09 de julho de 2026
#VOTOFRANCA

Franca completa 21 anos sem visita de presidente

Por Pedro Baccelli | Editor do GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo pessoal
Presidente Lula junto do ex-prefeito Gilmar Dominici e seus familiares durante visita a Franca em 2004

Ser visto para ser lembrado. O ditado resume a relação de Franca com Brasília: distante, quase inexistente. O município, hoje com 352 mil habitantes, não recebe uma visita oficial de um presidente da República há 21 anos. A última ocorreu em 14 de maio de 2004, quando Luiz Inácio Lula da Silva, em seu primeiro mandato, inaugurou um galpão da Ferracini no Distrito Industrial e abriu a 35ª Expoagro, no Parque de Exposições Fernando Costa. Desde então, silêncio. Lula em seu segundo mandato, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula outra vez não pisaram aqui no exercício do cargo.

No mesmo período, cidades paulistas de diferentes portes colecionaram múltiplas visitas presidenciais. Campinas foi destino de 22 agendas oficiais entre 2004 e 2025. Ribeirão Preto, a 100 km de Franca, recebeu presidentes nove vezes. Até Araraquara, com 243 mil habitantes, viu Lula desembarcar em quatro ocasiões recentes. Bauru, de porte semelhante, também entrou na rota, ainda que apenas uma vez, em 2014, quando Dilma Rousseff participou da entrega de 944 apartamentos do Minha Casa, Minha Vida.

Franca, porém, permaneceu invisível.

Comparações que pesam

Campinas exemplifica a diferença. Com 1,1 milhão de habitantes, cerca de 3,5 vezes maior do que Franca, a cidade é polo tecnológico e acadêmico, abriga a Unicamp, centros de pesquisa e um dos maiores aeroportos de carga do país, Viracopos. Presidentes foram atraídos para inaugurações de laboratórios, programas habitacionais, expansões de infraestrutura e investimentos privados. Lula esteve lá em 2004 para a ampliação de Viracopos; Dilma, em 2015, para inaugurar uma planta de etanol 2G da Raízen. A lista é extensa. Foram 24 visitas presidenciais, enquanto Franca recebeu apenas uma.

Ribeirão Preto, apelidada de “Califórnia Brasileira”, tornou-se ponto obrigatório nas agendas ligadas ao agronegócio. A Agrishow, maior feira agrícola do continente, recebeu Lula (2004), Michel Temer (2018) e Jair Bolsonaro (2019 e 2022). Não se tratava apenas de presença simbólica: em 2017, Temer anunciou ali R$ 12 bilhões em crédito pré-custeio da safra agrícola, medida que deu fôlego antecipado aos produtores rurais.

Araraquara, menor que Franca em população, também mostra o contraste. Lula esteve na cidade em 2005, 2008, 2023 e 2024, sempre acompanhado do prefeito Edinho Silva, seu aliado histórico. Em 2024, anunciou R$ 143 milhões em obras de microdrenagem e reurbanização. Em 2023, chegou a montar um gabinete de crise provisório no município durante os ataques terroristas em Brasília, após visitar áreas destruídas por tempestades.

Enquanto isso, Franca não recebeu qualquer visita presidencial desde 2004.

Memória da última visita

Naquele ano, Lula chegou acompanhado da primeira-dama, Marisa Letícia, e dos ministros Luiz Fernando Furlan (Indústria e Comércio) e Roberto Rodrigues (Agricultura). Visitou a fábrica da Ferracini, percorreu a linha de produção, conversou com trabalhadores e inaugurou um novo galpão financiado pelo BNDES. Depois, seguiu para a Expoagro.

O então prefeito Gilmar Dominici recorda: “foi um dos dias mais emocionantes do meu mandato. Lula ficou seis horas em Franca, cumpriu duas agendas e demonstrou proximidade com a cidade”, disse. Ele destacou ainda a relação construída com Lula antes da Presidência: “Lula já esteve em Franca 11 vezes ao todo, desde os tempos de sindicalista. Não era uma cidade desconhecida para ele.” É verdade, mas depois que chegou à presidência, também é verdade, só esteve aqui uma vez.

Antes de Lula, a última visita oficial havia sido em 1979, com João Figueiredo, último ditador do regime militar, na abertura da Francal, então realizada em Franca. Entre Figueiredo e Lula, nenhum presidente pisou na cidade.

Bolsonaro em 2024

Houve a passagem de Jair Bolsonaro por Franca em agosto de 2024, mas ele já estava fora do cargo. O ex-presidente participou de uma motociata em apoio à candidatura de João Rocha (PL) à Prefeitura, discursou sobre Deus, pátria e família, e percorreu a cidade em carreata. Uma visita de campanha não oficial.

Ex-prefeito Dominici é direto sobre a raiz do problema. “Franca não construiu proximidade com o alto escalão de Brasília. Sem deputados federais atuantes, não há quem defenda projetos que atraiam a presença do presidente.”

Esse vazio político explica a ausência de grandes investimentos nacionais. Projetos que poderiam mobilizar a visita de um presidente, como um Instituto Federal ou uma grande obra de infraestrutura, raramente saem do papel sem representantes locais para defendê-los.

O resultado é claro: cidades vizinhas colhem recursos e prestígio; Franca, não.

O que está em jogo?

O distanciamento não é apenas simbólico. Ficar fora da agenda presidencial significa menos investimentos públicos, menos visibilidade e menor inserção em programas nacionais. É sintoma de uma cidade que perdeu espaço político.

É nesse cenário que surge a campanha Franca tem Voz (#VotoFranca). Liderada por Acif, Cocapec, Unimed, GCN, Rádio Difusora e apoiada por CDL, Ciesp, OAB, Sebrae, Uni-Facef, Franca Basquete e outras entidades, a iniciativa busca mudar o quadro em 2026.

O objetivo é claro: eleger deputados federais e estaduais com base local, capazes de devolver a Franca representatividade e voz nos centros de decisão.

Porque, sem representantes, Franca continuará invisível. E invisibilidade, na política, tem preço.