Franca vive um momento especial na exportação de talentos acadêmicos. Duas trajetórias distintas, mas complementares, ilustram o ciclo do estudante internacional: a euforia da aprovação e a realidade do cotidiano longe de casa. De um lado, Nina de Sousa Martins, da Vila Formosa, celebra sua entrada em uma das melhores universidades do mundo. Do outro, Eduardo Riguetto compartilha as dores e delícias de já estar vivendo esse sonho.
Para Nina, a aprovação na Northwestern University, no estado de Ilinois, nos Estados Unidos, não foi apenas um "sim", foi a realização de um plano traçado com determinação. A instituição, que figura no top 10 das universidades americanas, sempre foi o seu alvo principal. "Meu coração sempre batia mais forte para essa, além de ser uma top 10 e que gosta de interdisciplinaridade".
A estudante francana, ex-aluna do Sesi e moradora da Vila Formosa, embarca para um desafio duplo: ela cursará Ciências de Dados e Ciências Políticas. A escolha não é aleatória. Nina quer unir a precisão dos números à complexidade social. "Com esses dois cursos é possível realizar pesquisas utilizando análise de informações e identificação de padrões com o propósito de formular políticas públicas que são realmente eficazes".
Sua preparação foi uma verdadeira "escada" de experiências. Antes da graduação, Nina participou de programas de verão em Harvard (HMUN) e Yale (YYGS). Essas vivências foram fundamentais para quebrar a barreira do "impossível". "Elas mudaram a forma como você se enxergava como estudante internacional? Com toda certeza. (...) Me mostraram que eu poderia estar em lugares com professores renomados, com colegas de classe do mundo inteiro".
Mas o caminho exigiu mais do que notas altas. Nina mobilizou a comunidade, fez vaquinhas e vendeu doces para custear as etapas anteriores. Para ela, a vergonha não pode ser um obstáculo. "Eu acredito que quando algo realmente é o seu sonho, você tem que fazer dar certo, então vá vender docinhos, fazer rifas... você pode estar mudando não só a sua vida, mas inspirando as pessoas da sua comunidade".
Para os jovens que ainda estão em Franca sonhando com o exterior, Nina deixa um recado sobre resiliência: "O 'não' faz parte do processo, eu recebi muitos 'nãos' durante o processo, mas ele não define o seu limite. (...) Persistência nos dias difíceis, preparo e visão positiva são mais importantes do que qualquer privilégio inicial".
Enquanto Nina vive a expectativa da ida, Eduardo Riguetto, aprovado no ano anterior na Universidade de Wisconsin-Madison, vive a realidade da permanência. Ele descreve a experiência nos Estados Unidos como um processo de três etapas: "empolgação, desespero e costume".
Eduardo conta que a sensação inicial de se sentir "imbatível" logo dá lugar aos desafios práticos, especialmente quando o inverno chega. "Nessa época do ano (novembro e dezembro), estamos vivendo o final do semestre, que vem acompanhado de um frio de -15°C, misturado com saudade da família, provas finais e uma vontade enorme de comer arroz com feijão", relata.
A independência cobra seu preço em situações inusitadas. Eduardo compartilha que, sem a mãe por perto, teve que aprender a lidar com problemas domésticos e pessoais sozinho. "Não saber o que fazer quando meu cabelo congela, qual remédio tomar ou o que fazer com o edredom que eu queimei na secadora é uma experiência assustadora, e um pouco solitária".
Para quem vai embarcar em breve, como Nina, Eduardo oferece dicas valiosas de "sobrevivência":
Ao final, Eduardo reflete que a saudade, antes vista como vilã, tornou-se uma professora. "Hoje, a saudade tem um significado importante para mim, ela me faz enxergar o valor de coisas, momentos e pessoas que antes eu não via".