09 de julho de 2026
DIA DA DANÇA

Arte que cura: dança conecta, desafia e inspira jovens em Franca

Por Giovanna Attili | da Redação
| Tempo de leitura: 7 min
Divulgação/Festival Dançaraxá | Giovanna Attili/GCN
Artistas de Franca em suas apresentações de dança

O Dia Internacional da Dança é comemorado anualmente no dia 29 de abril. Esse meio de expressão artística faz parte da vida de muitos moradores de Franca, cidade que reúne diversos estúdios, com variadas modalidades da arte.

Em Franca, são pelo menos 20 companhias de dança. Algumas delas muito conhecidas por seus espetáculos anuais que normalmente são realizados no Teatro Municipal “José Cyrino Goulart”, no bairro São José, ou no Teatro “Judas Iscariotes”, no bairro Cidade Nova.

'A dança me aproximou da minha família' - A história de João Gabriel Neto 

O início de tudo 

A dança para o jovem João Gabriel Neto, de 20 anos, começou cedo. Aos 9 anos de idade, na tentativa da mãe de tirar o filho de dentro de casa, o menino experimentou diversas opções de atividade física, como futebol, judô e outros esportes, porém, João encontrou na dança um porto-seguro.

“Eu nunca me encaixei em nenhum deles (outros esportes). Com uma facilidade que eu nunca tinha sentido antes, me apaixonei pela dança. Quando percebi, estava mais dedicado do que nunca, focado, feliz, dançando das 17h às 21h, de segunda à quinta. Cada vez mais interessado em conhecer melhor esta arte”, explicou.

As dificuldades da trajetória

Na época em que João mergulhou no universo da dança, a quantidade de meninos incluídos nessa área era pequena. Isso se devia ao antigo estereótipo de que “dançar era coisa de mulher”. De início, o menino se sentiu intimidado e relata até mesmo que teria sofrido preconceito, mas isso não foi empecilho para seguir seu sonho.

“Quando eu tinha 9 anos, (a dança) ainda era vista como tabu. Muitas vezes me senti intimidado por fazer algo que a sociedade considerava 'coisa de menina'. Sofri bullying diversas vezes, mas nunca me deixei calar. Ninguém poderia se colocar entre mim e minha maior paixão”, contou.

O apoio da família foi suporte essencial na trajetória do popular "Neto", como é conhecido por seus colegas. Sua mãe foi seu principal incentivo, além das amizades que construiu pelo caminho.

“A dança me aproximou da minha família. Entendi que, apesar das dificuldades, eu era amado, apoiado, e que se algo de ruim acontecesse comigo, eu teria quem lutasse ao meu lado”, afirmou.

'A realização de um sonho'

De acordo com João, seu maior sonho era competir por uma companhia de dança, e ele concretizou esse sonho. Era como uma forma de incentivo para que a competição fosse a chave para conhecer novos estilos e tentar se superar inspirado nessas novas pessoas.

Sua primeira companhia competitiva foi a VDance, oriunda do Studio Vem Dançar, da qual Neto fazia parte. Uma companhia focada em danças urbanas e coreografada pelo professor e dançarino Paulo César.

“Foi na VDance que eu aprendi o real significado de crescer junto. Entendi que não estamos sozinhos, que não conseguimos evoluir sozinhos. Descobri família além do sangue. Percebi que dançar é muito mais do que se movimentar; é preparar o corpo, a mente, é construir uma nova forma de existir”.

O futuro de João Gabriel na dança

Neto trabalha como designer e videomaker atualmente. Apesar de não ter a dança como objetivo profissional, o jovem, que hoje frequenta o Studio de Dança e Cia WF, tem a dança como sua principal aliada quando o assunto é se desafiar, competir e descobrir até onde vai essa paixão que encantou um garoto de 9 anos e o fez sonhar.

Tendo o professor Wallas Felipe como instrutor, João vive uma nova fase da dança em sua vida: a expressão corporal. Focado no jazz, contemporâneo e estilo livre, ele descreve essa nova etapa como uma forma de conhecer seu corpo e entender seus limites.

“Estou vivendo uma nova paixão dentro da dança. Tem sido uma jornada que estou louco para continuar explorando”, concluiu.

'Quero fazer isso também!' - A história de Isabella Andrade 

Dança como herança de família 

Dançar para Isabella Andrade Marchini, de 18 anos, sempre foi mais do que simplesmente um hobby. Para ela, isso simbolizava um legado de família.

Tendo a mãe e a irmã mais velha como principais inspirações, Isabella começou a dançar com apenas 4 anos, iniciando no balé e depois seguindo para o jazz.

As lesões durante o desenvolvimento 

Em 2017, Isabella teve sua primeira lesão constatada. Ela iria começar a fazer balé na sapatilha de ponta - um de seus maiores sonhos. Entretanto, ela reunia muitas dores na coluna, joelho e tendões dos calcanhares, que a obrigaram a passar junto a um médico. Foi aconselhada para não seguir com o projeto, porém, mesmo assim, seguiu. Após um diagnóstico de tendinite nos tendões dos calcanhares, Isabella teve de parar de dançar por dois anos.

“Minha irmã e minha mãe me incentivavam a não desanimar, mas algo que me ajudou muito foi iniciar um outro meio de arte, que foi o piano. A arte é algo que me incentiva de várias formas - dança, piano, maquiagem artística. Isso me influenciou muito em permanecer conectada com a arte”, contou.

A irmã mais velha de Isabella, Larissa Andrade, professora e coreógrafa do Studio de Dança Daniela Tosi, foi o principal pilar para que a jovem retornasse para a dança em 2019. Com a frequência em acompanhar a irmã em ensaios gerais e apresentações, Isabella foi, aos poucos, retornando ao mundo da dança.

A pandemia também foi um ponto de muita dificuldade para a garota que conta que estava muito empolgada na época com a aprovação para sua primeira companhia de dança competitiva: a Decode Company, oriunda do Studio de Dança Daniela Tosi. Essa trajetória foi interrompida por conta das complicações do coronavírus.

“A dança sempre foi meu escape. Mesmo que por aula no computador, era naquele momento que eu conseguia escapar da realidade, colocar tudo para fora, expressar meus sentimentos. Não dá para ficar sem (a dança), isso me alimenta, é o que me mantém viva”, afirmou.

Subterfúgio - O solo que marcou sua vida 

Um momento que marca a trajetória de Isabella até hoje foi o primeiro solo de Danças Urbanas que ela foi selecionada para fazer. No meio de um momento de vida muito corrido para a jovem, por conta de compromissos estudantis e preocupação com vestibulares, além das questões pessoais que vivia, foi lhe dada a confiança e a responsabilidade de representar o estúdio em uma grande competição com esse solo.

Nomeado como “Subterfúgio”, o solo era focado em demonstrar uma ideia de tentar fugir de pensamentos negativos. No solo, a artista tinha suas mãos presas em um elástico e, durante a coreografia, ela se soltava, como se estivesse se soltando de tudo que a estava prendendo ou impedindo seu desenvolvimento.

Isabella conta que, pouco antes da competição, viveu uma questão em sua vida pessoal que a abalou e, por um momento, sentiu que não conseguiria lidar com tudo aquilo. Sua irmã, Larissa, lhe deu duas opções: adiar o projeto ou usá-lo a seu favor para soltar tudo o que estava sentindo enquanto dançava. A jovem optou por dançar e ganhou o primeiro lugar da competição.

“Escolhi a segunda opção. Sei que a dança me salva. É meu ponto de fuga. Apresentei meu solo e nele, tinha uma parte onde eu gritava e me soltava dos elásticos. Quando gritei, senti que foi um grito de verdade mesmo, gritei tudo que eu queria colocar para fora. O palco parou, o tempo gelou. Cada passo da coreografia me fazia me sentir mais aliviada", detalhou.

O futuro de Isabella na dança 

O solo realizado por Isabella ficou mais marcante quando, no começo de 2025, descobriu que o executou com três hérnias de disco em sua coluna. Infelizmente, a indicação médica foi, mais uma vez, o afastamento de suas atividades para tratamento.

Hoje em dia, as expectativas da jovem sobre voltar a dançar são voltadas para somente hobby. Ainda não há previsão para o retorno e nem prazo do tratamento das lesões constatadas, porém Isabella tem uma certeza: não vai abandonar o que um dia foi seu maior sonho e seu maior alívio.

“Sinto que ainda tinha muito mais para viver. Não sei se vai caber mais estar em equipes competitivas, mas não quero parar de dançar. Quando eu puder voltar, nem que seja só uma vez por semana, quero que a dança sempre esteja presente na minha vida, é muito importante para mim”, afirmou.

“A dança é algo que alimenta, traz alívio em meio ao caos. É aquele momento que serve para te abastecer. Tem o cansaço físico, mas a cabeça descansa. Nos meus piores momentos, era eu e a dança. É uma sensação incomparável. Gostaria que todo mundo vivesse um pouco desse sentimento”, concluiu.