05 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Escola cívico-militar é justificar ter um sistema falido

Por Marília Martins | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução

Sou professora desde 2008. Minha primeira experiência na rede estadual de São Paulo foi tão traumática que me manteve afastada da sala de aula por dez anos.

A escola em que eu trabalhava, no meu próprio bairro, carregava uma má fama antiga. Logo ao chegar, estranhei a rotina de inspecionar mochilas dos alunos antes da saída, medida adotada após uma “guerra de maçãs” que havia causado danos a bens de profissionais e moradores da comunidade.

Em apenas cinco semanas como professora substituta, atravessei uma sucessão de episódios que adoeceriam qualquer trabalhador: uma sala de professores tomada por conflitos e desconfiança; uma ameaça de bomba no banheiro; uma briga quase generalizada no intervalo; e conversas de crianças de 12 anos explicando os inomináveis “negócios de família” que, segundo elas, garantiriam mais dinheiro e qualidade de vida do que estudar ou trabalhar. E, naquele contexto, elas não estavam erradas.

Havia professores falando mal uns dos outros, uma direção que preferia chamar a polícia a dialogar, ensinar mediação de conflitos ou preparar aqueles jovens para lidar com problemas reais — inclusive com o tráfico, que já fazia parte da realidade familiar de muitos.

Até que, em um dia, fui arremessada contra um armário. Uma briga explodiu atrás de mim e, com as carteiras sendo empurradas, o efeito dominó foi inevitável contra meu 1,5m de altura. Quando consegui me levantar e respirar, ouvi apenas a ordem: “professora, retire-se imediatamente.”

Meu coração disparou. Os gritos dos alunos continuaram até a chegada de outros trabalhadores. Saí dali com a certeza de que aquilo não era justo com ninguém — nem com os alunos, nem com os profissionais.

Naquele momento, cheguei a concordar que a presença policial dentro da escola parecia necessária. Mas nunca acreditei que fosse a solução. Hoje, com ainda mais convicção, sei que não é.

Anos depois, atravessei a pandemia acompanhando uma mãe professora, vivenciei a transição tecnológica e cheguei a me entusiasmar com a ideia de que, apesar de tudo, sairíamos desse período mais preparados para uma nova era educacional. Mudou, sim — mas infelizmente, para pior.

Voltei à sala de aula em 2021. Os equipamentos eram insuficientes, as aulas híbridas frias e confusas, muitos alunos não conseguiam acessar as plataformas. Após um ano de isolamento, um luto coletivo por tantas mortes e a intensificação da polarização política, os estudantes retornaram com enormes fragilidades sociais e emocionais.

A violência doméstica aumentou, a pobreza se aprofundou, pais e mães exaustos tentavam garantir comida e ainda aprender para ensinar seus filhos. Talvez, pela primeira vez, muitos tenham compreendido melhor o que significa ser professor.

No ano seguinte, o governador carioca de São Paulo Tarcísio de Freitas, — nomeia o paranaense Renato Feder, empresário da tecnologia, para comandar a educação do estado. Feder havia deixado a rede de seu próprio estado, batendo os pés na saída.

Usando sua “expertise”, o secretário distribuiu tablets para toda a rede e impôs aulas padronizadas em slides repletos de erros, aberrações pedagógicas e conceituais, exigindo que professores utilizassem ainda mais tecnologia, sem condições reais. Inventou uma avaliação de desempenho, com critérios duvidosos, que passou a ser usada contra os próprios professores. Enquanto isso, professores adoecem e são punidos; 5% do orçamento da educação é cortado; estudantes da educação especial são penalizados sob o discurso de que professor especializado é muito gasto para manter o que ele considerou “privilégio”.

Auxiliares são substituídos por cuidadores sem formação adequada. Diplomas passam a ser tratados como algo de “cada vez menos relevância” segundo as palavras do próprio governador. A atribuição de aulas vira um processo amador e desrespeitoso.

É nesse contexto que surgem as escolas cívico-militares, apresentadas como solução para a crise educacional. Policiais aposentados passam a atuar nas unidades escolares, recebendo salários superiores aos de professores em início de carreira. Estudantes são obrigados a bater continência, usar fardas, seguir códigos rígidos de comportamento e, em alguns casos, sofrem punições físicas e simbólicas incompatíveis com qualquer projeto pedagógico democrático.

Relatos de músicas de exaltação à violência entoadas em ambiente escolar e de práticas de humilhação e controle do corpo infantil não podem ser tratados como casos isolados. Eles expressam um modelo que substitui educação por adestramento e gestão pedagógica por lógica de quartel. Militares com formação deficitária que erram ortografia como das palavras “descançar e continêcia” diante de registros.

Canta-se em ambiente escolar músicas que dizem:
“Sou taticano maldito, e vou pegar você.
 Se eu não te matar, eu vou te prender.
 Vou invadir sua mente, não vou deixar cê dormir.”

Punir crianças não resolve conflitos sociais. Militarizar a escola não enfrenta a desigualdade, a fome, o racismo estrutural, a evasão, a precarização do trabalho nem o aliciamento pelo crime. Pelo contrário: reforça a lógica do medo, da obediência cega e da negação do pensamento crítico.

Educação exige método, mas também afeto. Exige escuta, diálogo, mediação de conflitos, construção de autonomia e respeito às fases do desenvolvimento humano. Exige investimento público, valorização dos profissionais e políticas intersetoriais que enfrentem as causas reais da violência.

A defesa desse modelo revela uma concepção autoritária de educação, que confunde autoridade com violência, disciplina com silenciamento e ordem com negação de direitos. Mudar o rumo define como será a próxima geração de adultos. Como disse Mahatma Gandhi, “olho por olho, dente por dente, e o mundo acabará cego e sem dentes”

Talvez muitos dos adultos que hoje decidem a vida de milhões tenham sido crianças excessivamente reprimidas ou mimadas, agora, investidas de poder, carregam ganância por dinheiro e influência, sem se importar com quem é massacrado no caminho.

Este projeto em curso não aparece nas propagandas eleitorais. Mas está acontecendo — todos os dias — dentro das escolas.

Marília Martins é professora, produtora cultural, foi membro do Conselho de Políticas Culturais, do Conselho da Condição Feminina e atualmente é vereadora em Franca pelo Psol e Procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Franca.