Uma reflexão sobre a Artemis II e a Guerra no Oriente Médio me fez lembrar a narrativa onde "Dr. Jekyll e Mr. Hyde" são protagonistas no conhecido romance ‘O médico e o monstro’, do escocês Robert Louis Stevenson, mestre da literatura gótica que explora a dualidade humana. Explico. O mesmo conhecimento científico necessário para calcular o itinerário da nave espacial é utilizado para traçar a trajetória de mísseis balísticos que cruzam o Oriente Médio. E a inteligência artificial que auxiliou os astronautas na manutenção da vida na Orion, é a mesma que continua alimentando sistemas autônomos de ataque mortífero.
Quem viu as fotos estampadas nos noticiários dos últimos dias vai me dar razão: é quase impossível ignorar que a humanidade se encontra em um ponto de antinomia em nível até aqui inimaginável. Nos mesmos dias, de um lado seres humanos chegaram ao ponto mais distante da Terra já alcançado desde 1972, representando o ápice da engenharia, cooperação científica e expansão. De outro, o Oriente Médio ardeu em chamas, com EUA e Israel lançando ataques contra Irã e Líbano, tentando redesenhar o mapa de seus interesses com uso de armas letais de alta tecnologia e preciso alcance. Vida e morte vis-à-vis neste momento da história humana.
O paradoxo é perturbador se considerarmos que a capacidade de transcender as fronteiras físicas da Terra e exibir a beleza do planeta no espaço contrasta com a capacidade de usar tecnologia de ponta para matar pessoas e destruir infraestruturas na própria Terra, em cenários que vêm retomando cada vez mais contextos de barbárie. O ano de 2026 está nos
lembrando que somos, nós, seres humanos, esplêndidos exploradores e ferrenhos destruidores.
Ao contornar o lado oculto da Lua, levando quatro astronautas a mais de 1,1 milhão de quilômetros de distância, numa manobra que utilizou a própria gravidade dos astros para a navegação, a missão Artemis despertou grande admiração pelo conhecimento, coragem e entusiasmo revelados. Se Apollo (deus do Sol, da verdade e da cura), nome de outra missão que levou à Lua o primeiro homem em 1969, trouxe à luz o conhecimento técnico, sua irmã gêmea Artemis (deusa da caça, da vida selvagem, do parto e das mulheres), está nos mostrando os caminhos da exploração sustentável. Apollo representou a chegada; Artemis é a permanência. O que começou com o irmão, será completado pela irmã. Como não se encantar com o belo significado dos nomes, a profundidade do conceito e o êxito espetacular dessa viagem que marca o retorno da humanidade à Lua? O simbolismo da Artemis é de futuro e união, pois ela está mirando a exploração de recursos lunares para o benefício comum e a construção de bases permanentes. As fotos capturadas pela tripulação mostrando a Terra vista do espaço profundo servem como um lembrete vívido da fragilidade da nossa casa no universo. A missão Artemis é a tecnologia em sua forma mais nobre: a da preservação da vida.
Em contraste brutal, essa mesma tecnologia está sendo aplicada numa guerra que envolve, até agora, quatro países e milhões de indivíduos. Em menos de um mês, ataques coordenados mataram adultos e crianças e atingiram centenas de instalações, incluindo alvos militares e civis, nucleares e econômicos. Na guerra, a precisão tecnológica usada para guiar mísseis e drones não serve à construção, mas à desconstrução de estados, à eliminação de lideranças, à violência contra pessoas comuns: é a morte sob todas as formas.
Penso, como milhões de outros mortais, que nos ataques bélicos contemporâneos o uso de drones de última geração e de sistemas antimísseis cada vez mais avançados, demonstra uma sofisticação que, se fosse aplicada à cura de doenças ou à sustentabilidade ambiental, poderia resolver crises globais em pouco tempo. O que se vê, no entanto, e neste momento, é o conflito recrudescendo e gerando ondas de choque econômicas, elevando os preços do petróleo e ameaçando o comércio global através do Estreito de Ormuz. O custo econômico e humano de qualquer guerra é um investimento na destruição e no curto prazo. As operações dos EUA no Oriente Médio custarão bilhões de dólares em semanas, recursos que, se destinados ao programa Artemis, acelerariam a colonização espacial ou o estudo de novas energias.
A Artemis II é um espelho das nossas melhores capacidades: a curiosidade, a audácia e o aparato técnico para superar limites físicos e alcançar meios de viabilizar um futuro sustentável. A Guerra do Oriente Médio reflete uma de nossas piores características: a incapacidade de superar antigas rivalidades, usando tecnologia de ponta para matar, destruir, retroceder a um patamar primitivo.
A nave nos alça ao espaço infinito que nos é dado compartilhar ao vivo, mais um milagre da tecnologia; as armas nos rebaixam ao atoleiro que nos paralisa e destrói, fazendo lembrar o passado de impérios que soçobraram e dos quais restaram apenas tênues notícias.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras