"A política não é feita no vazio, mas no território onde vivem as pessoas que dela dependem"
Ulysses Guimarães, político brasileiro, o Senhor Diretas”
Foi num hoje distante 6 de junho de 2010, um domingo, que publiquei no então jornal “Comércio da Franca”, assim como no portal GCN, uma Gazetilha com o título “Pode faltar voto”. As eleições gerais de 2006 tinham terminado com Lula reeleito presidente da República - ironias da história, derrotando no segundo turno Geraldo Alckmin, hoje seu vice - e com José Serra vitorioso no governo paulista, e eu lembrava que Franca vivia um momento especial.
Naquele instante, a cidade tinha dois deputados estaduais (Roberto Engler e Gilson de Souza) e um federal (Marco Aurélio Ubiali). Mostrei que, em comparação com outras regiões, estávamos num bom momento político. Tínhamos mais representantes do que o habitual, em São Paulo e em Brasília. Lula, na presidência, havia visitado Franca durante o primeiro mandato. Alckmin, então governador, mantinha proximidade com a região. Nossos representantes estavam onde precisávamos que estivessem.
Fiz um alerta: “(...) o cenário certamente vai se alterar após as convenções partidárias, mas quem decidirá - de forma soberana e incontestável - o nome dos que vão representar a cidade é o eleitor. Sair todo mundo na disputa pelos votos é um direito dos candidatos. Só não sei se é o mais inteligente a fazer. Afinal, pedir votos é relativamente simples. Difícil vai ser encontrar alguém para pagar a fatura se, por conta da divisão do eleitorado, a cidade perder representação política e deixar de ter uma vaga em Brasília e duas em São Paulo.”
Naquele ano, Engler e Gilson acabariam reeleitos. Ubiali terminou na suplência. Ainda exerceu mandato, mas já era um sinal de tempos difíceis.
De lá para cá, infelizmente, minha previsão não apenas se confirmou, como a situação piorou muito. Enquanto em 2010 quatro candidatos disputaram vaga de deputado estadual e oito tentaram a Câmara Federal, na última disputa, em 2022, foram inacreditáveis 31 candidatos — 16 a estadual e 15 a federal. O saldo: apenas dois eleitos para a Alesp (Graciela Ambrósio e Guilherme Cortez).
Enquanto o número de candidatos cresce, aumentam também abstenções, votos brancos e nulos. Multiplicam-se os votos dados a candidatos sem qualquer vínculo com Franca e região. Sem exagero nenhum, está tudo errado.
O problema não é só nosso. Outras regiões também perderam representatividade. À direita e à esquerda, multiplicam-se deputados meramente ideológicos, influenciadores digitais, religiosos ou representantes de corporações de ofício. Faltam vínculos reais com comunidades. Falta ligação direta com as necessidades dos eleitores. O resultado é um só: prefeitos pressionados por orçamentos curtos e sem respaldo político.
Tudo isso que hoje divido com você, que me lê, discuto há meses com o presidente da Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca), Fernando Rached Jorge, uma liderança fora da curva, com sensibilidade política e que entende que o papel das instituições deve ir além de mera representação de interesses comerciais de seus associados – mesmo porque, quando há problemas grandes e a região deixa de ocupar o lugar de protagonista que merece, o problema é de todos. Juntaram-se a nossas conversas, nas últimas semanas, também o presidente da Unimed Franca, Marco Benedetti, e da Cocapec, Carlos Sato, junto com suas respectivas diretorias, todas pessoas que também acreditam que empresas tem um papel a cumprir que vai além do óbvio lucro. E que fazer o impossível para garantir desenvolvimento e melhores condições de vida para todas as nossas comunidades deve ser uma obsessão de todos.
Fui cobrado a apresentar um diagnóstico profundo, o que fiz a partir da análise dos últimos 20 anos de disputas eleitorais em Franca, e provocado a apresentar um plano de ação, o que fiz considerando o tamanho do problema. Outras conversas se repetiram, houve contribuições de muita gente, as equipes se envolveram e pudemos apresentar, na última quarta-feira, 27 de agosto, no auditório da Acif, a campanha “Franca tem Voz. E ela precisa ser ouvida”.
O objetivo não é modesto. Queremos recolocar Franca no mapa. Precisamos estar representados, em número suficiente, nas mesas decisórias de Brasília e São Paulo. Temos que ser vistos por grandes empresas na hora de investir. Precisamos que nossas demandas sejam consideradas e nossa relevância, reconhecida.
O que faremos? Mostrar aos eleitores como chegamos a esse ponto e quanto isso custou em investimentos perdidos. Conversar nas escolas, entidades, empresas, associações, ruas. Traduzir a necessidade de escolher candidatos da região. Não importa se conservadores ou progressistas, de direita ou esquerda, qual a raça, fé ou idade. O apelo é simples: escolha alguém daqui.
Produziremos matérias, documentários, entrevistas, sabatinas. No momento adequado, a partir de critérios objetivos, apontaremos os mais viáveis. A decisão é soberana do eleitor, mas partidos também serão cobrados. Lançar nomes apenas para atender caprichos de caciques é desserviço.
O desafio está lançado. Serão 14 meses de muito trabalho. Impossível prever o resultado, mas já recolocamos a roda em movimento. Há muita gente boa, de perfis diversos, que merece a chance de representar Franca. Nosso papel será separar o joio do trigo e devolver a cidade ao lugar que lhe cabe.
Além da Acif, Unimed, Cocapec, GCN e Difusora, que iniciaram o projeto, já temos a adesão da OAB, Ciesp, Sebrae, Uni-Facef e Magazine Luiza. Esperamos que outras instituições, a imprensa e milhares de eleitores se unam.
Siga a página @FrancaTemVoz. Ali está o manifesto e estarão todas as ações. Ou votamos em nós mesmos, ou aceitaremos ser governados por quem nunca pisou aqui - a não ser, a passeio.
Corrêa Neves Jr é jornalista, diretor do portal GCN, da rádio Difusora de Franca e CEO da rede Sampi de Portais de Notícias. Este artigo é publicado simultaneamente em toda a rede Sampi, nos portais de Araçatuba (Folha da Região), Bauru (JCNet), Campinas (Sampi Campinas), Franca (GCN), Jundiaí (JJ), Piracicaba (JP) e Vale do Paraíba (OVALE).