19 de março de 2026
FEMINICÍDIO

Macho alfa, fêmea beta: de onde vem linguagem de tenente-coronel?

da Folhapress
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Reprodução
PM Geraldo Neto usava termos distorcidos da biologia para humilhar a esposa

Mensagens de celular revelam que o tenente-coronel da PM Geraldo Neto usava termos distorcidos da biologia, como "macho alfa" e "fêmea beta", para humilhar a esposa, a soldado Gisele Alves, morta com um tiro na cabeça.

Geraldo Neto foi preso hoje por suspeita de feminicídio, violência doméstica e fraude processual. A perícia concluiu que o agressor imobilizou a vítima por trás e atirou contra a cabeça dela com uma pistola.

O laudo descartou a tese de suicídio apontada pelo suspeito. Os padrões de sangue no local e o tiro súbito pelas costas inviabilizaram qualquer chance de defesa da vítima.

O celular do oficial revelou mensagens com ofensas machistas enviadas dois dias antes do crime. "Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa", escreveu Geraldo.

Gisele se recusava a aceitar as humilhações exigidas pelo marido. "Por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final", respondeu a vítima após ser chamada de "burra".

A origem científica dos termos

A raiz do vocabulário vem de uma interpretação antiga e já corrigida sobre o comportamento de lobos. O biólogo L. David Mech explica que a ideia nasceu de estudos em cativeiro, mas na natureza as matilhas funcionam como grupos familiares.

O primatólogo Frans de Waal popularizou o termo ao estudar hierarquias entre chimpanzés. Anos depois, ele passou a criticar a forma como a expressão foi transformada em sinônimo de homem autoritário.

O conceito original define apenas a posição mais alta na hierarquia, não uma personalidade agressiva. "Outras pessoas começaram a usá-lo para um homem que não é apenas forte e um líder, mas também um valentão. Nunca usei o termo nesse sentido", explicou de Waal.

O significado atual na internet

A internet transformou a noção distorcida em jargão de comunidades misóginas. A ONU Mulheres afirma que essa classificação reduz as mulheres a papéis de obediência dentro de uma lógica de poder masculino, a chamada "machosfera".

Expressões como "macho alfa" não têm respaldo científico atual para descrever pessoas. O termo define hoje o conceito de masculinidade como hierarquia e agressividade, segundo as professoras Jwana Aziz e Anna Lavis, especialistas em antropologia da Universidade de Birmingham, descrevem em artigo publicado no The Conversation.

A teoria atual da internet define o "beta" como fracassado e enquadra mulheres na subordinação. Quando o raciocínio é aplicado a elas, o sentido é violento, pautado por parâmetros de obediência e valor sexual.

Prisão e defesa

O Ministério Público apoiou o pedido de prisão feito pela Polícia Militar. Os promotores avaliaram que existem requisitos legais e provas suficientes para manter o tenente-coronel detido.

A defesa do policial contesta a legalidade da prisão preventiva. O advogado Eugênio Malavasi afirma que a Justiça Militar não tem competência para o caso e defende que a decisão cabe à Justiça Comum.