A exumação do corpo da orientadora educacional Tatiane Cintra dos Santos Cardozo, de 42 anos, foi realizada na tarde desta quarta-feira, 11, no cemitério Jardim das Oliveiras, em Franca. Autoridades e familiares acompanharam de perto o procedimento, que faz parte da investigação para esclarecer as circunstâncias da morte da educadora, encontrada sem vida em sua residência no dia 20 de abril de 2025.
A exumação ocorreu após autorização judicial e tinha como objetivo coletar o máximo possível de material biológico para análises laboratoriais. Segundo a Polícia Civil, foram retiradas amostras de órgãos e sangue, que serão encaminhadas para perícia em laboratório especializado, localizado em São Paulo.
O caso ganhou repercussão na cidade desde que familiares passaram a questionar os laudos iniciais e levantaram suspeitas de que a morte poderia não ter sido natural.
A exumação da orientadora, marcada para as 15h30, mobilizou equipes da Polícia Civil, perícia técnica, IML (Instituto Médico Legal), médicos e familiares da vítima.
O ambiente foi isolado para garantir segurança e evitar a aproximação de curiosos. Fitas zebradas foram utilizadas para delimitar a área e restringir o acesso de outras pessoas durante o procedimento.
Os coveiros foram responsáveis pela abertura do túmulo e realização da retirada do caixão, enquanto peritos e médicos supervisionavam cada etapa.
O momento foi acompanhado por dois irmãos de Tatiane, que permaneceram próximos durante toda a ação.
Após a abertura do túmulo, os profissionais realizaram a retirada do material necessário para exames detalhados. A intenção, segundo os investigadores, é identificar se havia alguma substância ou indício que possa ter contribuído para a morte da orientadora.
O delegado responsável pelo caso, Davi Abmael Davi, destacou a importância do procedimento, afirmando que a exumação é considerada uma prova essencial na investigação. “A expectativa dessa exumação é muito grande, é uma prova muito efetiva, muito contundente.”
O delegado ainda explicou que, apesar de o corpo ter passado por procedimentos que inicialmente impediam a realização da exumação, a Justiça autorizou que ela fosse feita.
No início das investigações, a exumação não poderia ser realizada, já que o corpo havia passado por tanatopraxia (procedimento de conservação). Isso levou o próprio IML a negar a solicitação da família em um primeiro momento, sob a justificativa de que o exame poderia não ter validade devido às alterações causadas no corpo.
Mesmo assim, com a insistência dos familiares e o acionamento judicial, a exumação foi autorizada.
Durante o procedimento, os especialistas conseguiram coletar grande parte do que era necessário para exames laboratoriais. Entre os materiais recolhidos estavam órgãos e vísceras, incluindo rim, fígado, baço, além de outras amostras internas, como vísceras e sangue.
Segundo o delegado, até mesmo sangue foi obtido, o que pode ser crucial para o resultado final. “Apesar de todo este tempo, também conseguimos sangue.”
As amostras serão encaminhadas para análise em laboratório especializado, na capital paulista.
De acordo com o delegado, ainda não existe um prazo definido para a conclusão do laudo pericial. “Não temos ainda um prazo definido para que sejam nos trazidos os resultados. Acreditamos que o mais breve possível.”
Ele reforçou que há uma grande expectativa em torno do resultado e que o caso segue sendo tratado como uma situação incomum.
O delegado Davi Abmael Davi explicou que a Polícia Civil ainda não tem uma conclusão sobre autoria, e que a intenção é esclarecer se houve participação de terceiros na morte. “Nós não temos ainda uma definição em relação à autoria, isso que queremos, que o autor pague, que a sociedade seja esclarecida se realmente houve uma provocação por parte de terceiro sobre a morte.”
Ele reforçou que somente após o resultado das análises será possível direcionar a investigação de forma mais concreta. “A partir daí podemos direcionar para algum autor, se realmente tiver as comprovações que nós estamos encaminhando para ter.”
A advogada Letycia Antinori, que representa a defesa do acusado, também falou sobre o caso e disse que a equipe jurídica está colaborando com as investigações. Ela afirmou que acredita na inocência do acusado e confia no trabalho das autoridades.“Nós estamos colaborando com as investigações, acreditamos na inocência dele, estamos acreditando também no trabalho da polícia, da perícia e do Ministério Público e vamos confiar que a justiça seja feita da melhor forma possível para todos”, disse ela.
A advogada ainda explicou que era melhor que o acusado não comparecesse pessoalmente ao local da exumação, já que estaria representado pela equipe jurídica.
O irmão de Tatiane, Luiz Henrique, falou de forma emocionada e afirmou que acredita que o homem investigado tenha envolvimento direto com a morte da irmã. “Eu não estou acusando ninguém, quem vai resolver isso é a justiça, mas de uma maneira ou outra ele acabou com a vida da minha irmã, ele bateu, agrediu e ameaçou. Eu acredito que ele tenha sim relação com a morte dela.”
A autorização judicial para a exumação havia sido concedida na última sexta-feira, 6, após insistência da família, que desde o início desconfiava da versão de morte natural.
O laudo inicial apontava broncoaspiração e morte natural, mas familiares passaram a questionar a causa, alegando que Tatiane era uma mulher saudável e não tinha histórico de problemas graves.
A educadora trabalhava como orientadora educacional e atuava em escolas da região do Jardim Vera Cruz, em Franca.
Tatiane foi encontrada morta em sua cama, dentro da própria casa, cerca de um ano após ter reatado com o marido. Segundo a família, ela havia enfrentado uma crise emocional profunda após uma traição descoberta anos antes.
