O prefeito de Franca, Alexandre Ferreira (MDB), embarcou em uma missão diplomática e comercial aos Estados Unidos com o objetivo de reverter os efeitos do "tarifaço" imposto pelo governo norte-americano, que tem impactado diretamente os setores calçadista e cafeeiro da cidade. A medida tem dificultado as exportações, comprometido a produção e colocado em risco milhares de empregos.
Em coletiva de imprensa em seu gabinete, Alexandre disse que a situação é especialmente crítica para a indústria de calçados, um dos pilares da economia francana. Segundo o prefeito, o impacto das novas tarifas é devastador para empresas que dependem exclusivamente do mercado americano. "Nós temos empresas aqui em Franca que têm 100% da sua exportação, a empresa é 100% de exportação e na totalidade para os Estados Unidos. Então, essa empresa vai começar a ter problema e logo, logo vai começar a ter que fazer férias coletivas porque ela não tem onde entregar o produto", alertou Alexandre.
O drama já é visível nos estoques. O prefeito citou o caso de uma única fábrica que acumula 20 mil pares de sapatos, sem perspectiva de despacho. A projeção da administração municipal é que a crise afete diretamente entre 10 mil e 12 mil trabalhadores do setor.
O problema para o setor é agravado pela natureza do produto. "O calçado fabricado para o mercado norte-americano, ele só pode ir para o mercado norte-americano, porque ele não vai ser absorvido por outros mercados. O pé é diferente, a numeração é diferente e a estrutura do sapato é diferente", explicou o prefeito.
Juntos, os setores de café e calçados representam entre 60% e 65% de tudo o que Franca exporta. O café, embora tenha mais flexibilidade por ser uma commodity, também sente o golpe. De junho a agosto, o setor já registrou uma queda de 4% nas exportações, o que equivale a uma perda de R$ 17 milhões.
Somando os prejuízos de ambos os setores, a estimativa até o final do semestre é alarmante. "Se a gente considerar que a gente exporta um pouco mais de R$ 300 milhões, isso deve ser em torno de R$ 150 a R$ 180 milhões (de perda)", calculou o prefeito.
Antes de buscar o diálogo em solo americano, a Prefeitura de Franca já havia se mobilizado internamente. Alexandre Ferreira relatou encontros com o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSD), para expor a gravidade da situação.
Em uma frente paralela para garantir a sobrevivência das empresas, a administração municipal buscou o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A articulação resultou na criação de uma linha de crédito emergencial com condições favoráveis para os empresários afetados.
"Fomos buscar uma reunião recente no Rio de Janeiro no BNDES, com dinheiro a 6% ao ano, com 5 anos para pagar, 2 anos de carência.Um dinheiro bem barato, fácil de conseguir através do seu agente financeiro", detalhou Ferreira, ressaltando o resultado positivo da conversa com a direção do banco.
Em sua bagagem para os Estados Unidos, o prefeito leva não apenas dados econômicos, mas a experiência de crises passadas que marcaram a cidade. Ele recordou a retração de 2009, que também impactou severamente as exportações e gerou uma onda de desemprego da qual Franca só se recuperou seis anos depois, em 2015.
"O que a gente vai levar para eles é essa mesma experiência [...] para mostrar o que a cidade sente com isso. Se a gente não cuidar agora, nós vamos levar para eles a nossa vivência negativa em perder emprego na cidade e o que causa na cidade", afirmou.
O objetivo da missão, segundo Alexandre, não é criar um confronto, mas sim uma ponte para o diálogo. "Nós estamos indo lá conversar, porque é uma maneira que a gente tem de mostrar para o governo dos Estados Unidos e para o governo brasileiro o impacto negativo que isso causa, para fazer os dois conversarem de novo e entrarem em consenso", finalizou.