Há quem diga que viver duas vidas ao mesmo tempo é impossível. Para mim, contudo, é justamente nesse delicado equilíbrio que a existência ganha sentido. Aos 25 anos, aprendi a dividir meus dias entre salas de aula e pautas jornalísticas, entre o som da caneta na lousa e o clique seco do gravador que anuncia mais uma entrevista.
São quatro anos como professor de Língua Portuguesa e Proati (Projeto de Apoio à Tecnologia e Inovação) na rede estadual de ensino de São Paulo, em Franca. Tempo suficiente para ver a garotada passar pelas carteiras e transformar olhares desconfiados em curiosidade viva.
Mesmo diante de inúmeras dificuldades — muitas vezes sem as condições adequadas, com estruturas antiquadas e uma luta intensa por valorização —, o meu tempo no magistério me mostrou que o trabalho de um professor vai muito além de explicar regras gramaticais ou a clássica diferença entre “mas” e “mais”. Ser professor é também ouvir, acolher e orientar, frequentemente, muitas vezes até em silêncio, com gestos simples, nos intervalos apressados ou nos corredores.
Há cerca de dez meses, um novo cenário começou a se desenhar: o do jornalismo. As manhãs e noites, que antes terminavam em pilhas de redações para corrigir e planejamentos pedagógicos, passaram a dividir espaço com entrevistas, reportagens de rua e a urgência do fechamento de matérias.
Conciliar essas duas jornadas não é nada fácil. Há dias em que o despertador parece um inimigo, quando a voz, já cansada após quatro aulas, precisa ganhar fôlego para mais uma coletiva de imprensa ou mais um round de pesquisas e verificação de fontes. E há noites em que a mente se divide entre pensar em novas dinâmicas para engajar os alunos e estruturar a abertura de uma reportagem que será publicada no dia seguinte.
Esses dois universos parecem se encontrar em cada esquina da cidade: a escola, com seus muros grafitados e sonhos em construção; e a redação, com seu ritmo acelerado, discussões e sede por fatos. Caminho entre esses mundos com o mesmo tênis surrado que pisa firme no chão da sala de aula e corre ligeiro atrás de boas histórias.
Talvez seja exatamente isso que me move: a certeza de que ensinar e informar não são caminhos opostos, mas trilhas que se cruzam a todo momento. Ao final do dia, quando a cidade desacelera e as ideias insistem em pulsar, compreendo que essa jornada dupla não é sobre acúmulo de funções, mas sobre construir pontes: pontes entre o conhecimento e a notícia, entre a escola e a sociedade, e entre quem ensina e quem narra.
Muitas vezes fui perguntado: "Você trabalha também ou só dá aula?" Bem, eu trabalho muito dando aula, mas agora também fora da escola.
Em uma experiência recente, um aluno me perguntou como é ser professor e repórter. Respondi que, no fundo, é carregar uma responsabilidade muito grande — e o privilégio — de tocar vidas com palavras, seja na sala de aula, seja na manchete do jornal.