No meio do barulho do Carnaval, quando os olhares do País se voltam para os desfiles das escolas de samba, a brincadeira dos blocos e o lazer, uma cientista foi chamada ao palco e aplaudida como estrela. A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular Dra. Tatiana Sampaio, trouxe a possibilidade de recuperar movimentos em pacientes com lesão medular grave.
Vídeos de pacientes dando passos incertos depois de anos de imobilidade inundaram as mídias com reportagens e entrevistas, algumas delas sensacionalistas. A neurocientista veio a público e repetidamente explicou que “ciência não trabalha com exaltação, mas com evidência. Frisou que a polilaminina é uma substância desenvolvida a partir de uma proteína natural do organismo e atua criando um ambiente favorável à reconexão neural. Não é uma varinha mágica. É biologia aplicada com método.”
O que não apareceu com a mesma intensidade nos holofotes foi o pano de fundo da história, sobre a precariedade estrutural da pesquisa brasileira. Os laboratórios funcionam graças à criatividade para driblar a falta de insumos. Equipamentos envelhecem mais rápido do que o orçamento permite sua renovação. Bolsistas sustentam projetos complexos com remuneração que mal cobre despesas básicas.
Segundo declarações da Dra. Tatiana, o Brasil perdeu a patente internacional da polilaminina por não conseguir arcar com as taxas de manutenção. Não se trata apenas de um detalhe burocrático. É o retrato de um sistema que produz conhecimento de ponta, mas falha em protegê-lo e escalá-lo. A inovação nasce aqui, mas pode florescer lá fora.
Foram décadas de pesquisa acumulada, testes pré-clínicos, protocolos rigorosos, submissões regulatórias. A fase atual de estudos clínicos da polilaminina ainda é inicial e exige acompanhamento minucioso, equipes multidisciplinares, infraestrutura hospitalar, estatística robusta. Tudo tem custo. E é caro. Enquanto isso, a ciência brasileira convive com cortes recorrentes no orçamento federal, contingenciamentos e atrasos. Agências como o CNPq e a Capes, pilares do fomento à pesquisa, tornaram-se reféns de ciclos políticos e disputas fiscais.
O reconhecimento público costuma ser episódico. O brasileiro celebra o resultado, mas negligencia o processo. Dra. Tatiana Sampaio tornou-se personagem de uma narrativa maior do que sua própria pesquisa. Ela encarna o cientista que insiste, apesar das planilhas negativas; que orienta alunos mesmo quando as bolsas encolhem; que submete artigos internacionais enquanto luta por verba doméstica.
Se a polilaminina se consolidará como terapia amplamente disponível, os próximos anos dirão. A ciência exige tempo, replicação, prudência. Mas, independentemente do desfecho clínico, o episódio já expõe uma verdade incômoda: o Brasil produz conhecimento competitivo, mas ainda não decidiu, de forma estrutural, se quer ser uma nação científica.
Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação