11 de julho de 2026
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‘Não me sentia digna para buscar uma vida melhor’, diz mulher estuprada aos 13 anos

Por Giselle Hilário | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
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Triste realidade: muitas não sabem que vivem um ciclo de violência ou então não conseguem se desvincular de seus agressores sem ajuda (foto ilustrativa)

Maria (nome fictício) fugiu de casa aos 13 anos com o padrasto, quando a família dela descobriu que era estuprada por ele. Mas ela não sabia que era estupro. Achava que era um relacionamento normal. Pelo menos era o que ele, o padastro, dizia para ela.

Quando os familiares descobriram onde estavam, foram agredidos. Ele foi preso. Ela foi para um abrigo para crianças e adolescentes. Só lá, conversando com as psicólogas, entendeu que era vítima de estupro. Foi um baque. Mas Maria não pôde ficar abrigada por muito tempo. Nessa época, ela já trabalhava e, 8 meses depois, com 14 anos, precisou sair para ajudar a mãe, que estava passando por dificuldades, e voltou para casa.

Aos 16 anos, Maria engravidou. E depois aos 19. Era mãe solo de ambas quando conheceu João (nome fictício). “E aí minha vida virou de cabeça para baixo.”  Maria conta que João era excessivamente ciumento e possessivo. “Ele tinha ciúme de homem, de mulher, de tudo. Me agredia, me largava quase sem roupa na rua quando cismava com alguma coisa e me batia”, conta.

Nessa época, Maria já tinha um pequeno salão de beleza, já que desde os 13 trabalhava na área. “Mas eu nunca tinha nada. Nem dentro de casa nem no salão. Ele quebrava tudo.” Para piorar, a avó paterna da segunda filha de Maria pediu na Justiça a guarda da menina. E conseguiu.

“Fiquei sem chão. Mas não via como ia conseguir recuperar a menina naquela situação. Apanhava muito. Várias vezes. Cheguei perder um bebê por causa das agressões. Que juiz ia devolver minha filha naquela situação? No Cras [Centro de Referência de Assistência Social] a psicóloga insistia que eu precisava ir para um abrigo, mudar de vida. Eu só pensava em recuperar minha filha. Então eu fui. Mas eu não me sentia digna, sabe? Eu ficava pensando: ‘Será que o problema sou eu? Será que eu sou digna?’. E quando eu cheguei no abrigo, já adulta, eu vi que o problema não era eu, que não acontecia só comigo. Todas as mulheres que estavam lá passavam pelo mesmo que eu.”

E Maria finalmente teve forças para romper o ciclo de agressões que sofreu por tantos anos e se afastar do companheiro. Três anos depois, conseguiu ter a filha de volta. E nunca mais falou ou viu o ex-companheiro.

Hoje, aos 29 anos, Maria está com a vida refeita. Tem um salão de beleza, casa própria e ajuda outras mulheres que passaram pelo que ela passou. Ensina a elas um ofício, e não cobra nada por isso.  “Não é fácil. É sofrido. É difícil decidir tomar uma atitude. É difícil entender que o problema não é a gente”, diz. “Eu consegui com muita ajuda do abrigo, das psicólogas e fé em Deus. Eu acreditei”, emenda.

Mas nem tudo é um mar de rosas. O que ainda dói é o julgamento das pessoas. “Até hoje tem gente que não conhece a minha luta e me julga pelo que eu fiz aos 13 anos sem ao menos saber que eu era uma vítima.”

Como sair dessa?
Casos como o de Maria são mais comuns do que se se imagina. Boletim da Rede de Observatórios da Segurança mostra que uma mulher foi vítima de violência a cada quatro horas em 2022. No ano passado, 1.437 mulheres morreram vítimas de feminicídio no país, sendo 61,1% delas negras.

Em Franca, a situação não difere muito do resto país. Matéria veiculada pelo GCN/Sampi em outubro passado indicou que, no primeiro semestre de 2023, foram registrados aproximadamente 400 pedidos de medidas protetivas na cidade, um aumento significativo em relação aos 526 pedidos registrados durante todo o ano de 2022.

Mas como sair desse ciclo tão perverso? Em Franca há vários projetos que ajudam mulheres vítimas de violência doméstica e vulnerabilidade social. A começar pelo Cras (Centro de Referência de Assitência de Assistência Social), que faz encaminhamentos.

Outro, é o recém-criado Projeto Vira Girassol, idealizado para oferecer apoio e acolhimento, além de levar informações às mulheres em situação de vulnerabilidade social e econômica, incluindo as decorrentes das diferentes formas de violência doméstica, de gênero e intrafamiliar.

O projeto é independente e atende a todas as mulheres em situação de vulnerabilidade, não só as que estão em situação de violência doméstica, explica Juliana Oliveira de Moura, psicóloga e idealizadora do Vira Girassol junto com a companheira de luta Thalia Martins.

No local, as vítimas encontram acolhimento e orientações; apoio para os vulneráveis e seus familiares; informações para prevenir situações de risco; campanhas de arrecadação de alimentos, roupas, leite e produtos de higiene para as famílias em acompanhamento; oficinas para o fortalecimento de vínculos e oficinas e cursos para desenvolvimento pessoal e profissional.

Por que girassol? O girassol começa o dia sempre virado para o sol, no Leste. Conforme o dia vai passando, a planta acompanha o sol até o Oeste e, à noite, gira de volta para o Leste, recomeçando o ciclo. Ele sempre procura a luz. “É isso que buscamos, mesmo que você tenha passado um momento de escuridão, é preciso ser como um girassol e buscar a luz.”

Juliana afirma que não é fácil para a mulher buscar ajuda. “Isso só ocorre quando ela reconhece que está em uma relação abusiva. Por isso é tão importante falar sobre os sinais da violência, para que ela consiga entender e reconhecer. Só então conseguirá buscar pela rede de apoio.”

Já o Cram (Centro de Referência de Atendimento a Mulher) realiza trabalhos voltados diretamente às mulheres vítimas de violência doméstica. Tudo sob sigilo. Há acompanhamento psicológico, orientações jurídicas, atendimento psiquiátrico e articulação com rede e encaminhamentos para os serviços socioassistenciais do município de Franca.

Os números de mulheres atendidas pelo Cram são bastante significativos. Em 2023, foram acolhidas 466 mulheres, feitos 871 acompanhamentos, 177 monitoramentos e 49 atendimentos pontuais.

Dora Bittar, coordenadora geral do Cram, e por Patrícia Dupim, coordenadora, apesar do importante trabalho que realizam, lamentam o crescimento mês a mês do número de mulheres atendidas. Para se ter uma ideia, em janeiro do ano passado, eram 35. Em outubro, 72.

O maior tipo de violência atendido pelo Cram é a psicológica (345), seguida pela física (251). E na maioria dos casos elas são agredidas e/ou ameaçadas por seus companheiros ou ex companheiros.

Dora e Patrícia destacam que muitas mulheres chegam ao Cram sem o conhecimento de que vivem um ciclo de violência ou então não conseguem se desvincular por causa da dependência emocional ou financeira com o companheiro. “Um dos principais trabalhos do Cram, através do acompanhamento psicológico, é a conscientização e o fortalecimento das vítimas para o rompimento desse ciclo.”

Busque ajuda
> Cras (Centro de Assistência de Referência Social) – Franca
Av. Chico Júlio, 2726 - Jardim Integração
Funciona de segunda a sexta, das 8h às 17h
Telefone: (16) 3721-0209

> Cram - Centro de Referência de Atendimento a Mulher
Rua Voluntários da Franca, 2.557 - ao lado da DDM
Telefones: (16) 99754-8112 e (16) 3720-8446

> Projeto Vira Girassol
Telefone: (16): 9 9349-9741
@projetoviragirassol