Em meio a um cenário cada vez mais preocupante de afastamento da leitura, uma iniciativa realizada na manhã da última sexta-feira, 27, em Franca buscou reacender o interesse pelos livros e reforçar a importância desse hábito para a formação intelectual e social.
Um professor levou um grupo de alunos até a livraria Lemos e Cruz, com o objetivo de proporcionar uma experiência direta com o universo literário - algo que, segundo ele, tem se tornado cada vez mais raro.
A proposta foi simples, mas carregada de significado: colocar os estudantes frente a frente com o livro físico. Folhear páginas, sentir o cheiro do papel e vivenciar o ambiente de uma livraria - experiências que, para muitos jovens, já não fazem parte da rotina.
“Meu intuito é mostrar para eles e para todos a importância da leitura, como um fator de evolução e crescimento da sociedade”, destacou o professor e advogado Acir de Matos Gomes.
A ação também evidencia um problema crescente: a escassez de livrarias. Em Franca, esses espaços vêm diminuindo ao longo dos anos, levantando um alerta sobre o futuro do acesso à leitura. Para Acir, existe o risco real de que novas gerações sequer saibam o que é uma livraria.
“Acredito que pode chegar um momento em que muitos alunos não saberão o que é uma livraria ou um livro físico”, afirmou.
Mais do que um hábito cultural, a leitura é um pilar fundamental para o desenvolvimento humano. É por meio dela que o indivíduo amplia sua visão de mundo, desenvolve o pensamento crítico, aprimora a capacidade de interpretação e constrói conhecimento. Quando esse hábito se perde, o impacto vai além do indivíduo, atingindo toda a sociedade, que passa a enfrentar um empobrecimento intelectual e uma maior dificuldade na formação de cidadãos conscientes.
Mas foi durante a visita que a emoção tomou conta do ambiente.
Surpreso com a presença dos alunos, o dono da livraria, Francisco de Assis, não conteve as lágrimas. Visivelmente emocionado, ele desabafou sobre a realidade difícil que enfrenta para manter o espaço aberto.
Segundo ele, há dias em que uma pessoa sequer entra na loja. “A internet não é igual ao livro físico. As pessoas estão se afastando dos livros”, lamentou.
Há quatro anos trabalhando no prejuízo, Francisco afirma que continua de portas abertas por amor à profissão e à leitura. “Frequentem livrarias, não se afastem dos livros”, pediu, com a voz embargada.
Durante o encontro, ele também compartilhou sua trajetória de vida, marcada por dificuldades, superação e disciplina. Contou que saiu de Araçatuba aos 14 anos, apenas com uma mala e o dinheiro da passagem, sem saber exatamente o que encontraria pela frente.
Foi em Leme que começou sua jornada, vendendo livros de porta em porta. Ao longo dos anos, percorreu cidades como Campinas e Goiânia, enfrentando uma rotina intensa de trabalho.
“Já dormi em banco de praça, até em cemitério, quando não tinha onde ficar. Vim do nada, mas sempre tive foco, determinação e disciplina”, relembrou.
Mesmo com pouca escolaridade, ele construiu sua vida com esforço e encontrou nos livros um caminho de transformação.
Ao lado da mulher, Eliana, com quem se casou aos 17 anos, enfrentou tempos difíceis - desde dormir no chão até cozinhar em latas improvisadas. Ainda assim, nunca desistiu.
Hoje, além de manter a livraria, ele faz questão de compartilhar ensinamentos que carrega para a vida, principalmente sobre disciplina e responsabilidade.
“Dinheiro não é feito para gastar, é feito para somar. Se você ganha, guarde pelo menos 30%”, aconselhou.
A visita, que começou como uma simples atividade educativa, terminou como um momento marcante de reflexão - não apenas para os alunos, mas para todos os presentes.