Uma mãe de Franca registrou Boletim de Ocorrência, após relatar uma ameaças a seu filho, menor de idade, ocorridas nos dias seguintes a um evento da cultura k-pop realizado no Franca Shopping, no último dia 24 de janeiro.
Segundo o relato, durante o evento, crianças e adolescentes participavam de uma atividade pública quando um vídeo de dança foi gravado e publicado nas redes sociais por um adolescente, também menor de idade. O conteúdo não teria sido produzido nem divulgado pelo filho da denunciante, que igualmente é criança e, segundo a família, não estava presente no evento. Mas ele estaria sendo coagido a entregar o autor do vídeo.
Até então, não houve qualquer contato com os pais ou responsáveis legais dos menores envolvidos. No entanto, na segunda-feira seguinte ao evento, a organizadora entrou em contato diretamente com a criança, após obter seu número de telefone sem autorização da família.
De acordo com a mãe, as mensagens enviadas ao menor tiveram tom intimidatório e coercitivo, com uso de linguagem jurídica e ameaças indiretas. A pessoa se apresentou como advogada, mencionou amizade com policial, falou em processo judicial, responsabilização dos pais, imposição de prazo de 24 horas e possibilidade de “a polícia ir até a residência”. Segundo familiares, o adolescente estava sozinho no momento em que recebeu as mensagens e apresentou abalo emocional após o contato.
O objetivo das mensagens, segundo a denúncia, seria pressionar a criança a fornecer informações e o contato de outro adolescente, autor da publicação do vídeo, apesar de o menor abordado não ter qualquer responsabilidade pelos fatos.
A organizadora também teria afirmado possuir “prints” de conversas envolvendo o filho da denunciante. A família, no entanto, esclarece que esses registros se referem a uma conversa privada entre o menino e uma prima, ambos menores de idade. Nesse diálogo, a adolescente pressionava o garoto para que ele fornecesse o contato do autor do vídeo.
Ainda segundo a mãe, o filho se recusou a repassar qualquer informação, inclusive porque o adolescente citado não possui aplicativo de mensagens, o que inviabilizaria o fornecimento do contato. A família afirma que não houve ofensas, acusações ou participação ativa do menino na divulgação do vídeo, apenas a recusa de uma criança em fornecer dados pessoais de outro menor, mesmo diante de pressão.
Além disso, a mãe relata que houve exposição indevida da imagem do filho, com prints de redes sociais, acusações e afirmações sem autorização, o que teria causado medo, insegurança e abalo emocional à criança.
Em um dos trechos das mensagens, a organizadora afirma que, caso o menor não colaborasse, os pais seriam envolvidos e responsabilizados, reforçando a pressão psicológica. Também são feitas menções a terceiros que estariam “a par da situação” e à obtenção de dados pessoais e redes sociais dos adolescentes.
O caso envolve ainda outro adolescente que teria retirado o vídeo do ar após receber ameaças de adultos, segundo a família.
Diante da gravidade dos fatos, a mãe registrou Boletim de Ocorrência, preservou todas as provas - incluindo mensagens, áudios e prints - e informou que o caso está sendo encaminhado aos órgãos competentes para apuração.
A denunciante afirma que o objetivo não é atacar pessoas ou o evento, mas alertar sobre práticas ilegais, especialmente o contato direto com menores sem autorização, o uso de ameaças, coação psicológica e a exposição indevida de crianças e adolescentes, condutas que podem configurar violações ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
Em versão apresentada à reportagem, a organizadora do evento, uma mulher de 33 anos, afirma que atua há anos na promoção da cultura k-pop em Franca e que enfrenta dificuldades para manter espaços para esse tipo de atividade, relatando episódios de preconceito contra participantes. Segundo ela, o evento ocorreu em local público e, como de costume, apresentações são registradas em fotos e vídeos por frequentadores.
A organizadora relata que, durante o último evento, uma comerciante que expunha produtos no local procurou a equipe após a apresentação e informou que três adolescentes estariam atrás de sua loja fazendo comentários depreciativos sobre uma participante e sobre os produtos expostos, além de realizarem gravações. No momento, segundo ela, não teria sido possível intervir, já que a equipe estava envolvida na condução da programação.
Ainda de acordo com o relato, após o evento, um vídeo passou a circular nas redes sociais, especialmente no TikTok, reunindo comentários considerados ofensivos à adolescente que aparecia dançando. A organizadora afirma que tomou conhecimento do conteúdo apenas depois, ao ser alertada por terceiros, e que passou a denunciar o vídeo e pedir que outras pessoas fizessem o mesmo, com o objetivo de retirá-lo do ar.
Ela afirma que recebeu informações de terceiros indicando quem seria o autor da gravação e publicação do vídeo, além do nome de um amigo próximo dele. A partir disso, decidiu entrar em contato com esse amigo, também menor de idade, na tentativa de obter o telefone do autor do vídeo para falar diretamente com ele ou com seus responsáveis.
A organizadora reconhece que agiu de forma inadequada ao abordar diretamente um menor, e admite que afirmou ser advogada com o intuito de “dar um susto” e tentar conseguir o contato do adolescente responsável pela publicação. Ela também afirma que não é advogada, não possui amigo policial nem advogado, e que tais declarações não correspondem à realidade.
Segundo a versão apresentada, a preocupação principal era com a adolescente exposta no vídeo, que já acumulava dezenas de milhares de visualizações e comentários ofensivos, inclusive de pessoas que diziam conhecê-la e estudar na mesma escola. A organizadora relata receio de que a situação resultasse em episódios de bullying com a volta às aulas.
Ela nega ter feito ameaças diretas ao autor do vídeo e afirma que não entrou em contato com ele, alegando não possuir seu número de telefone. Também contesta a informação de que o vídeo tenha sido removido por ameaça sua, atribuindo a decisão à orientação recebida pelo adolescente por terceiros.
Por fim, a organizadora afirma compreender a reação da mãe do menor contatado, reconhece que errou na forma de conduzir a situação e declara que responderá ao Boletim de Ocorrência registrado, colocando-se à disposição para prestar esclarecimentos às autoridades.