A vida antes da descoberta do fogo era temerária para nossos ancestrais. O planeta, regido pelo ritmo implacável do Sol, tornava-se lugar inóspito quando as trevas se impunham. O caçador diurno se tornava frágil caça. Mas aí aconteceu, no coração sombrio das savanas africanas: um raio incendiou uma árvore. Cientistas acreditam hoje que isso se deu antes mesmo do aparecimento do Homo sapiens, nossa espécie, há 250 milhões de anos. Descobria-se o fogo e isso não seria apenas um evento técnico; representava o nascimento da nossa humanidade. As chamas moldaram quem somos.
Até então gastava-se boa parte do dia mastigando fibras duras e carne crua. Com o fogo o jogo mudava, porque ao receber alimentos assados ou cozidos, ou seja, previamente digeridos, o organismo dispunha de mais tempo para investir proteínas e energia no desenvolvimento do cérebro. Outro aspecto altamente positivo dessa descoberta foi a possibilidade de criar um espaço comum. O fogo foi a primeira arma de dissuasão dos humanos. Ele mantinha os grandes predadores à distância, transformando a noite, antes um território de terror, em momento de descanso e reflexão.
Ao redor da fogueira, o tempo útil dos nossos antepassados se estendeu para além do pôr do sol. O fogo levou ao convívio, à conversa, ao planejamento e à criação de laços sociais complexos. Onde havia fogo, existia um lar, não apenas um abrigo. E foi no brilho das brasas que as primeiras histórias foram contadas e recontadas até que chegassem ao nível dos mitos. Como aquele de Prometeu, personagem que roubou de Apolo uma fagulha do fogo celeste e por isso foi castigado de maneira cruel pelos deuses. Amarrado a uma montanha, era visitado diariamente por uma águia que lhe devorava o fígado, órgão que renascia em poucas horas para cumprir a sina do herói no dia seguinte. Até que Hércules matou a ave.
Este mito e outros que datam do mesmo período tiveram grande repercussão na literatura e nas artes em geral. E o fogo, que inicialmente aqueceu, protegeu e permitiu ao homem imaginar e contar histórias, continua inflamando imaginações. Como destruição absoluta ou calor vital, castigo divino e abertura ao conhecimento, poder de iluminar e de queimar, símbolo de transformação e purificação, o fogo é uma das permanências potentes na literatura de todos os povos, do Oriente ao Ocidente.
Somam-se os séculos onde poetas recorreram a ele para criar metáforas sobre o desejo, a brevidade da vida, o fim do mundo e tantos outros exemplos. Nas páginas de Dante Alighieri, é ferramenta de punição eterna no Inferno mas também representa a luz divina no Paraíso, dois dos círculos da ‘Divina Comédia.’ Nas de Robert Frost é motivo para refletir se o mundo terminará em ódio ou indiferença, justificando-se assim o título ‘Fogo e Gelo’. Em ‘As Flores do Mal’, Charles Baudelaire mostra-o como força decadente e purgadora da alma angustiada. Nosso Camões imortaliza no ‘Soneto 11’ a natureza paradoxal do amor no verso incandescente: ‘ Amor é fogo que arde sem se ver’, que se tornou uma das metáforas antológicas da Língua Portuguesa.
Na prosa, fogo pode aparecer como agente de mudança drástica ou símbolo de opressão e resistência. Ray Bradbury, em Fahenheit 451, romance icônico que foi para as telas e conquistou muitos prêmios, o autor o apresenta como arma do Estado. Os personagens da narrativa são bombeiros que não apagam incêndios, eles queimam livros a 451 graus F, a temperatura de ignição do papel. Stephen King, mestre do terror na literatura de língua inglesa, o concebe como extensão do poder mental da protagonista de ‘A Incendiária’. Clarice Lispector faz uso dele em vários contos e crônicas para registrar epifanias e descrever intensidades. Cormac McCarty, escritor norte-americano de tradição gótica, comparado a William Faulkner mas pouco conhecido no Brasil, leva a expressão popular ‘carregar fogo’ como sinônimo de esperança no mundo apocalíptico de ‘A Estrada’, merecedor de um Pulitzer. Gaston Bachelard, filósofo francês, analisa como o fogo moldou a imaginação humana e a literatura no seu livro ‘A psicanálise do fogo’. Os citados são apenas alguns dos incontáveis escritores que se apaixonaram pelo tema.
Talvez a leitora, o leitor, se perguntem que trajeto é esse que estou perseguindo nessas mal traçadas linhas. Peço licença para fazer uma blague a partir dos versos de um poeta francês do século passado, Paul Valérie, e respondo assim: ‘A gente começa a escrever/ por simples curiosidade/ por ter visto em certa notícia/ uma possibilidade’. No caso, a notícia que li foi sobre dois indígenas que viviam isolados no interior da Amazônia e apareceram num posto da Funai no último dezembro. Buscavam fogo. Assim que receberam um pedaço de madeira em chamas, voltaram correndo para a floresta. Desapareceram. Eles haviam perdido seu fogo, apagado por descuido ou outras razões. Ignorantes na técnica de acender fogueira, sem um incêndio natural que os salvasse, o caminho foi procurar o homem adjetivado de ‘branco’.
Considerando-se que foram encontrados na China, numa gruta próxima a Pequim, vestígios de que há 400 mil anos faíscas obtidas pelo atrito de pedras como a pirita ou de madeiras compactas já eram usadas para produzir fogo, nossos indígenas do noticiário devem viver ainda em estágio anterior, onde perder o fogo significava encurtar a vida. Assim analisaram antropólogos indagados a respeito do caso bizarro.
O curioso, e instigante, é que ao lado desse relato factual, lido numa mídia de papel, encontrei outro, dando conta da viagem de astronautas que vão intensificar pesquisas sobre o lado oculto da Lua. A partir de então tenho pensado em como as revoluções não contemplam igualmente todos os humanos e o acesso a elas não é abrangente ou universal. Haverá sempre os que ficam de fora.
Se na linha do tempo o fogo permitiu a sobrevivência e o crescimento do cérebro, a agricultura fixou o homem, a metalurgia o equipou, a ciência o libertou de dogmas, a indústria o mecanizou e a tecnologia digital o conectou, chegamos à contemporaneidade flagrando seres que sobrevivem sem descobrir como se faz fogo. Enquanto isso, outros humanos alçam voo em direção à conquista de novos ambientes interplanetários. Eis um tema para ficcionistas de coração quente e imaginação acesa.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras