A jovem escritora de Franca, Maria Luiza Salomão Smozono, de apenas 16 anos, adicionou uma grande conquista ao seu já impressionante currículo: ela ganhou o primeiro lugar em um concurso internacional de poesias em Portugal. Maria Luiza foi laureada com o prêmio de "revelação juvenil" no XVI Concurso Agostinho Gomes, um tradicional evento literário de âmbito internacional.
A estudante foi para Portugal, onde participou da cerimônia de premiação no início deste mês, e retornou a Franca com essa grande conquista. "Não sei se consigo descrever o quanto é emocionante, na verdade foi uma grande surpresa ter o trabalho premiado", disse a jovem.
O poema vencedor, intitulado "Anônimos", foi inspirado no livro "A vida que ninguém vê", da jornalista Eliane Brum. Segundo a análise da comissão julgadora, "o presente poema pode ser entendido como meditação sobre as virtudes da persistência e da humildade; e da sabedoria de olhar o outro atentamente".
Incentivada pelos pais desde a infância, Maria Luiza conta que a paixão pela leitura veio cedo. "Mesmo quando ainda não sabia ler, andava por aí com livros debaixo do braço", lembra. A escrita, no entanto, começou no início de 2022, aos 13 anos, como uma forma de expressão e desabafo, inspirada também pelo pai, que é escritor.
Suas inspirações vêm do cotidiano e de grandes nomes da literatura russa e brasileira, como Dostoiévski, Tolstói, Machado de Assis e Clarice Lispector. "Às vezes, repentinamente, vêm ideias durante o dia, fazendo coisas comuns. Busco a inspiração justamente no dia a dia. Observando as coisas, os detalhes, sensações", explica.
A vitória em Portugal não é um fato isolado. A carreira literária de Maria Luiza começou com um prêmio de primeiro lugar já em 2022, no Concurso Literário da Academia de Letras de São João da Boa Vista, com o conto "A Travessia". Em 2024, teve dois trabalhos selecionados e publicados em coletâneas nacionais e, neste ano, voltou a ganhar o primeiro lugar em São João da Boa Vista com o conto "Três Ônibus".
Apesar do sucesso, ela não planeja cursar Letras. Para ela, a escrita é uma "válvula de escape". "Escrevo por paixão, amor e expressão. Tenho medo de tornar meu lugar de conforto em meu trabalho. Não quero tornar meu hobbie em algo cansativo, frustrante e que eu precise ser cobrada para fazer", reflete a estudante.
Ela se diz feliz em representar sua cidade natal e deixa um recado: "É muito bom poder representar o nome da cidade em que eu nasci levando coisas positivas. Leiam, escrevam, se expressem através de qualquer forma de arte e consumam a cultura brasileira, que é extremamente rica e precisa de mais valorização!"
Veja o poema que premiou a jovem francana:
Anônimos
Há nomes que o vento leva
antes de alguém aprender a dizê-los.
Pés que caminham sem deixar pegada,
vozes que o dia engole sem mastigar.
No vão entre o agora e o ninguém, —
vivem gestos pequenos como orvalho —
tão leves que o mundo os ignora,
tão discretas que o mundo esquece
de chamá-las pelo nome
mas tão firmes que sustentam o dia.
Existem olhos que não foram olhados,
sorrisos que secaram no escuro,
corpos que dormem sem cama,
almas que gritam atrás do muro.
Não estão nos livros, nas fotos,
nem nos grandes discursos de amor.
Mas acendem lampiões invisíveis
quando o silêncio se faz rumor.
São vidas que espreitam as frestas,
que habitam o que não se nota.
E às vezes, num lapso do tempo,
o mundo respira por elas — e não percebe.
Mas nelas mora um lume antigo,
um fogo que resiste ao esquecimento.
Nos olhos cansados, ainda há alvorada
que ninguém aprendeu a enxergar.
Cada gesto, semente no asfalto.
Cada silêncio, um grito sem eco.
Mas elas andam — e sonham,
como quem tece futuro com os dedos.
Um dia, o mundo vai parar.
Vai ouvir um riso vindo de longe,
e vai notar a flor que nasceu na beirada
e vai entender:
elas sempre estiveram ali.
E sempre brilharam.
Mesmo no escuro.