10 de julho de 2026
ARTE E VIDA

De Franca, Ana Laura já ilustrou 22 livros infantis: 'era um sonho distante'

Por Karla Rodrigues | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
Ana Laura Alvarenga: autora e ilustradora de livros infantis

“Numa folha qualquer, eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas, é fácil fazer um castelo”. A infância da francana Ana Laura Alvarenga, 30, pode ser descrita assim como a música de Toquinho. Nessa brincadeira de transportar o real para a tela em branco, ainda pequena ela descobriu que a tinta tinha cheiro de felicidade.

Nas idas à casa da tia Ziza, até então a única artista da família, passava o dia desenhando, pintando e descobrindo novas formas de criar por meio de artesanato. “A casa dela tinha um monte de material artístico, e ela me incentivava a pintar”, diz Ana.

Já adulta, notou que queria ilustrar livros infantis durante o projeto de conclusão da graduação de Design Gráfico. Porém, pouco tempo após o final do curso, no ano de 2018, a vida de Ana tornou-se preto e branco ao descobrir um câncer na perna. “Um dia fui na esteira andar, minha panturrilha inchou. Fui para o vascular e ele disse que eu estava com trombose. Eu fiz a biópsia, e deu tumor malígno”.

Durante a jornada de quimioterapia e radioterapia, conheceu muitas pessoas especiais. Compartilhavam a mesma luta, mas também passaram a compartilhar momentos de diversão, de empatia e muito amor para tornar esse período tão delicado um pouco mais leve. Principalmente com Susu, a conexão entre as duas parecia de outras vidas.

Ana já estava no fim do tratamento quando o quadro de saúde da melhor amiga piorou. Susu não resistiu e morreu em 2019. Além dela, Ana perdeu mais três amigos, Andressa, Matheus e Jéssica. O baque de perder tantas pessoas queridas, a deixou entristecida. “Eu ficava só deitada, não fazia nada”, recorda.

Buscou na arte uma alternativa de amenizar a dor. Após alguns meses da morte de Susu, deixou Franca e se mudou para uma república em São Paulo, capital. Ana inscreveu-se em três cursos de desenho ao mesmo tempo. “Nos finais de semana, eu colocava minhas pinturas e os meus quadros na Avenida Paulista no chão para vender. Tudo para ocupar a minha cabeça”, lembra.

Porém, como não tinha um trabalho fixo, decidiu retornar à cidade natal pouco antes do início da pandemia. Quando as medidas protetivas contra a Covid-19 foram impostas, aproveitou para colocar em prática todo aprendizado com a técnica aquarela. “Comecei a postar muito no Instagram”, diz ela, até receber um convite inesperado. “Uma editora me chamou para poder fazer meu primeiro livro”.

Depois de terminar o trabalho do livro intitulado O Papagaio, mostrou à editora uma história escrita por ela. “Eles gostaram e disseram: ‘a gente quer publicar o seu texto com sua ilustração’”. foi assim que nasceu o livro Sr. Gentil. “Para mim, ser ilustradora era um sonho tão distante. Na hora que você vê impresso, dá um quentinho no coração”, comenta.

Um livro atraiu o outro. A escritora Ana Rapha Nunes conheceu o trabalho de Ana Laura e a convidou para ilustrar Ela Nasceu Clarice. “Ela procurou meu contato, não sei por onde, e me chamou pelo WhatsApp falando que tinha uma história, se eu queria fazer uma parceria. Eu aceitei”.

O desenho do livro baseado na vida de Clarice Lispector foi finalista na categoria conjunto de ilustrações pela AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil). Em apenas três anos, foram 22 livros infantis ilustrados e publicados.

Ana Laura retornou a São Paulo em fevereiro deste ano e pretende ampliar os horizontes. “Eu quero pintar o que sai de dentro, o que estiver sentindo, e fazer disso uma arte”, completa.