17 de janeiro de 2026
RESENHA

Entre a autobiografia e as memórias

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 6 min

Se no léxico de nosso idioma o verbete ‘prefácio’ é definido como texto de abertura que cumpre a função de despertar o interesse do leitor pelo trajeto que vai empreender através das páginas prestes a serem percorridas, ‘posfácio’ deve ser compreendido como apreciação ao que já foi lido, encerrada a jornada pelos capítulos construtores de uma história compartilhada. Com essa acepção uso aqui o segundo termo ao comentar o livro ‘Be-a-bá’, de Luiz Cruz de Oliveira.

Minha intenção foi fixar as percepções da leitora que pelas páginas viajou com o Autor- desde a Serra Saudade, na zona rural de Cássia, terra natal, até Franca, cidade do coração- atravessando oito décadas marcadas por muitos acontecimentos. Todos ilustram princípio bastante conhecido segundo o qual uma pessoa, no caso o narrador, se revela muito mais pela forma como reage aos percalços do que pela maneira como acolhe os êxitos.

Os vocábulos ‘trajeto’ e ‘jornada’ usados no parágrafo inicial aproximam o ato de ler e o de transitar, ensejando a imagem da leitura como viagem. ‘O livro é um mundo através do qual podemos viajar porque o mundo é um livro que podemos ler’, escreveu Alberto Manguell num de seus muitos ensaios dedicados a mensurar os impactos da literatura sobre a mente e o coração do leitor.

E se ninguém finaliza uma viagem do mesmo jeito como a começou, também não termina um livro de maneira igual àquela em que abriu a primeira página. De minha parte, saí de ‘Be-a-bá’ melhor alfabetizada para o entendimento da vida enquanto construção contínua que pede atenção e acolhimento aos que caminham conosco na complexa jornada que é a existência humana, tanto mais plena quanto mais marcada pela subjetividade.

Do leque dos muitos sentimentos que se abrem em ‘Be-a-bá’, a gratidão se faz onipresente nos 39 capítulos da autobiografia. Ou teríamos em mãos um livro de memórias? Para valorar ainda mais a obra que pela originalidade escapa à filiação rígida dos gêneros, seria oportuno lembrar a diferença entre uma e outro.

Críticos literários consideram autobiografia o registro de fatos reais, que alguém escreve sobre si, olhando-se como se fora um outro de quem narra em primeira pessoa a história cronológica. Na função de narrador, resgata datas, lugares, pessoas com quem conviveu ou com as quais compartilhou determinadas situações, e assim apresenta sua própria história linear. Já as memórias, que também constituem relatos, abrem espaços mais amplos para as rememorações, sem a ambição de reconstruir com exatidão a vida factual. O intuito neste segundo caso é reexperimentar liricamente o que coube ser no passado e repartir com os leitores paisagens não só geográficas, históricas e culturais, mas principalmente as humanas que se iluminam  pelos afetos.

Como há de concordar o leitor que completou a leitura de ‘Be-a-bá’ e chega a essas considerações concebidas a posteriori, a obra pulsa entre a autobiografia e as memórias, num misto peculiar de escrita da qual a literatura brasileira não é muito pródiga. Vemos aqui o autor/narrador/biógrafo/memorialista mirando o passado, perscrutando aquele que ele foi e aqueles com quem foi, em busca de organizar em palavras escritas o propósito  de uma vida. Costurando os dois pontos de vista, o objetivo e a subjetivo, instaura-se o lirismo refinado. Marca estilística, irrompe em momentos de alta concentração poética de que é exemplar a imagem do balaio de bambu usado para plantar sementes de café. Uma descrição que poderia ser apenas prosaica torna-se potente metáfora onde se aninham vários sentidos, um deles o que contempla a diferença entre conhecimento e sabedoria.

Voltando à viagem do Autor, narrativa  muitas vezes acidentada, não aconteceu ao redor de um quarto como a de Xavier de Maistre, que também escreveu biografia memorialista e influenciou Machado de Assis.  A viagem de Luiz Cruz de Oliveira se fez para fora de quaisquer paredes refletoras de ego insuflado. Em ‘Be-a-bá,’ ele fala pouco de si e muito dos outros, das pessoas com quem privou ou as quais conheceu de perto, daquelas a quem se ligou por boas emoções ou pelo sofrimento. Sob tal perspectiva, a autobiografia acaba sendo também a microbiografia de outros, porque ele é um memorialista que não se olha no espelho como Narciso. Está mais interessado em recordar como eram o mundo e as relações ao seu redor do que como neles era visto em fases diferentes do seu existir.

Por conta disso promove resgate de pessoas significativas que fizeram parte de um tempo histórico onde as máquinas ainda eram menos importantes que os homens. Com generosidade, externa seu reconhecimento àqueles que avaliou fundamentais na sua formação: familiares, colegas de profissão, conhecidos, amigos, alunos e, muito especialmente, professores, mestres, educadores a quem reverencia num preito amoroso. Tijolos na construção de seu caráter, em quase todas as páginas irrompem os nomes dos que o orientaram na trajetória em que triunfou.

Se a mensagem de esperança na Vida é forte, é impossível ignorar certo pessimismo na crítica à educação no País. O título ‘Be-a-bá’, à parte a metáfora ampla que remete a toda aprendizagem construída a partir de sólidos alicerces, questiona de forma sutil o ensino implementado desde os anos 80. O Autor, que ainda permanece voluntariamente em sala de aula, conhece bem o ofício e cumpre o que acredita ser um dever: alertar para as inconsistências de métodos questionáveis, especialmente no ensino fundamental, base para toda formação intelectual.

Além do óbvio movimento retrospectivo, natural quando se faz o balanço dos anos idos e vividos, outro, evidente, é o de expansão do indivíduo para o coletivo, onde se revela uma filosofia que valoriza o convívio, as parcerias.  Para o Autor, os encontros que lhe foram reservados em sua caminhada tornaram-se decisivos para definir quem ele se tornou.  No balanço final, a certeza que fica é a de que do ponto de vista do narrador de si mesmo, o passado não foi um fardo, mas uma fundação sólida onde o presente foi se erguendo em etapas sucessivas. Faz até lembrar versos de música de Gilberto Gil: ‘a aranha vive do que tece/ vê se não se esquece/ pela simples razão de que tudo/ merece consideração’.

‘Consideração’ é palavra-chave nessa autobiografia memorialista que combina o factual com manifestações subjetivas. Sob o ângulo do Autor, há que se considerar com apreço e gratidão os que estiveram com ele na viagem e os que continuaram juntos como tudo que se movimenta na construção de algo maior, plural, inclusivo. ‘Consideração’ é substantivo  brilhante, pois contém em sua etimologia a ideia de estrelas, mas também pertence pelos caminhos da semântica ao reino da ética, onde repousa o rico legado de Luiz Cruz de Oliveira, do qual apenas pequena parte é mostrada em ‘Be-a-bá’.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras