O que uma faxineira moradora de Pedregulho poderia ter em comum com o apresentador Fausto Silva? Ambos estão esperando na fila nacional de transplante de órgãos.
Recentemente, as redes sociais e a mídia brasileira foram tomadas pelas notícias de que o apresentador Fausto Silva, o Faustão, teve um agravamento em seu estado de saúde. Um comunicado médico emitido pelo hospital privado onde está sob cuidados revelou que sua condição de insuficiência cardíaca piorou, levando à recomendação de um transplante cardíaco como tratamento mais apropriado para sua situação clínica.
A equipe médica que acompanha Faustão esclareceu que ele foi incluído na lista de espera por transplante, considerando critérios como o tempo de espera, compatibilidade sanguínea e gravidade do caso.
Como Faustão, a faxineira Maria Cleusa Rodrigues Martins, de 46 anos, está na fila única do SUS, aguardando um órgão compatível - no caso dela, um rim. Casada e com quatro filhos, há oito anos, ela foi diagnosticada com hipertensão e cálculo renal. Há oito meses, ela precisou iniciar a hemodiálise e, na ocasião, seu nome - como o de milhares de brasileiros - entrou na fila brasileira de transplante de órgãos.
Maria necessita de um transplante de rins e vive com uma rotina de hemodiálise três vezes por semana, quatro horas em cada dia. “A rotina que eu tenho hoje, não desejo para ninguém. Todo o tratamento é cansativo. Vivo na esperança de conseguir um rim novo, de que as pessoas tenham consciência de que doar órgãos é um ato de amor e de salva vidas”, disse Maria.
A morte e a abordagem para doação de órgãos
Nanci Dias é enfermeira e trabalha na Comissão de Transplante da Santa Casa de Franca desde 2013. “Faço parte de uma equipe multidisciplinar que atua na comissão de transplante em Franca, já tivemos que presenciar e acompanhar o sofrimento de um pai, uma mãe, filhos, avós, que perdem seus entes queridos, geralmente ocasionado por mortes trágicas e repentinas”, disse Nanci.
Mesmo lidando com o momento de uma morte, a enfermeira diz que esse é um assunto que eles evitam. “No geral, ninguém está preparado para vivenciar a morte, não é mesmo? Evitamos falar da morte porque ela nos traz sentimentos ruins. E ao mesmo tempo, em meio a todo sofrimento da família, temos que colocar para eles a possibilidade da doação de órgãos daquele que partiu. Mostrar que no meio daquela dor, há vida”, explicou.
Esta não é uma tarefa fácil, o momento de abordagem da família que perde alguém é delicado, sensível e complexo. “A entrevista familiar para a doação de órgãos é a parte mais difícil de todo o processo. A família naquele momento está frágil, vulnerável, sofrendo muito. Muitas delas sem condições psicológicas de pensar na doação de órgãos. Diante da morte, o sofrimento é tão grande, que o mais natural é as pessoas se fecharem na própria dor e aí além de fazer nosso papel, de acolher, de apoiar essas famílias, vêm para nós a grande responsabilidade de informar que, se for da vontade delas, os órgãos daquele ente familiar que partiu poderão sobreviver em outros corpos, dando vida a outras pessoas que estão na fila esperando por um transplante de órgãos e por uma nova chance para continuarem vivendo”, destacou a enfermeira.
Segundo ela, no momento da entrevista familiar, são despertados sentimentos de respeito e empatia. “Nos colocamos no lugar das famílias. Por outro lado, quando as famílias optam pela doação, compreendendo todo o bem que podem fazer através dessa ação, sentimos gratidão. Gratidão por essas pessoas que, mesmo num momento de dor imensa, ainda se permitem um gesto de solidariedade. Sentimentos também de alegria por aquelas pessoas que nem conhecemos, que nesse momento irão receber um telefonema dizendo: ‘Oha, tivemos uma doação e o doador é compatível, vai ser possível você realizar o transplante’. Eu tenho certeza de que esses receptores, assim como nós, irão sentir muita gratidão por essas famílias que permitiram que seu ente familiar pudesse ajudar alguém”, disse.
Nanci relembrou um dos vários casos que a marcaram nesses 10 anos de trabalho. Foi o caso de uma criança de 7 anos que teve morte encefálica. Durante todo o processo, como é normal, muito sofrimento dos familiares e também da equipe que estava cuidando da criança.
“Em toda a nossa formação profissional, somos capacitados para salvar, e a morte, principalmente de crianças, sempre nos sensibiliza muito. A morte encefálica foi confirmada e, na entrevista, os familiares optaram pelo sim. Durante o tempo da cirurgia de retirada dos órgãos, o pai permaneceu o tempo todo na sala de espera do centro cirúrgico. Olhando para ele, ali sentado, tão sofrido, tão calado, sem aceitar nada para comer, eu pensava: ‘Deus ampare esse pai, essa família! Dê a força necessária para eles nesse momento’. A família morava fora de Franca e quando a cirurgia acabou, a funerária chegou para remover o corpo. Desci com o pai para a recepção central e esperei com ele na saída da Santa Casa, enquanto o funcionário da funerária foi buscar o corpo. A última imagem que tive daquele dia cheio de emoções foi do pai no banco traseiro do carro funerário, tendo ao lado o filho, que ao invés de ir no colo, foi deitado em um caixãozinho todo branco. Meu Deus! Que gratidão por esse pai, por essa família, por esse pequeno doador! Um anjo que permitiu que outras crianças pudessem sobreviver! Vários órgãos foram captados, inclusive coração e pulmões. Ele vive em outros corpos e outras vidas”, se emociona a enfermeira, que exemplifica que por mais que o momento do sim seja doloroso, ele pode ser como “encontrar um pouco de vida no momento da morte”, finaliza.
Um sim fez Laurinha continuar viva
O acidente com Laura Cunha Costa, carinhosamente chamada por “Laurinha”, no dia 28 de junho de 2022, quando ela estava cavalgando com o pai, Reginaldo Costa, no Clube Hípico de Ribeirão Corrente e acabou caindo do animal, poderia ser mais uma história de tragédia. Cinco dias depois do acidente, a equipe médica atestou a morte cerebral de Laura. Prontamente, sua família foi abordada pela equipe da Comissão de Transplante de órgãos.
A atitude de Solange Cunha, 43 anos, e seu marido no meio da dor, significou muito para várias famílias: eles disseram sim. “A comissão de transplante teve muita cautela e clareza na abordagem. E imediatamente, eu e meu esposo respondemos que gostaríamos de fazer a doação de órgãos. Eu ainda não sabia detalhes sobre o processo da doação. Mas assim que soube da morte cerebral da nossa Laurinha, nós dois já conversamos sobre a doação. Justamente pensando na oportunidade de salvar a vida de outras crianças”, disse a professora, que perdeu sua filha aos 7 anos.
Segundo ela, essa foi uma forma de homenagear sua filha e trazer alívio para outras tantas mães. “Laurinha gostava muito de ajudar o próximo, dividia o que tinha, deixava de fazer pra ela para fazer para o outro. E o fato de saber que ela conseguiu salvar vidas é significativo e gratificante! Além disso, levou alívio para o coração de outras mães. Mesmo diante de tamanha dor, decidimos fazer a doação pela alegria de outras mães continuarem com seus filhos aqui, já que para nós, isso não seria mais possível. Minha filha foi tão especial aqui que continua existindo em outras pessoas, alegrando outras mães”, destacou Solange.
Como funciona a fila de doação de órgãos?
O caso de Faustão trouxe à tona dois princípios fundamentais do Sistema Único de Saúde (SUS): o princípio de igualdade no acesso aos serviços de saúde (artigo 196 da Constituição Federal) e a proibição do comércio de órgãos, tecidos e substâncias humanas no país (artigo 199, § 4º).
De acordo com dados da ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos), atualmente mais de 65 mil pessoas estão na fila do transplante de órgãos no país. O rim é o órgão de maior procura, com 36.960 pessoas na fila de espera; seguido das córneas, com 25.685 pessoas; fígado, com 2.253 pessoas; pâncreas/rins, com 392 pessoas; e coração, com 386 pessoas. Pegando como exemplo o transplante de coração, em São Paulo esse ano, 214 pessoas entraram na fila de espera. Até então, 43 pessoas já morreram na fila.
A Central de Transplantes do Estado de São Paulo informou que, até o final de julho de 2023, no estado paulista, 20,8 mil pacientes aguardavam por doação de órgãos. As maiores demandas são por rim, córnea e fígado, com lista de espera de 16,2 mil, 3,7 mil e 462 pacientes, respectivamente.
Como funciona o trabalho de divulgação?
A Comissão de Transplantes da Santa Casa de Franca, desde a sua instituição, tem experimentado diversas ações e projetos que inovam a prática de captação de órgãos e tecidos em busca de resultados efetivos. Entre estes, se destacam os trabalhos de sensibilização interna e externa voltados para os colaboradores do Grupo Santa Casa e para a sociedade civil.
A conscientização e sensibilização são realizadas de forma contínua no âmbito hospitalar e de forma gradual nos grupos da comunidade, tendo como finalidade contribuir para a formação de opinião, por meio da realização de oficinas, palestras, campanhas e outros meios de divulgação, porém, a recusa familiar hoje ainda chega a 50%.
Como as pessoas podem fazer para garantir a sua vontade de realizar a doação de órgãos?
No Brasil, para ser doador de órgãos e tecidos, não é necessário deixar nada por escrito. Basta avisar sua família dizendo “quero ser doador de órgãos”. A doação de órgãos e tecidos só acontece após a autorização familiar documentada.
No caso da morte encefálica (morte cerebral), um protocolo é aberto para a investigação e confirmação da morte. Se confirmada, a família é comunicada do óbito e da possibilidade da doação dos órgãos do seu ente familiar. Se a resposta for positiva para a doação, este doador é sinalizado pela Comissão de Transplantes à OPO (Organização de Procura de Órgãos), em Ribeirão Preto, e ao SET (Sistema Estadual de Transplantes), em São Paulo.
A partir daí, inicia-se uma série de exames para comprovação da qualidade dos órgãos e também a convocação de receptores compatíveis para receberem os órgãos doados. As cirurgias de retirada dos órgãos são realizadas na Santa Casa.
“Recebemos equipes médicas de várias localidades e hospitais de referência como, por exemplo, do hospital Albert Einstein, do Incor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP). Lembrando que, cada órgão é captado por uma equipe especializada diferente, daí a atuação de várias equipes médicas de cirurgiões no processo de doação de órgãos”, exemplificou Nanci.