De acordo com os familiares, quando Tatiane estava grávida do terceiro filho — hoje com 5 anos — ela descobriu que estava sendo traída pela melhor amiga.
O casal se divorciou e, posteriormente, o homem chegou a se casar com a mulher apontada como amante, mas, segundo familiares, nunca deixou Tatiane completamente.
A família afirma que ele dizia amar as duas.
Ainda segundo os parentes, em abril de 2024, durante uma viagem da família para Barretos, Tatiane contou que tentaria novamente reatar o relacionamento.
O homem teria se divorciado da mulher com quem se casou e, em outubro de 2024, ele e Tatiane se casaram novamente.
No casamento, apenas os pais e uma sobrinha participaram. “Eu fui por ela”, disse a sobrinha.
A sobrinha relatou que o homem demonstrava desinteresse no cartório, e que até mesmo o cerimonialista teria precisado chamá-lo à atenção.
Ainda de acordo com o relato da sobrinha, após a cerimônia, ela passou em frente ao comércio do homem e teria visto a ex-companheira dele dentro do estabelecimento, enquanto Tatiane e ele comemoravam o casamento em um restaurante. “Ele mentiu para as duas mulheres. Casou com uma dizendo para a outra que estava trabalhando.”
Para a família, esse episódio foi mais um sinal de que Tatiane continuava vivendo uma situação de sofrimento emocional.
Os familiares afirmam que, após o retorno do relacionamento, perceberam que nada havia mudado. Tatiane teria voltado a demonstrar tristeza profunda e sinais de abatimento.
Em abril de 2025, durante uma nova viagem a Barretos, ela estava com dores, abatida e não conseguia sair da cama. Segundo a família, o marido teria ido embora antes e deixado Tatiane passando mal.
No dia 20 de abril de 2025, Tatiane participou de um churrasco em família em sua casa. Depois do encontro, ela foi para o quarto junto do marido.
Horas depois, foi encontrada morta.
A filha mais velha de Tatiane, hoje com 20 anos, contou que dormia na sala com os irmãos naquela noite, algo que acontecia com frequência. Ela descreveu com detalhes o momento em que percebeu que algo estava errado. “Eu dormi na sala com meus irmãos. Estávamos assistindo televisão e acabamos dormindo no sofá. Isso acontecia com frequência. Até que, durante a noite, eu acordei sentindo uma coisa muito ruim, mas não sabia explicar o que era.”
A jovem disse que foi ao banheiro e ouviu o pai chamando. “Fui até o banheiro e, nesse momento, escutei meu pai me chamando. Saí correndo e o vi sentado na escada, chorando.”
Ela conta que o pai disse que ela precisava subir rapidamente, pois Tatiane não estava bem. “Ele disse que eu precisava subir até o quarto, porque minha mãe não estava bem e ele não sabia se ela ainda estava viva.”
Ao chegar ao quarto, ela encontrou a mãe sem vida. “Tentei socorrer, fiz o que eu pude. Tentei fazer massagem de reanimação, eu estava em desespero, gritava e ela não me respondia.”
Em choque, a filha acionou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).
A jovem também questionou a atitude do pai naquela noite. “Por que meu pai não chamou o Samu, não colocou ela no carro e a levou ao hospital quando viu que ela estava mal?”
O Samu constatou a morte dentro da residência.
Ainda segundo informações do caso, o marido afirmou que não sabia o que havia ocorrido e disse que Tatiane estava bem.
Ele também relatou que os dois haviam mantido relações íntimas naquela noite.
A família afirma que há divergências em documentos e que existem dois laudos apontando causas diferentes para a morte. Um aponta morte natural e o outro broncoaspiração.
Para os familiares, isso reforça a necessidade de uma investigação aprofundada.
Após a morte, a família teve acesso ao celular de Tatiane e encontrou mensagens consideradas suspeitas.
Segundo a irmã, em uma das conversas, Tatiane cobrava que o marido resolvesse uma situação, e ele teria respondido que tudo se resolveria “no dia 20”.
A família relaciona essa mensagem com o fato de Tatiane ter morrido exatamente no dia 20. “No dia 20 minha irmã morreu. Isso é coincidência?”, questiona a irmã.
Após isso, a família procurou a Polícia Civil e formalizou a denúncia, dando início ao inquérito.
Atualmente, as duas filhas de Tatiane — uma de 20 anos e outra de 12 — estão sob cuidados da família.
A filha mais velha possui guarda provisória da irmã mais nova e luta para conseguir a guarda definitiva.
Segundo a irmã de Tatiane, a criança demonstrava tristeza quando ia para a casa do pai. “Quando ele ia para casa do pai e da madrasta, voltava triste, chorava e pedia para que o pai não a buscasse.”
Com o procedimento realizado nesta quarta-feira, a expectativa agora é que o laudo laboratorial traga respostas definitivas sobre o que causou a morte de Tatiane.
O delegado reforçou que a polícia está empenhada em esclarecer a verdade e dar uma resposta à sociedade. “As vísceras e o que era necessário coletar foram coletados, vão ser encaminhados a laboratório e nós vamos aguardar para ver se realmente havia alguma outra substância no corpo que poderia ter ocasionado a morte dela.”
Ele finalizou afirmando que o caso ainda não tem conclusão, mas que será tratado com prioridade. “Nosso pedido está para manifestação do Promotor. Após a decisão do Juiz, penso que estarei apto a prestar informações públicas, independente do que for decidido. Antes acredito ser muito temerário. Mas em breve sairá esta decisão”, finalizou.