”
“O segundo caso é o de quem não tem informação e acaba até sendo enganado. Existe uma oferta muito grande de crédito, até para quem não procura e não precisa. A falta de informação pode levar a pessoa a aceitar sem nem saber, fora as fraudes que podem acontecer. As pessoas vão até o banco para tirar dinheiro ou fazer prova de vida e são abordadas e informadas sobre um suposto ‘benefício’ aprovado, mas que na verdade não é benefício, é o empréstimo. Então teria que mudar a forma como essas pessoas podem ser abordadas. As pessoas descobrirem que estão aposentadas por causa dos telefonemas oferecendo crédito indica que há a disponibilização de dados e a oferta massiva de crédito, sem critério. Isso poderia ser melhor regulamentado”, diz a profissional.
De acordo com levantamento do Procon-SP feito neste ano, a taxa média de juros praticada pelos principais bancos do país alcança 160,2% ao ano. O levantamento foi feito em seis instituições financeiras e reflete o custo elevado do crédito para o consumidor brasileiro. A pesquisa envolveu as instituições Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú, Safra e Santander, com coleta de taxas vigentes em 3 de março de 2026. Os dados se referem às taxas máximas pré-fixadas para clientes pessoa física não preferenciais, independentemente do canal de contratação. Para o cheque especial foi considerado o período de 30 dias e, para o empréstimo pessoal, prazo de 12 meses.
No empréstimo pessoal, a taxa média entre os bancos pesquisados foi de 8,30% ao mês, o que corresponde a 160,2% ao ano. No cheque especial, a taxa média dos bancos pesquisados foi de 8% ao mês, o que corresponde a 151,8% ao ano. Isso indica que, caso eu tome R$ 1 mil emprestados os juros representarão R$ 1.602 do valor total pago, que é a somatória do valor inicial com a incidência da taxa média observada pelo Procon-SP.