05 de fevereiro de 2026
LITERATURA

Salatiel

Por Vanessa Maranha | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 3 min

Quando a vida mal vivida e já longa de Salatiel se encaminhava para aquilo que lhe parecia pasmaceira sem fim, agonizando na trilha de uma solidão cavada pelo seu temperamento indócil, o que parecia impossível, aconteceu.

A considerar a luminescência e o estrondo, pensou que uma estrela houvesse desabado diante de sua porta, mas, não era estrela e sim uma fada.

Grandalhona, algo transparente, finos e longos cabelos brancos, uma das asas pontiagudas e translúcidas quebrada, a outra, levemente tremeluzente sugerindo uma espécie estranha de eletricidade.

Parecia exausta, devoluta, sem qualquer demonstração de que fosse concessionária de desejos, como parecem ser todas as fadas, os gênios azuis das lâmpadas, as videntes e as cartomantes. Ou, pelo contrário, viera tomar os desejos dos outros e fazê-los seus? Enlouquecê-los? Tão desacostumado em receber, portanto, sempre a desconfiança.

Olhou bem dentro do olho super azul da criatura e lá viu, além da pupila vertical de cobra, o universo inteiro: os planetas, a pangeia na Terra, os mares e suas criaturas, inclusive vírus, bactérias e dragões.

Estaria uma fada no rol das deusas? Das diabas? Dos seres neutros? Da loucura descabida? Sobre humana ou proto humana? A temer, a amar ou a odiar?

Parecia desacordada, embora os olhos abertos e prismáticos de tantas coisas.

Saiu de dentro do olho dela e concatenou perguntas jornalísticas: quem é você? De onde surgiu? Para quê? A que vem? O que quer? Por que? Quanto?

Com bastante esforço Salatiel conseguiu erguer o tronco da grande fada e posicioná-la sentada. Só não dimensionava que a criatura não pudesse se comunicar na língua dos humanos e, sim, no sibilar ou no uivo das brisas ou ventanias com todos os seus subtons, a depender do humor, calmaria ou fúria.

Já acordada, então, parecendo assustada, começou a ventar o suficiente para derrubar os adornos da sala.

O que fazer então com ela? Curar-lhe a asa quebrada para que voasse de volta ao seu destino ou lugar de origem pareceu-lhe o mais sensato. Ao fixar o olhar na tal asa, observou que através dela, havia densos respingos dourados ressecados, açucarados, no seu vestido de imensas folhagens costuradas com cipó e sisal. Deduziu, portanto, que mel faria parte da dieta que pudesse oferecer para mantê-la viva; a fada com mais de dois metros de altura, que não conseguia se colocar de pé, somente caberia, deitada com algum conforto, na junção de dois sofás e assim ele fez.                                            

Salatiel, chamado por todos de ermitão, não saberia dizer nem a si mesmo se queria ou não aquela visita que despencara em sua casa. Apenas que aceitaria o que aparentemente lhe fora designado com algum propósito.

Mas, era hipnótico e estranho demais mirar aqueles olhos parecidos com duas contas de safira cheios de mundos, geografias e seres moventes, como se em algum momento, sem controle, pudesse ser por eles tragado. A catadura séria, tanta coisa naqueles olhos não dava espaço para ler neles alguma expressão, sentimento, humor, humanidade.

Talvez espanto trouxesse ela por tanta coisa vista e impressa naquelas retinas cujas imagens se projetavam para Salatiel, que assim se compadecia à fragilidade – a mulher-fada que vira e gravara nos olhos todas as coisas passadas, presentes e futuras. A descobridora dos sete mares, a detentora do Santo Graal e todos os mistérios de Atlântida a Shangrilá.

Gérmen de paixão em Salatiel era sentir dó, compaixão. Quando vinham, ele se desarmava e então, se humanizava. Acariciou-lhe a cabeleira finíssima e alva, ela fechou aqueles olhos caleidoscópicos e por um instante, quase sorriu, quase substituiu o pavor por apaziguamento

Mirou-a com genuína curiosidade.

De novo ela acordada olhando-lhe a alma, perscrutando-lhe os abismos, ele viu refletido ali algo diferente, dessa vez. Um homem maduro com duas enormes asas um pouco arrepiadas, feito as de um frango, brotadas das espáduas e que se dimensionavam em comprimento ao longo do corpo.

Um espelho diferente, a fada-estrela de outras galáxias mostrava a Salatiel o que ele, por ser só no mundo sem ninguém a lhe esperar, jamais soubera: era ele um anjo.

E virou lenda, vento, voo.