O ar não para por aí, circular é a natureza do movimento. O tempo mudou e uma frente fria se aproxima, ou quente. Onde no planeta está quem diz: Teerã? Washington? Franca? De observar aprende-se que o ar não tem cultura nem culpa, o ar não tem história, é um Titã à solta. O ar não tem cor forma ou sabor, não é singular. O ar composto cuja missão é ocupar espaços acumula, de qualquer ponto na Terra até o céu o ar cintila azuis. É o fenômeno da “dispersão de Rayleigh”, as moléculas na mistura de nitrogênio, argônio, dióxido de carbono, neon, hélio, criptônio, ozônio e hidrogênio, espalham a luz solar branca em todas as direções; as ondas de luz na frequência azul, que são menores e mais intensas, tornam-se predominantes aos olhos.
Respirar é o primeiro esforço. Antes de termos consciência tudo existia, mas sem o ar. Éramos com a mãe uma só carne, um só espírito. No escuro silencioso e acolhedor: saber-se vivo no ato de respirar é o primeiro susto. Nove meses depois, em torno do corpo havia a opressora invisível de ar. Imensa bolha pesada não líquida, mas que de alguma forma lembrava a placenta. Na presença esmagadora da atmosfera, o medo e a insegurança contorcem os intestinos. E pronto, para sempre a estranha sensação de ser. Não há para onde voltar, a vida que chama é um estado sem escolha, uma covardia. Desprotegido porque separado, a minúscula massa de carne, sangue e ossos frágeis, chora. O único caminho percebido como saída para a desintegração eminente, era aceitar o impasse: então o ar filtrado em filamentos de oxigênio penetra as narinas que respondem naturalmente à pressão interna em convulsão: alvéolos e pulmão ordenam a primeira palavra sem voz da gênese: expira. O ar nos invade preenchendo por dentro uma negação. Permitir vem antes de aceitar quando não há escolha. O ar entranhado faz o frágil corpo fazer parte de todo o resto. Resolver a vida é continuar respirando. Tão rápido se acostuma respirar, esquecemos da agonia do parto. A bem da verdade, o ar de cada inspiração é uma lembrança constante de que a única resolução definitiva conhecida é nosso retorno certo ao hálito divino.
Ao nível do mar, o ar pesa mais que no cume do Himalaia. Aos francanos, basta descer a Serra de Rifaina para os ouvidos sentirem o peso do ar na pressão da atmosfera. Atmós é vapor e sphaîra é globo-esfera: os gregos já sabiam antes de Cristo ser uma placenta úmida a camada de ar que envolve o planeta. Dos quatro elementos primordiais - terra, fogo, água e ar - o ar representa o intelecto e a comunicação, é o invisível que conecta melhor representando o peso da insuficiência constante.
O ar traz em si propriedades contraditórias, feito o amor: tanto pode devastar expandindo em combustão os covardes quanto petrificar gélido o mais destemido dentre os corações. O ar está no fundamento da respiração de todos os seres vivos, mas para nós bípedes egocêntricos importa os 21% de oxigênio na mistura. Escolhendo não falar sobre as guerras, poetas inventam mar navegável nos ares, ali cardumes de carpas douradas flutuam translucidas. Os poetas deliram; mas cientistas, não. Quem treina olhar pode ver nos ares rios se movendo entre nuvens. Vapores condensados, é um dado científico o conceito de “rios voadores” que são correntes de ar invisíveis carregadas H20. Com ou sem carpas douradas translúcidas, o ar transporta umidade da floresta Amazônica para outras regiões do Brasil, distribuindo chuvas e mantendo o equilíbrio climático.
Quando escrevo ordeno meus pensamentos, essas coisas rarefeitas não são ditas numa conversa de bar. Mas cada um de nós, no banho frio quando nosso corpo quente e exausto sente o jato de ar expandir os pulmões, um lampejo do primeiro desacerto é lembrado: aquela escolha fundamental de respirar fundo para encarar a vida. É quando a ilusão de um céu azul renova as mazelas do inacabado.
O acúmulo de AR na atmosfera, assim densa e leve, expande por um momento nossa potência de ser no mundo. No banheiro úmido, útero e placenta, o céu cabe inteiro e de novo encontra lugar nas células e vísceras, diluindo as desilusões em porções sustentáveis para a consciência dos dias.
Quem de cansado já não espera por milagres não repara, mas desde a primeira luz da aurora até o crepúsculo nossa respiração desvanece esquecimento para o corpo. E assim a vida pulsa, apesar de tudo e tanto. O peso das futilidades, as distrações graves que atravessam a lista das nossas prioridades. Nossas prioridades, o que são? A pressa engole a poesia, tão logo caia a noite o azul já não existe. Na breve retomada do repouso, a bravata de mais um dia nos convida ao recolhimento seguro: respirando! O mundo a girar fisga o espírito para aquele lugar umbilical de resgate, e na posição de feto mais uma vez adormece para a morte justa quem na busca por esferas mais altas ainda sabe ser os sonhos um ensaio sobre o maravilhoso.
Baltazar Gonçalves é professor de História, poeta escritor membro da Academia Francana de Letras