Ler se tornou quase impossível. Realizar matérias simples, do cotidiano, ficou muito mais difícil. Trabalhar, então, inviável. Essa é a realidade de Adauto Raimundo da Silva. Aos 55 anos, ele, que se acostumou a caminhar por eventos de Franca entoando o famoso grito "amendoim, ôe" para vender as guloseimas, mal consegue caminhar sozinho pelas ruas.
O causador de tanta dificuldade é um problema visual: um glaucoma bilateral que acomete Adauto há mais de dois anos. Desde 2022, o comerciante, agora aposentado, luta por uma cirurgia para solucionar a enfermidade e voltar a enxergar bem.
Um dos primeiros diagnósticos, obtido em fevereiro do mesmo ano, de um médico oftalmologista da rede pública de Franca, afirmou que o homem precisava de uma cirurgia com certa urgência e atestou que "o paciente é portador de neuropatia óptica, com visão subnormal nos dois olhos, impedindo atividades de trabalho definitivamente".
E o laudo, infelizmente, estava correto. Com o passar do tempo, Adauto, com a visão prejudicada, precisou parar de vender os amendoins e não conseguiu mais ajudar com a renda de casa. Agora, pouco consegue tocar tarefas cotidianas.
"Hoje, que precisei sair de casa, só consegui porque o rapaz me colocou dentro do ônibus. Não consigo trabalhar mais e estou passando aperto. Eu até precisei me aposentar por causa disso. Esse problema das vistas e um problema na coluna, também", contou.
De acordo com os profissionais de saúde que atenderam o vendedor, somente uma cirurgia pode resolver a situação, mas a rede pública não tem colaborado. "O médico me falou que, se eu não correr contra o tempo, estarei com uma bengala nas mãos daqui a alguns dias. Na Secretaria da Saúde, falam que eu vou precisar esperar mais de dois anos. Eu não consigo pagar a cirurgia e, além disso, ainda estou com problemas familiares".
O Portal GCN/Sampi questionou a Prefeitura de Franca sobre o caso de Adauto, mas ainda não obteve retorno.
Casos parecidos como o de Adauto se acumulam em Franca. Ao todo, no município, mais de 4 mil pessoas aguardam a realização de algum tipo de cirurgia eletiva – aquela que não é considerada de urgência médica – de acordo com a última lista divulgada pela Prefeitura.
O levantamento, feito no último mês, indica que a maior parte dos procedimentos em espera são relacionados à região abdominal. Só nessa área, existem 3.658 cirurgias colocadas na fila da rede pública de saúde.