11 de julho de 2026
VIRADA

Promessas de Ano-Novo: metas reais são caminho para não desistir

Por Giselle Hilário | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Divulgação
Karina Marcuci, psicóloga, explica que as resoluções irreais no ano-novo muitas vezes surgem da busca por mudanças significativas em curtos períodos

Emagrecer - ou engordar -, trabalhar menos, fazer mais atividade física, poupar, trocar o carro, comprar uma casa... A lista é inimaginável. O certo é que as resoluções de ano-novo fazem parte da agenda de nove entre dez brasileiros na última semana do ano.

Mas você sabia que boa parte das pessoas desiste delas pouco antes do Carnaval? Estudo do Statistic Brain Research Institute mostra que 50% das pessoas que fazem planos para o ano mudam de ideia já em janeiro, e 27% nem esperam a virada e já desistem das promessas no final de dezembro mesmo.

Os motivos? Objetivos irreais e falta de planejamento.

Esses foram exatamente os motivos da fisioterapeuta Milena Castilho. No fim de 2022, ela planejou trocar de carro. Só esqueceu de optar por um modelo que coubesse no seu orçamento mensal. Ela até comprou o veículo, mas teve de colocar à venda no meio do ano porque não conseguia pagar as parcelas do carro novo, da faculdade e o aluguel com o que recebia. Mesmo com o reajuste salarial da categoria, não deu. Frustrada, colocou o carro à venda.

“Hoje percebo que ter um carro novo era um objetivo totalmente irreal. Com a venda dele, investi num carro usado, em boas condições e quitado”, contou. “E aprendi a lição. Neste ano, ao invés de comprar um carro zero, optei por uma pós-graduação”, emendou.

A esteticista Mariana de Oliveira também aprendeu a duras penas, há alguns anos, que estabelecer metas irreais não é o melhor caminho. No caso dela, foi desastroso. Ela a assumiu a dívida de um financiamento habitacional porque queria sair da casa dos pais. “Deu muito ruim”, diz. “O que era uma birra por causa da briga com meu pai virou uma bola de neve. Fiquei sofrendo por meses. Não perdi mais porque consegui vender o apartamento e consegui quitar algumas dívidas. E no fim, tive de abaixar a cabeça e voltar para a casa dos meus pais.”

Mariana já não mora mais com os pais. Divide um apartamento com uma amiga de trabalho. Mas hoje tem objetivos mais concretos. “Ainda não desisti de ter o meu apê. Por isso, pago um consórcio habitacional que cabe no meu bolso”, comemora. “No mais, todo ano prometo fazer atividade física, me alimentar melhor e trabalhar menos. Coisas tão irreais para mim quanto comprar um apartamento à vista”, brinca.

Por que fazemos planos irreais?
O economista Reinaldo Cafeo afirma que a chegada de um novo ano é encarada por muitos como um novo ciclo. “Quando pensamos no que não foi realizado, vem à mente o propósito de recuperar o tempo perdido. E aí surgem as metas e resoluções irreais”, afirma.

Apesar disso, Cafeo afirma que sempre é salutar ter objetivos e metas, mesmo que nem todas sejam cumpridas. “Uma parte sempre será realizada.”

Mas como cumprir o que prometemos? Para Cafeo, fixando metas atingíveis. “Elas devem ser desafiadoras, mas atingíveis. Para que sejam realizadas, as pessoas precisam se preparar”, ensina

Se a meta envolve dinheiro, o economista afirma que é necessário projetar o orçamento familiar. Se a meta é de estudo, a pesquisa e as condições de ingresso devem ser previamente analisadas. Se a meta é física, como sair do sedentarismo, o cronograma é fundamental, inclusive travando agenda para isso. “Em resumo, devemos, sim, traçar metas e objetivos para o novo ano, mas eles devem ser a combinação de desafio e racionalidade para serem efetivas”, orienta Cafeo.

Expectativas muito elevadas
Para a psicóloga Karina Marcuci, as resoluções irreais no ano-novo muitas vezes surgem da busca por mudanças significativas em curtos períodos. “Isso ocorre devido à influência de expectativas elevadas, mídia e pressões sociais”, diz. “Metas muitas vezes carecem de um planejamento realista, focando mais no desejo imediato do que na elaboração de passos alcançáveis”, emenda.

Para quem quer encontrar um caminho para cumprir as resoluções de Ano-Novo, Karina Marcuci sugere a adoção de estratégias baseadas no real sentido e propósito de cada meta e o possível resultado. “Isso inclui estabelecer metas específicas e mensuráveis, criar um plano de ação detalhado, identificar obstáculos potenciais e desenvolver habilidades para enfrentá-los", diz. "Além disso, é fundamental promover uma mudança gradual de comportamento, cultivar a autocompaixão e ter um sistema de suporte, como amigos, família ou um profissional de saúde mental, para encorajar e manter o foco nas metas estabelecidas. Inclusive, talvez abrir espaço para autoconhecimento, fortalecido assim suas bases, aumentando a motivação, o autocontrole e a resolução de obstáculos inconscientes que podem impedir o progresso na realização dessas metas.”

É preciso olhar as realidades internas
O consultor organizacional e palestrante Davison de Lucas avalia que um dos motivos que fazem as pessoas estabelecerem metas irreais para o ano novo é que elas estão adormecidas e não percebem as realidades internas, bem como o que acontece de verdade ao seu redor.

“Poucas pessoas investem em autoconhecimento. Sem  conhecimento pleno de si, não se tem certeza dos seus reais talentos, bem como dos seus pontos fracos, pontos fortes, ameaças, oportunidades e de seu ‘departamento de desejo’, que, por sua vez, não é fácil controlar”, diz de Lucas. Além do mais, diz de Lucas, sem autoconhecimento não consegue-se ter disciplina adequada para realizar os planos de ação. “Em outras palavras, não tem autocontrole necessário. E pela lógica, sem autocontrole não se obtém autoconfiança.”

Davison de Lucas ainda avalia que parte da população não escreveu a sua razão de ser, a sua missão de vida. Portanto, fica sujeito a elaborar metas que não são suas, e sim baseadas em influências da família, das mídias e da sociedade. “Também, infelizmente, a maioria da população é prisioneira mental dos três receios: ficar para trás, faltar recursos e não ter atenção.”

Mas como fazer para cumprir as resoluções que fazemos no fim de ano, então? “Primeiramente, é preciso considerar que a velocidade das mudanças aumentarão e que traçar metas para um ano está virando algo de longo prazo. A sugestão é realizar balanço quadrimestralmente, no mínimo”, aponta e Lucas. Ele enumera alguns pontos:

Davison de Lucas cita como exemplo de sucesso Dailza Damas, a primeira nadadora brasileira a atravessar a nado o canal da Mancha, que persistiu visitando todos os dias um possível patrocinador, conseguindo atingir resultado somente depois de quatro anos e meio.  "Perante as ameaças, que naturalmente surgirão, aceitá-las, amortecê-las emocionalmente e transformá-las em oportunidades, uma vez que em nosso mundo relativo se tem problema, tem solução. Segundo o escritor Fecundo Cabral, não diga não posso nem brincando. Porque o inconsciente não entende o humor e o levará a sério e te lembrará disso a cada teu intento."

5 dicas para cumprir suas resoluções