Porque ainda era abril, mês de aniversário do saudoso intelectual francano Alfredo Palermo, patrono da cadeira 18 que ocupo, estive na AFL no dia 24 a fim de falar um pouco a respeito de sua vida e da obra literária que nos legou, caracterizada pela pluralidade de gêneros.
A propósito, considero essencial para a memória das letras francanas o resgate de biografias e bibliografias de todos os patronos, iniciativa dos últimos presidentes da instituição que já rendeu momentos expressivos. José Lourenço Alves discorreu no final do ano passado sobre o poeta e ficcionista Antônio Constantino, que o inspirou na construção de seu belo romance Casa sobre pedra; Tânia Mara narrou recentemente detalhes interessantes da vida da autora de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus, escritora que teve rápida passagem por Franca no seu trânsito de Minas para a capital paulista; Eric Nascimento trouxe à baila no mês de março Franc da Pauliceia, autor que está na gênese da literatura francana e é pouco conhecido entre nós.
Esse olhar em retrospectiva me parece necessário e responde a uma demanda genuína da própria Academia. Vivemos numa cultura onde memórias não são relevantes e elementos que deveriam ser preservados são rapidamente tragados pela voragem do tempo, sejam eles uma simples careta que adornava fonte de água potável na rua General Osório; uma construção imponente e representativa de época como o Hotel Francano, no coração da cidade; uma casa dos anos 40 na rua do Comércio, das mais antigas vias de Franca, onde viveu por mais de meio século o francano que também defendia a preservação da memória nos moldes como ela ainda se dá em lugares onde a civilização avançou mais. Com esse último fato em mente, ou seja, a casa demolida para ceder lugar a estacionamento, procurei superar a melancolia e mostrar na última quarta-feira, aos confrades e confreiras que me honraram com suas presenças, dados relevantes do seu antigo morador, Alfredo Palermo- professor, advogado, historiador, político, humanista, escritor que fixou nas páginas que escreveu, nas palestras que proferiu, nas aulas que ministrou, na presença assertiva em fatos decisivos da cidade, retratos de uma Franca que viu crescer e de um povo que o inspirou.
Era filho de italianos que chegaram ao Brasil no começo do século XX, já com uma filha. Aqui o casal teve mais sete filhos. Praticamente todos os irmãos criaram e dirigiram ao longo de décadas algumas das principais indústrias de calçados de Franca. Alfredo Palermo seguiu outro caminho, o do labor intelectual. Faleceu aos 92 anos, no dia 30 de dezembro de 2009, em São Paulo, onde estava internado no Hospital Nove de Julho. Casado com Nydia de Castro por 66 anos, deixou três filhos, três netos, um bisneto.
Sua vida escolar teve início no Grupo ‘Coronel Francisco Martins’, que funcionava onde hoje se encontra a sede dos Correios, e continuou no Ensino Médio, no Colégio Champagnat, escolas que serão mencionadas em muitos de seus textos. Quando chegou a época de escolher caminhos profissionais, optou pelo Direito, influenciado por uma sessão de júri a que assistira no fórum de Franca em 1933. As qualidades de orador de Antônio Constantino na defesa dos réus foram inspiradoras e decisivas para o adolescente que presenciou o advogado transformar-se ‘num gigante às barras do tribunal, com sua argumentação extraordinária e sua voz de tenor’, conforme se lê em uma de suas crônicas. Constantino, que influenciou Alfredo Palermo, havia sido influenciado por Sabino Loureiro. São três nomes importantes na história cultural de nossa cidade.
Aprovado para o tradicional Curso de Direito do Largo de São Francisco, formou-se em janeiro de 1940, ano em que participou de um Concurso de Oratória, que venceu, tendo ficado em segundo lugar Jânio Quadros, futuro presidente do nosso país. Neste mesmo ano, terminou o Curso de Letras, também na USP, tendo cursado os dois concomitantemente. Gostava de lembrar que havia feito parte da primeira turma que tivera como mestres renomados professores europeus convidados a compor o corpo docente daquela universidade.
Diplomado em 1940, foi para Marília, contratado como Professor de Português. Atuava no magistério e também como advogado. Sua escrita elegante e a inegável capacidade de análise estrearam no jornal daquela cidade em comentários sobre política, esporte, vida social. Em 1942 estava de volta a Franca. Tendo vagado a cadeira de Língua Portuguesa, no Ginásio do Estado, por conta da morte do professor catedrático, prestou concurso público, passou brilhantemente e assumiu seu cargo na escola que logo mudaria o nome para Instituto Estadual de Educação Torquato Caleiro. Em 1952 criou com alguns colegas a Faculdade de Ciências Econômicas; seis anos depois, passou a lecionar na Faculdade de Direito de Franca, tendo sido seu diretor por doze anos. Instalou em 1963 a FFCL, hoje faculdade de História, Direito e Serviço Social da UNESP, da qual também foi professor e diretor. Em 1973, doutorou-se na USP com a tese “Os Direitos e Garantias individuais e a Constituição do Império”. Concursado da UNESP desde 1975, ali fez Livre Docência, defendendo a tese “Moral e Civismo na Legislação Escolar Brasileira”, em 1982. Em 1985 passou a professor titular.
Lecionou também na Unaerp e na Unifran. Foi conferencista e palestrante. Tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico, da Academia Ribeirãopretana de Letras e desta Academia Francana de Letras, que fundou junto com Jane Mahalem, Everton de Paula e Josaphah Guimarães França. Integrou bancas examinadoras de professores universitários em vários graus: mestrado, doutorado, livre docência, docência, titular- na USP, no Mackenzie e na Unesp.
Na política, por volta de 1950, foi suplente de deputado federal por São Paulo, atraído pelo PDC por antigos companheiros do Largo de São Francisco, como Jânio Quadros, Franco Montoro e Queirós Filho. Quando este último, eleito deputado, foi ocupar a Secretaria da Justiça de Jânio Quadros, Palermo assumiu a suplência e foi para a Câmara Federal, no Rio de Janeiro, lá atuando por três anos. Apresentou projetos relevantes como um esboço para o que seria depois tratado como “Justiça de pequenas causas” e outro sobre normas mais abrangentes e facilitadoras no Ensino Rural.
Como escritor, é autor das seguintes obras: “Estudo dos problemas brasileiros” (1972); “Estudos Sociais” (1974); “Protesto Cambial, Sustação e Cancelamento” (1976); “Direito Social no Brasil’ (1978); “A Franca- Apontamentos sobre sua História, suas instituições e sua gente” (1984); “Letras avulsas e Ritmos proscritos” (1994). Compôs para a partitura do Maestro Waldemar Roberto, a letra do Hino da Franca, tornado oficial em 1966.
Como se pode perceber, a maioria de seus livros abrangeu temas relacionados ao Direito e à História, embora manifestasse paixão pela literatura, segundo se depreende dos textos que por sessenta anos publicou no “Comércio da Franca”, onde atuou sob quatro direções de características distintas: Ricardo Pucci, Alfredo Costa, Corrêa Neves e Corrêa Neves Júnior. Redator, herdou de Constantino a Gazetilha que os francanos se habituaram a ler nas edições de domingo. Participou de todos os cadernos literários publicados pelo jornal: Letras Avulsas; Letras, Artes e Cia; Caderno de Domingo; Nossas Letras.
Sua periodicidade como colunista era admirável. Mesmo quando viajava, e muitas vezes ao Exterior, enviava seus textos para o jornal via Correios e Fax. Nas páginas do ‘Comércio’ está toda sua produção literária. Começou pela poesia, com os 21 poemas escritos nos anos 40 e 50, reunidos no volume “Letras Avulsas e Ritmos Proscritos”. Caminhou pelos artigos. Assinou centenas de resenhas e milhares de crônicas. Experimentou a ficção com curiosidade e alegria, rememorando a Franca de seus tempos de menino e a São Paulo de sua vida de universitário.
A atividade de escritor, mais suas obras de cunho jurídico e histórico, a atuação no magistério, a passagem pela Câmara Federal e o trabalho para criar e instalar faculdades, o tornaram conhecido como ‘ícone da intelectualidade’ em Franca. Um aposto que lhe caía como luva porque era verdadeiro. Quando alguém citava a frase em plagas francanas, sabia-se de antemão a quem ela se referia. Como ícone, não foi apenas um estudioso que acumulou vasto conhecimento, mas acima de tudo um humanista que compartilhou seu saber. Transcendeu a erudição técnica, agindo como uma ponte entre a complexidade do pensamento abstrato e a realidade palpável da experiência humana. Sua marca registrada foi a curiosidade incansável pelo mundo, a vida, as pessoas, os livros, as artes, a literatura, o Direito, a História, a Educação. Sua voz ecoou por gerações. Discutindo ética, o impacto da tecnologia, as mudanças do clima, o surgimento de novos comportamentos, a beleza da língua portuguesa, o lançamento de um livro ou a estética de uma pintura, sempre buscava algo que estava na raiz dos fatos, não apenas na sua superfície. Para ele, o saber não representava motivo para isolamento, ao contrário, deveria ser o meio pelo qual se tornaria mais fácil aproximar -se do outro e o compreender. Dessa forma, colocou sua inteligência e bagagem intelectual a serviço de uma causa, a da cidade onde nasceu e viveu, e a do povo francano que tantas vezes apareceu nos seus textos e na sua fala.
Em suma, Alfredo Palermo foi um arquiteto de significados que transformou a atividade intelectual em ato de compromisso com a cidade que amava e com a população que via orgulhosamente crescer. Sua vida foi exemplo de trabalho e sua obra constitui legado para o qual os francanos que valorizam conhecimento, sensibilidade e patrimônio cultural devem olhar com admiração e respeito, não permitindo que Autor e Obras recaiam no ostracismo.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras