06 de fevereiro de 2026
REFLEXÃO

Marlene Becker lança livro que une memória e autoconhecimento

Por Leonardo de Oliveira | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
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Marlene Becker e seu livro 'Entre a Razão e a Loucura'

Aos 81 anos, a escritora Marlene Becker transforma memória, sensibilidade e reflexão em literatura no livro Entre a Razão e a Loucura, obra que nasce do encontro entre experiências pessoais, história coletiva e inquietações humanas profundas. A publicação será lançada nesta sexta-feira, 6, em evento no salão nobre da OAB Franca, localizado na avenida Major Nicácio, 2.400, às 19h.

Ao Portal GCN/Sampi, Marlene Becker revela que sua escrita não surge do acaso, mas de uma construção que atravessa gerações, vivências e silêncios acumulados ao longo da vida. “Este texto nasceu comigo, com a minha geração, meus antepassados, minha história”, afirma, ao explicar que toda criação carrega marcas do tempo, do contexto social e das relações humanas.

Para a autora, nenhum texto nasce isolado. Escrever é permitir que pensamentos conscientes e inconscientes encontrem forma no papel. "Mesmo quando parte desse processo permanece misterioso." Segundo ela, o que não se sabe também faz parte da obra, escorrendo, às vezes, como “uma gota” capaz de iluminar - ou desafiar - a compreensão do leitor.

Durante a entrevista, Marlene Becker também refletiu sobre a autonomia dos personagens. Em Entre a Razão e a Loucura, eles ganham voz própria e, muitas vezes, resistem às tentativas da escritora de moldá-los. A autora relata que chegou a tentar mudar nomes, mas percebeu que isso descaracterizaria suas identidades. “Eles já não eram eles”, resume.

A construção emocional da obra exigiu um mergulho profundo em feridas pessoais. Ao desenvolver a trajetória de Cisco, personagem central do livro, Marlene revisitou sentimentos ligados à inferioridade, à dor e à superação. “Acolhi a dor do Cisco para libertar o texto”, destaca, ao explicar que integrar as sombras é parte essencial do processo de amadurecimento.

A relação entre ficção e autobiografia aparece de forma delicada na narrativa. Fragmentos de sua própria história estão presentes nas paisagens, nas memórias e nos afetos descritos. Ao mencionar o personagem tio Neca, por exemplo, a autora reconhece traços de seu pai, que registrava com carinho a infância dos filhos. “Os personagens que criamos são pedaços de nós mesmos”, afirma.

Além do aspecto íntimo, Marlene demonstra preocupação com o tempo presente. Para ela, a literatura precisa dialogar com uma sociedade marcada pela pressa e pelo consumo superficial de informações. A autora identifica como uma das principais feridas contemporâneas o vazio existencial alimentado por discursos prontos e pela influência excessiva da mídia.

Nesse contexto, Entre a Razão e a Loucura busca provocar mais do que emoção: convida à reflexão. O objetivo, segundo Marlene, é despertar no leitor a capacidade de enfrentar desafios, compreender as próprias fragilidades e reconhecer que as dificuldades fazem parte do caminho.

Mesmo ao abordar temas sensíveis, a escritora faz escolhas cuidadosas. Em determinados momentos, optou pelo silêncio como forma de proteção, especialmente em discussões ligadas à política e à educação. Para ela, omitir certos detalhes não significa falta de coragem, mas responsabilidade.

Na parte final da entrevista, Marlene revela que a principal verdade presente em sua obra é a ideia de que a autossuperação é uma luta constante. Inspirada na psicologia junguiana, ela defende a integração do “lado sombra” como caminho para o equilíbrio emocional. A trajetória de Cisco, marcada por conflitos, culpa e perdão, simboliza esse processo de autoconhecimento.

Entre a Razão e a Loucura reafirma o poder da literatura como espaço de escuta, elaboração e transformação. A obra não oferece respostas prontas, mas propõe um encontro honesto com as próprias fragilidades - um convite para que o leitor, em meio ao ritmo acelerado da vida moderna, encontre tempo para ouvir a própria alma.