15 de março de 2026
OPINIÃO

O que acontecerá com alguma ação se algum ministro cair?

Por Tiago Faggioni Bachur | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 6 min

A cada dia, surge uma nova notícia envolvendo Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que abala a credibilidade da instituição. São conversas vazadas, contratos suspeitos e negócios polêmicos. Enquanto o Congresso e a imprensa discutem impeachment ou perda de cargo, o aposentado fica no meio do tiroteio com uma dúvida cruel: se o Ministro cair, o que acontece com a minha aposentadoria? E com os julgamentos que foram feitos por ele? Recomeça do zero? Será anulado? Ou continuará valendo?

No Brasil, costumamos dizer que até o passado é incerto. Se você é segurado do INSS e está descansando sobre a ideia de que “o STF já decidiu” e seu direito está garantido, sinto lhe entregar um balde de água gelada: a segurança jurídica por aqui anda mais instável que conexão de internet em dia de tempestade.

 1.

Ministros, Togas e a Fragilidade do "Certo"

O STF deveria ser o guardião da Constituição, mas ultimamente temos visto mudanças de regras com a bola rolando. Muitas decisões parecem mais políticas do que jurídicas, priorizando o “equilíbrio fiscal” (o caixa do Governo) em vez do direito social de quem contribuiu a vida toda.

Se um Ministro sofre impeachment ou perde o cargo, a regra geral é o princípio do Tempus Regit Actum (o tempo rege o ato). Pela Teoria do Órgão, o Ministro atua como o Estado, não como pessoa física. Assim, o voto que ele deu enquanto estava no cargo continua valendo. O STF até reforçou isso com a Resolução nº 770/2022, para garantir que o voto em julgamentos virtuais permaneça lá, como um "fantasma jurídico" vigiando o processo.

O problema real surge se a saída do Ministro for motivada por corrupção ou interesse direto naquele julgamento específico. Se isso for provado, entramos no terreno perigoso das Ações Rescisórias. É o Judiciário admitindo que errou e desfazendo tudo. Para o segurado, isso significa ver uma vitória virar fumaça porque o julgamento foi contaminado. É a insegurança jurídica elevada à décima potência.

Por outro lado, se a decisão tinha sido desfavorável para o trabalhador, a ação rescisória pode vir para criar esperança em um novo julgamento.

 2.

As Decisões que Estão na "Berlinda"

Vejamos como ficam alguns dos temas que mais tiram o sono do trabalhador brasileiro:

a. A "Novela" da Revisão da Vida Toda

Esse é o exemplo clássico da bagunça. Primeiro o STF disse que sim, o segurado tinha direito de escolher a regra mais favorável. Milhares de pessoas entraram na justiça. O INSS entrou em pânico. Aí, em uma manobra digna de mestre do ilusionismo, o Supremo usou outro processo (as ADIs da Reforma de 99) para dizer que, na verdade, a regra de transição é obrigatória e a Revisão da Vida Toda “morreu”.

Em outras palavras, o STF definiu que os aposentados não podem optar pela regra mais vantajosa (incluir contribuições anteriores a julho de 1994) se a regra de transição da Lei nº 9.876/1999 (que ignora salários antigos) for aplicada. O STF cancelou a tese favorável definida em 2022.

Consequência: A revisão foi considerada inconstitucional. No entanto, o tribunal definiu que quem recebeu valores baseados em decisões provisórias/definitivas anteriores a 5 de abril de 2024 não precisará devolver o dinheiro. 

Se os Ministros que articularam essa virada de mesa saíssem hoje, a decisão mudaria? Dificilmente. O STF atual tem um viés "fiscalista", ou seja, se o direito do cidadão custa caro para o Governo, o direito costuma perder. A saída de um Ministro dificilmente mudaria essa mentalidade de "salvar o caixa da União" às custas do aposentado.

b. Vigilantes e a Periculosidade (Tema 1209)

O vigilante trabalha com a vida em risco, muitas vezes armado, enfrentando bandido. O STJ disse que era tempo especial.

O STF? Disse que o risco de morrer NÃO é “agente nocivo” o suficiente.

Mesmo que os Ministros responsáveis por essa reversão deixassem o cargo atualmente, é improvável que a decisão fosse alterada. Como anteriormente ressaltado, o Supremo Tribunal Federal demonstra atualmente uma orientação fiscalista, priorizando o equilíbrio financeiro do Governo em detrimento de direitos individuais quando há impacto orçamentário relevante. A substituição de um ministro tende a não modificar esse entendimento de preservação das contas públicas, mesmo que isso implique prejuízo para o aposentado.

c. A "Mutilação" da Aposentadoria por Invalidez (Tema 1300)

A Reforma de 2019 (EC 103) criou uma aberração: se você ficar doente e a incapacidade for temporária, ganha 91%. Se a doença for tão grave que você nunca mais possa trabalhar, o cálculo cai para 60%. É o prêmio por estar pior!

O STF foi provocado a dizer se isso é constitucional.

Contudo, o STF declarou constitucional a regra de cálculo da aposentadoria por incapacidade permanente (antiga aposentadoria por invalidez) introduzida pela Reforma de 2019.

d. Conversão de Tempo Especial em Comum e Constitucionalidade da Reforma Previdenciária

A Reforma proibiu converter o tempo trabalhado em condições insalubres após 2019. Isso é um soco no estômago de médicos, enfermeiros e operários. O STF manteve essa proibição, sob o argumento de que “o sistema precisa de equilíbrio”.

O STF validou diversos pontos da Reforma da Previdência (EC 103/2019), incluindo o aumento da idade mínima e novas regras de transição. Os ministros consideraram legítima a reforma, baseada em critérios de razoabilidade e necessidade de equilíbrio atuarial.

Essas são apenas algumas das recentes decisões que afetam a vida de segurados do INSS.

3. O Risco do "Vácuo de Poder"

A saída de um Ministro pode gerar uma esperança de limpeza, mas, na prática previdenciária, o efeito costuma ser a paralisia. Processos ficam suspensos, novos pedidos travam e o INSS aproveita o vácuo para continuar indeferindo benefícios a rodo. O sistema é desenhado para ser complexo e desencorajar quem busca o próprio direito.

Não se iluda com manchetes de “vitória garantida”.

A eventual troca de Ministros no STF pode trazer novos ares, mas raramente traz dinheiro de volta para o bolso de quem já foi prejudicado por uma decisão colegiada.

Não espere por "respostas mágicas" ou pela bondade de quem senta naquelas cadeiras em Brasília. O risco de retrocesso ou congelamento é real. O seu direito não pode depender da sorte ou de quem é o dono da caneta no momento.

4. Orientação Prática: Como se Proteger

Se o STF está em chamas, você precisa saber caminhar no fogo sem queimar o seu benefício. O caminho não é a sorte, é a estratégia:

A Justiça pode ser cega, mas o INSS enxerga muito bem onde pode cortar o seu dinheiro.

Em caso de dúvida, procure um advogado especialista da sua confiança.

Tiago Faggioni Bachur é advogado, professor e especialista em Direito Previdenciário. Atua na defesa dos direitos sociais, com foco em benefícios e revisões do INSS, BPC/LOAS e planejamento previdenciário. Colunista do Portal GCN. Autor de obras jurídicas.