25 de fevereiro de 2026
DESTAQUE DA HARMONIA

De Franca ao Anhembi: a trajetória de uma campeã do Carnaval 2026

Por Pedro Dartibale | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Sampi/Franca
Reprodução/Whatsapp GCN
Karoline com o troféu de campeã do carnaval 2026

Nascida em 18 de setembro de 1996, na Santa Casa de Franca, Karoline Lauriem Cruz da Silva, 29 anos, cresceu dividida entre dois extremos da cidade: o Jardim Ângela Rosa, na Zona Sul, e o Leporace, na Zona Norte. Filha de Silvia Renata Cruz e Antônio de Pádua Ribeiro da SIlva, neta de Isabel, Darcy e João, teve desde cedo o Carnaval como herança afetiva e territorial e nesse ano de 2026 se sagrou campeã do Carnaval Paulista.

De um lado da família, a escola Aliados da Santa Cruz; do outro, a Filhos de Gandhi, do bairro Leporace. Ainda criança, acompanhava os desfiles, recortava fotos de rainhas e porta-bandeiras e já se imaginava conduzindo o pavilhão. A referência estava ali: a dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira, a bandeira tremulando e o título de campeã estampado nas páginas do jornal impresso.

A estreia oficial aconteceu em 2012, desfilando em ala pela Filhos de Gandhi. No ano seguinte, realizou o primeiro grande sonho: tornou-se porta-bandeira. Em 2013, desfilou pela Filhos de Gandhi e conquistou o título naquele que foi seu primeiro Carnaval como primeira porta-bandeira.

Da avenida francana ao Sambódromo do Anhembi

Em setembro de 2013, aos 17 anos, fez a primeira viagem a São Paulo para participar do tradicional evento “24 Horas de Samba”, na quadra da Mocidade Alegre. Ali nasceu uma ligação definitiva. “Eu sempre estive dentro da escola, mesmo sem fazer parte oficialmente”, resume.

A partir de 2014, começou a desfilar no Carnaval paulistano, enfrentando viagens constantes entre Franca e a capital. Passou pela União Independente da Zona Sul e pelo Unidos do Vale Encantado, até pisar pela primeira vez no Sambódromo do Anhembi como porta-bandeira da Imperador do Ipiranga, no grupo de acesso.

Mesmo quando ficou alguns anos sem escola fixa em São Paulo, não abandonou a formação. Fez cursos especializados, integrou academias de casais e ampliou a rede de contatos no meio carnavalesco. Paralelamente, investiu na formação acadêmica: graduou-se na Fatec Franca com TCC voltado à gestão de Carnaval e iniciou pós-graduação em Gestão e Design em Carnaval.

Em 2020, durante atividade ligada à formação de casais no Rio de Janeiro, teve contato direto com a presidente da Mocidade Alegre, Solange Cruz. A troca de mensagens evoluiu para proximidade e, em 2022, veio o convite oficial para integrar a escola como liderança de ala.

Campeonatos, aprendizado e amadurecimento

A estreia como liderança coincidiu com o enredo “Yasuke”, que rendeu à Mocidade Alegre mais um título do Grupo Especial. Vieram ainda o bicampeonato no ano seguinte e, em 2025, a experiência da derrota — que, segundo ela, representou crescimento pessoal e profissional.

Nesse período, também passou no curso técnico de Dança da Etec de Artes, em São Paulo. A mudança definitiva para a capital ocorreu em 2025, após a aprovação no vestibular e o encerramento do vínculo com a empresa onde trabalhava remotamente. Instalou-se na cidade e passou a atuar profissionalmente na área administrativa da escola.

O envolvimento cresceu. Além da função administrativa, assumiu o cargo de diretora de harmonia da ala de passistas — a “Miss de Nação” —, acumulando responsabilidades dentro da agremiação.

Conquista além da avenida

Neste ano, a Mocidade Alegre voltou ao topo do Carnaval paulistano, conquistando mais um título — o 13º da história da escola. Para ela, a vitória tem significado que vai além do troféu.

“Mais do que ser campeã, é ter conquistado espaço, mesmo não sendo de São Paulo”, afirma. Mulher afrodescendente, ela destaca o simbolismo de ocupar funções estratégicas dentro de uma das maiores escolas do país, vindo de uma família simples do interior.

O enredo campeão homenageou a atriz Léa Garcia, com referências ao Teatro Experimental do Negro, idealizado por Abdias do Nascimento , também nascido em Franca. A conexão entre cidade natal e temática do desfile tornou o momento ainda mais especial.

Hoje, aos 29 anos, divide a rotina entre a escola de samba e a escola de dança. “Faço duas escolas: a de samba e a de dança”, resume.

Neste sábado, 21, ela estará novamente na avenida, no Desfile das Campeãs, ao lado da ala de passistas da Mocidade Alegre, celebrando mais um capítulo de uma história construída com disciplina, estudo e persistência.

“De Franca ao Anhembi, o percurso foi longo. Mas, para quem aprendeu cedo a sonhar segurando um pavilhão imaginário, a avenida sempre foi destino — nunca acaso“, concluiu Karoline.

Franca sem Carnaval desde 2020

Karoline também se manifestou sobre a falta do Carnaval em sua cidade natal. “O último grande carnaval da cidade aconteceu por volta de 2012, quando todas as escolas ainda estavam ativas e representavam seus bairros. O que mais me preocupa não é apenas o fim da festa, mas o apagamento da memória“, comenta.

Na visão da sambista, esse processo não é apenas uma decisão administrativa. “O carnaval tem raízes nas culturas de matriz africana e, historicamente, manifestações afrodiaspóricas sofrem marginalização. Existe racismo estrutural no Brasil, e ele também se manifesta quando festas populares são deslegitimadas ou tratadas como problema“, desabafa Karoline.

Ainda segundo Karoline o carnaval de Franca enfrentou dificuldades internas antes de acabar. “As escolas sempre foram muito ligadas aos seus bairros, e havia uma rivalidade intensa entre eles. Em alguns momentos, isso gerou conflitos e tumultos. Porém, episódios pontuais foram usados para criar uma narrativa de marginalização da festa como um todo. O poder público se apoiou nessa imagem para justificar o enfraquecimento do evento“, explica.

A jovem campeã francana concluiu com uma esperança de que os tempos áureos do Carnaval Francano podem retornar. “Acredito que o carnaval pode voltar — e pode voltar maior do que já foi. Sei que há pessoas que desejam isso, inclusive representantes no Legislativo. Não é fácil mobilizar mudanças, mas também não é impossível. É preciso que bairros, escolas e a sociedade se unam para resgatar essa tradição. O carnaval sempre foi um ato de resistência. E, em Franca, resistir continua sendo necessário“, concluiu.

Transmissão do desfile das Campeãs: 

O horário da Mocidade Alegre será às 01h da manhã de sábado pra domingo, ou seja na madrugada do domingo.