Uma conquista muito especial, diz a artista francana Dada Scáthach, 24 anos. Primeira pessoa na cidade a realizar a alteração no registro civil, Dada mudou seu nome, pronome e sexo. Antes, enfrentando os dogmas da sociedade, sendo encaixada no formato “masculino”, agora é símbolo em Franca pelo feito em meio à comunidade LGBT+.
“Para mim, a busca por esse entendimento é uma constante, e a cada dia descubro mais sobre quem sou”, disse Dada sobre o autoconhecimento que desenvolveu. “Afinal, mesmo antes de nascer fui 'assujeitada' ao comportamento do gênero masculino, e enquanto uma criança, já não me identificava ao todo com ele” relata.
Hoje Scáthach diz que analisa todos os encontros com o “espectro” que trouxe ela a ser quem é. “Fiz as pazes com meu eu ‘Gustavo’ para poder seguir em frente e abrir novas portas”, explicou, além de relatar que somente após se permitir experimentar aspectos além do que se era esperado, pode ter certeza de que não se via como homem ou mulher.
“Meu armário sempre foi uma vitrine”
Segundo ela, é preciso ter coragem para enfrentar sua própria existência, uma luta constante, diante a exclusões de círculos sociais, como igreja, escola e até mesmo dentro da própria família. Sem aceitação pelos grupos, a exclusão social causou uma dúvida, se suas opiniões e valores não valiam tanto quanto as das outras pessoas.
Mas sua insistência, coragem e sede por ser quem é prevaleceu e prevalece até hoje. Em momentos se viu sozinha, mas mesmo com as tentativas de invalidações de quem estava em sua volta, enfrentou. “Demorou algum tempo para que eu mesma tivesse coragem de quebrar esse vidro e fazer as pessoas me enxergarem e darem atenção as minhas questões”.
“Com o tempo, aprendi que não preciso da aceitação de ninguém para ser e que também tenho o direito de sentir e falar sobre meus sentimentos” explicou Dada – “achei que a ideia de não pertencer a nenhum dos dois gêneros caminhava com o que eu sempre havia sentido.”
A mudança, uma pessoa não binária
De acordo com a definição do Google, a pessoa com identidade não binária “é um termo guarda-chuva para identidades de gênero que não são estritamente masculinas ou femininas, estando fora do binário de gênero”.
Para Dada, segurar sua “nova certidão de nascimento” é gesto que incentiva mais que uma só pessoa. “Depois de uma batalha que durou a minha vida inteira, foi como um autoabraço. Pensei comigo ‘você conseguiu!’. É um incentivo para que todas as pessoas enxerguem os avanços sociais das inúmeras causas trans no Brasil, e exijam o reconhecimento de cada uma delas” disse.
O processo na Justiça foi minucioso e tranquilo, mas exigiu diversas documentações específicas, como Certidão Negativa de Antecedentes Criminais, Certidão Negativa de Débitos Estaduais, Municipais, Federais de todos os lugares onde Dada morou, disse a advogada Maria Laura Ribeiro Mendonça, profissional que acompanhou o processo.
O processo de mudança foi protocolado no dia 5 de julho de 2022. O juiz pediu uma explicação de como Dada se identificava. “(Dada) Já não possui nenhuma dúvida quanto ao sentimento subjetivo pertinente da própria identidade de gênero, que ocorre desde a adolescência. Os flyers contendo seu nome artístico também ajudaram a embasar o pedido, pois ela já era reconhecida por tal”, disse a advogada.
“Mostramos a evolução social que aconteceu no próprio Direito até chegarmos a luz de conseguir alterar o prenome e o sexo em sua certidão de nascimento” explicou Maria Laura.
Um pouco mais sobre Dada Scáthach
Scáthach é uma artista multimídia de 22 anos que nasceu em Franca e hoje vive em Belo Horizonte (MG). Ela se formou em artes plásticas pela Escola Guignard, uma universidade estadual que fica na capital mineira.
Junto de artistas do Brasil inteiro, a artista plástica francana Dada Scáthach participou da abertura da 30ª MAJ (Mostra de Arte da Juventude), no Sesc Consolação, em São Paulo. A mostra ficou disponível do dia 23 de outubro de 2022 até 3 de março de 2023.
No evento, Dada já discutia sua identidade, expressando pela dança contemporânea e objetos que faziam referência ao seu pai, cujo era o objetivo da mostra – a história que ilustraria “toda a dor que ele já passou na vida”.
Com o processo finalizado, a nova certidão em mãos e um futuro pela frente, Dada deixa um questionamento: “A graça surge da indagação. Você já se perguntou se é realmente um homem ou uma mulher? E o que esses papéis, de fato, representam para você e para o mundo?”