A comunidade do Carnaval de Franca lamenta o grande período sem o tradicional desfile das escolas de samba. Mais um ano, a Passarela “Renato Rosa” não vai ouvir o som da cuíca, do repique, tamborim, surdo, chocalho e agogô. Os componentes das escolas de samba não foram aos barracões para ensaios, as costureiras não confeccionaram as fantasias, mestre-sala e porta-bandeiras não vão carregar o pavilhão da agremiação com aquele orgulho e brilho nos olhos. A rainha da bateria não vai mostrar o samba no pé e o Rei Momo não vai receber simbolicamente as chaves da cidade para comandar a maior festa popular do Brasil.
Sem a realização do Carnaval, muitas pessoas que aproveitavam o período de desfile para movimentar a economia ficam sem opção. Além de entretenimento, o evento também gerava renda, empregos temporários como costureiras, seguranças, empresas de estrutura de arquibancadas, comércio de bebidas, alimentação, músicos, entre outras atividades.
“A falta do desfile carnavalesco na cidade tem um impacto muito grande em nossa escola. É uma instituição que trabalha durante o ano inteiro e, de repente, se encerra sem prazo de retorno. Franca encontrava-se em um progresso crescente com o Carnaval de rua e, com a falta do Carnaval, ocorrem perdas econômicas, ou seja, empregos. Além disso, a cultura falece aos poucos com a falta de apoio municipal”, disse Régis Augusto, presidente da escola de samba Ases do Ritmo, campeã em 2020, último ano que houve desfile em Franca.
O carnavalesco conta que a Ases do Ritmo não ficou totalmente desativada nesses últimos anos, realizando desfiles em outras cidades. “As apresentações (shows) da escola continuam acontecendo normalmente, ainda que a cidade se feche para o Carnaval, as cidades vizinhas abraçam a causa; no entanto a nossa presença em casamentos, eventos corporativos, festividades, continua, isso é o que nos mantém vivos”, disse.
Regis completou dizendo que lamenta a não realização dos desfiles em um ano importante para a cidade e para a própria agremiação. “Ficar sem desfilar no ano em que a escola completa 50 anos, deixa um sonho para trás, de um grandioso desfile para a cidade. A cidade completará 200 anos, acontecerá todo tipo de festa, já o Carnaval não. É o único lazer que muitos esperam o ano todo para poder curtir e se divertir. Uma pena. A escola de samba agoniza, mas não morre”, finalizou o presidente da Ases do Ritmo.
Delcides Moreira da Silva, conhecido como Dede, presidente da Escola Embaixadores da Estação, também lamenta o não recebimento de verba pública para que as agremiações pudessem se preparar para realizar o desfile. “Após a pandemia, a prefeitura decidiu não apoiar o Carnaval francano, a cultura popular. As escolas de samba foram esquecidas, mas no futuro acreditamos que vamos achar uma solução”, disse.
O presidente da Embaixadores destacou que a escola vem realizando atividades na própria comunidade para não ficar totalmente parada. “Pelo segundo ano, realizaremos no domingo de Carnaval no Carnaoeste. Esse movimento acontece no Centro Comunitário da vila São Sebastião. Teremos bandas de pagode que vão se apresentar gratuitamente para alegrar nosso pessoal. Na segunda-feira, 12, vamos fazer um desfile nas ruas do bairro, finalizando no Centro Comunitário, além de uma apresentação do Grupo Cangoma. Estamos fazendo esse evento com o apoio dos comerciantes locais que se sensibilizaram e cada um ajudou de alguma forma”, explicou Dede.
Policarpo Soares, vice-presidente da Filhos de Gandhi, e ex-presidente da Liga das Escolas de Samba de Franca, também disse que a agremiação lamenta não poder desfilar por mais um ano. “A comunidade do samba de Franca fica mais uma vez muito triste, como se fosse um luto por mais um ano sem Carnaval. Infelizmente, a cada ano que passa a cultura de nossa cidade é esquecida. Neste ano, Franca comemora 200 anos e não foi feito nenhum trabalho em relação a essa cultura para mostrar que Franca tem tradição no desfile de Carnaval. O Carnaval gera renda, movimenta as escolas, as pessoas que gostam de Carnaval. As escolas de samba ficam no prejuízo, uma vez que são empresas e precisam pagar tributos e outras despesas.
Policarpo disse que a agremiação também realizou alguns eventos esporádicos. “Nossa escola realizou alguns eventos ano passado voltados para a área social e vai continuar com esse projeto, mantendo viva a esperança para 2025. É uma pena que o Carnaval de Franca esteja acabando dessa maneira. Batatais ficou cinco anos sem Carnaval e voltará neste ano, então vamos continuar com nossos eventos sociais aguardando o que vai acontecer no futuro”, finalizou.
Franca já contou com mais de 20 escolas de samba ao longo da história, além de inúmeros blocos. No último ano em que houve desfiles, em 2020, as escolas participantes foram: Ases do Ritmo, Aliados da Santa Cruz, Filhos de Gandhi, Embaixadores da Estação, Águias Douradas e Caprichosos da Estalagem.