Foi num encontro vespertino ao redor da mesa de uma doceria de shopping, entre um gole de café e uma bolachinha, que a mulher falou, assim como por acaso, no meio de uma conversa sobre sapatos: “Tenho cem pares.”
Na minha face ela deve ter assinalado alguma reação que não correspondia naquele instante ao que esperava ou desejaria ouvir como resposta. Era esperta observadora. Porque, de fato, o que me ocorreu, e devo ter traduzido no semblante, não seria algo no nível do horizontal deslumbramento das outras mulheres ali presentes; eu estava mais abaixo, bem próximo do mundo dos invertebrados, focada na imagem de um bichinho comprido que habitou minha imaginação de criança. Lembrava-me naquele instante de um dos primeiros livros que li e se chamava ‘Os Sapatinhos de Dona Centopeia’.
Capa dura, colorida e brilhante, as ilustrações das páginas eram sugestivas e ajudavam a contar a jornada de uma artrópode, em busca de cem sapatinhos coloridos que pretendia usar num baile promovido nos subterrâneos da floresta. Por um minuto fiquei imersa naquela singela saga do passado remoto; e de tal forma que nem consegui esboçar um comentário à contabilidade da interlocutora do presente.
Diante do meu silêncio, que ela deve ter pressuposto gênese de algum julgamento, emendou como se revidasse: ‘Gosto, posso, gasto por prazer’. Estranhei o uso de ‘por’ em lugar de ‘com’ e fiquei sem resposta objetiva porque imediatamente algumas reflexões, que à Dona Centopeia poderiam parecer inoportunas e até impertinentes, passaram a ocupar meu espírito. Mas consegui perguntar que número ela calçava, antes de mergulhar em outra história, esta de tempos muito antigos, que me mostrou Sócrates caminhando por um dos mercados de Atenas. Ao se surpreender com tantas mercadorias ali expostas, ele falou: ‘Ah! De quantas coisas aqui à venda eu não preciso!’ O relato é de Platão; portanto, confiável.
Seis décadas depois dessa fala lúcida, outro filósofo, Epicuro, ensinaria a seus discípulos que ‘Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco’. Pinçando uma ideia do maior dos filósofos, e ao desdobrá-la cunhar outra, ele construiu um conceito que definia a verdadeira riqueza não no acúmulo de bens, mas na redução das necessidades.
Outra de suas frases- ‘Quem não se contenta com pouco, não se contentará com nada’- tornou-se um dos pilares da sua filosofia, o hedonismo, que sustentava ser o prazer o principal objetivo da vida humana. A ideia, entretanto, degenerou-se no correr dos séculos, como se pode perceber até hoje na linguagem corrente que designa como ‘hedonista’ um indivíduo voltado às suas satisfações de forma desregrada e excessiva.
Na verdade, Epicuro definia a felicidade antes de tudo como um estado de calma, de prazer estável, algo inconciliável com uma vida desenfreada. Em sua escola, ‘O Jardim’, que aceitava mulheres, fato inusitado para a época, pregava a ‘ataraxia’- a paz do espírito livre de perturbações causadas pela insatisfação de desejos que ele dividia em naturais e necessários como beber água e ter amigos, e vãos e supérfluos como o luxo extremo e a busca por fama.
É interessante pensar que o verbo ‘contentar’ usado no aforismo acima tem raiz remota no latim ‘contentus’, particípio passado de continere (conter, segurar junto, limitar), sugerindo assim satisfação dentro dos limites do que se tem: a etimologia sempre lança luz sobre os sentidos mais profundos das palavras e suas relações com o humano. E é fascinante perceber como uma observação de mais de dois milênios descreve de forma clara e perfeita a psicologia do consumidor moderno. A ver.
Se nossa satisfação depende de algo externo e sempre crescente, como os sapatos de Dona Centopeia, nos tornamos escravos de uma meta móvel. Quando o objetivo é alcançado sem clareza mental para distinguir o que alimenta a alma do que é apenas item deduzível do cartão de crédito, o prazer da conquista evapora rapidamente, sendo substituído por um novo desejo. Sem um ‘filtro’ interno que o oriente, o indivíduo corre o risco de entrar em ciclo infinito de insatisfação.
No mundo em que vivemos, onde a publicidade cria torrentes de necessidades, comprar algo novo costuma em geral acarretar prazer, mas este é passageiro, quando não fugaz. Pode ser uma bolsa, um carro, um celular. Ou mais um par de sapatos, o 101°, como a mulher-centopeia anunciava sem se dar conta do transtorno que vivia. Me pareceu então pelo seu relato, estendido depois de minha inicial perplexidade, que a cada vez que adquiria um novo par seu nível de satisfação subia; no entanto, em pouco tempo, ela se adaptava ao novo padrão e o que tinha sido apaixonante no momento da aquisição virava corriqueiro nos dias seguintes, mesmo que não o tivesse usado, ainda que o mantivesse intocado numa das suas inacreditáveis prateleiras cheias de sapatos e equívocos. Para sentir de novo o mesmo prazer, precisava de um par mais caro ou sofisticado.
A mulher-centopeia era apenas um exemplo do que acontece corriqueiramente na sociedade de consumo que manipula fragilidades humanas ao estender suas garras brilhantes nas vitrines do mundo capitalista. Não vê quem não quer.
Na filosofia, Epicuro diagnosticou o fenômeno já em seu tempo: se a pessoa não estabelece um limite interno, a busca se torna um ciclo infinito onde ela corre muito mas não sai do lugar em termos de bem-estar real.
Na literatura, Ian McEwan, ilustre romancista de língua inglesa, capturou essa ideia de forma sucinta no seu romance ‘Amor Eterno’ ao revelar seu espanto diante da ‘rapidez com que o extraordinário se torna comum.’
Na ficção infantil que alimentou minha alma de menina, a centopeia guardou em caixas os sapatinhos escarlates depois do baile e os usou durante muitas outras festas para as quais foi convidada durante sua longa vida nos anos 50 do século passado. Aliás, eu adorei naquele tempo ter conhecido nova palavra nesse livrinho seminal. Inspirada pela cor, quando chegou a hora li com avidez ‘A letra escarlate’, de um romancista de língua inglesa que considero magnífico- Nathaniel Hawthorne. Mas essa será outra história que desejo contar.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras