15 de março de 2026
LITERATURA

O romance de uma adolescente francana

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 5 min

Escrever um romance sobre adolescentes quando ainda se vive a adolescência costuma redundar em fiasco. Mas pode, ao contrário, levar à construção de uma narrativa interessante. Para explicar as razões do sucesso eu diria que tal se dá quando efervescência e urgência, típicas deste período da vida, são levadas com frescor genuíno para a escrita. Algo que adultos, por mais talentosos sejam, nem sempre conseguem sem parecerem artificiais.

Para adolescentes nada é apenas um detalhe: o primeiro olhar, toque, desentendimento ou mensagem visualizada desvelam a força de uma hecatombe. Por isso a saga que registram com emoções à flor da pele descortina as cruas paixões nascentes sem ceder lugar ao registro literário da fadiga emocional típica de escritores já estabelecidos.

A entrega absoluta ao momento constitui a maior riqueza de enredos amorosos criados por jovens recém saídos da infância. Ela se torna grande qualidade da ficção quando autores revelam talento tanto para as palavras como para o registro da gênese dos sentimentos entre dois seres que se sentem atraídos. É o caso da escritora Beatriz Amoroso Ribeiro, 15 anos completados em fevereiro, que lançou há um mês seu primeiro livro, "Não era para ter sido. (mas ainda bem que foi)".

A obra foi apresentada pela autora, na ocasião acompanhada pela mãe e avó, em recente sessão da Academia Francana de Letras, que desde a gestão de José Lourenço Alves abre suas portas não só para acadêmicos: ali têm sido acolhidas também pessoas interessadas de verdade por literatura. Houve grande oxigenação neste espaço cultural nos últimos tempos e a instituição, no momento comandada por Carlos Roberto Gomes, o Carogo, vem recebendo leitores que reconhecem o valor da literatura e novos escritores que estão se lançando com obras que contemplam a poesia, a ficção, a crônica e outros gêneros. Foi uma decisão acertada que se mostrou positiva, pois se em nosso país, sobretudo no interior, é desafiador publicar um livro, divulgá-lo, mesmo contando com todas as redes que o mundo digital oferece, também o é.

Para alcançar o objetivo de ter em mãos o seu livro físico, Beatriz precisou enfrentar muitos desafios na jornada de menina-moça à procura de uma editora que a publicasse. Seu relato assertivo na Academia não só revelou suas peripécias de autora em busca de publicação, como a perfilou como escritora de talento, digna de integrar o universo dos que se distinguem pelo uso da palavra, da imaginação e da vontade de expandir seu mundo interior.

Beatriz Amoroso Ribeiro tem o que dizer e sabe como fazê-lo, mostrando na estreia um estilo próprio a partir da linguagem, que não é refém de gírias, o que se tornou comum entre os que escrevem sobre seus pares, mas sim marcada por diálogos e monólogos que fluem com naturalidade e impactam pelo que traduzem sobre as delicias e as agruras da conexão com o outro. Rita e Lucca, os protagonistas, sempre foram rivais, desde a mais tenra idade, anuncia em prévia a contracapa. "Até que a vida decidiu juntar os dois de novo. Entre festas inesperadas e segredos guardados por muito tempo, eles descobrem que o amor pode nascer onde menos se espera. Mesmo quando tudo dizia que era para não ser."

Para configurar os personagens e movimentar o enredo, a escritora lançou mão de uma estratégia difícil até para autores tarimbados. Ela construiu capítulos alternados com Rita e Lucca contando a mesma história segundo seus próprios pontos de vista. São dois narradores oniscientes mirando o entorno, sua intimidade e a relação amorosa de tal maneira que vão aos poucos mostrando ao leitor quem são, como pensam, o que sentem no espaço onde se movimentam: o colégio de classe média, o quarto, a casa, o ambiente digital tornado arena para as batalhas emocionais. Distanciados dos adultos, quase inexistentes na trama, os protagonistas transitam por corredores, atravessam portões de ferro, divagam em pátios, observam e sentem-se observados dentro da sala de aula, contemplam fachadas, luzes, crepúsculos, e sobrevivem a insones madrugadas que ganham contornos diversos pois afetadas pela subjetividade. No fim triunfa o romantismo, apesar das sinalizações realistas.

Todo livro que leio me instiga a marcar frases que chamam minha atenção quando percebo que nelas mora a alma de quem as escreveu. Não foi diferente com o romance de que trato aqui e teve muitas páginas grifadas com traços do meu Johann Faber número 2. Destaco algumas.

"O doce amargo de saber que aquele momento não seria duradouro através do tempo. O que restariam seriam as memórias."

"Eu não ouvi os primeiros aplausos. Eu não ouvi a professora Celina sorrindo tão largo que quase chorava. Eu não ouvi meus colegas falando animadamente. Eu ouvi apenas o som abafado de meu próprio coração."

"Ela desceu os degraus com cuidado, apertando o certificado contra o peito, como se ele fosse algo precioso demais para simplesmente carregar."

"Fechei os olhos e deixei o satisfatório peso daquela verdade repousar sobre mim."

"Rita guardava os origamis no bolso da mochila como se fossem pedaços de alma que ela precisava proteger."

"Talvez eu estivesse tentando aprender a linguagem dela, aquela que ela usava quando não conseguia falar."

"Parte de mim queria dizer sim. Parte de mim queria gritar. Outra parte só queria fugir."

"Ele parecia hesitante, os olhos baixos, mas claramente lutando contra alguma coisa dentro de si."

"E eu queria, mais do que tudo, encontrar um jeito de segurar as partes antes que elas quebrassem de vez."

Um trunfo do romance é a coragem emocional da autora que se joga de cabeça, através de suas criaturas, em dores, inseguranças, apreensões, decepções, desamparos e medos, mas também em alegrias fortuitas, euforias inusitadas, algumas epifanias. Isso gera empatia imediata com o leitor. Outro mérito é a seleção de trechos de canções populares que repercutem na sensibilidade adolescente. Os 18 capítulos que compõem a narrativa se abrem com versos de Taylor Swift, Sabrina Carpenter, Olívia Rodrigo, Alec Benjamin, Edith Whiskers, Lady Gaga, Jason Miraz e outros. Cada um deles cria um ambiente acústico específico que anuncia o centro nevrálgico do que vai ser contado por Rita ou Lucca. Acredito que Beatriz Amoroso Ribeiro poderia alcançar maior abrangência se apresentasse a tradução das estrofes para o português, pois este é o nosso idioma e a fluência na língua estrangeira não é apanágio da maioria dos brasileiros. É possível que ela tenha avaliado que a tradução poderia colocar em risco a beleza eufônica das metáforas ou se pautado apenas pelo seu conhecimento e o de seus colegas do Colégio Pessoa, onde estuda. Mas isso é algo que ela pode resolver numa segunda edição, que há de haver porque o livro é bom.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras