Nesse artigo, opino sobre prestígio e vaidade no mundo das Letras. São as palavras que criam o mundo desde que Deus disse haja luz. É outono, no horizonte da História um inverno crepuscular pode estar perto. Em maio há eleições na AFL, nossa Academia Francana de Letras abre acesso ao panteão da imortalidade para aspirantes à eternidade ilusória, refugo do prestígio e da vaidade.
Das funções primordiais de uma academia de Letras como a francana, preservar a memória e as obras da literatura local é um ponto; desenvolver atividades de incentivo à leitura valorizando a cultura literária da cidade é outro ponto; promover a interação com todos os segmentos da sociedade para se tornar referência quando o tema é Literatura é mais um ponto.
Nesta eleição de maio, fica evidente a importância e representatividade política que tem a cadeira 9 cujo patrono Abdias do Nascimento - homem preto escritor intelectual militante engajado nas questões sociais do seu tempo. Não basta o que a História tirou dos afrodescendentes, ainda há quem sem noção se coloque no lugar de quem possa melhor representar o colosso que simboliza a cadeira 9 e o monumental Abdias.
As candidaturas nesse pleito são legitimas, tendo por base o Estatuto da AFL em cujo artigo 7º constam critérios objetivos que devem orientar o voto dos Acadêmicos: somente podem ser eleitos candidatos e candidatas que sejam radicados em Franca e tenham publicado obra ou textos literários de reconhecido mérito, inclusive relacionados à História, ao Jornalismo ou ao Direito. Então, que necessidade haveria de tornar público assunto que, à primeira vista, é de fórum particular entre imortais?
O debate intelectual & estético na produção Literatura também é ofício político no sentido mais amplo da palavra. Se deixar levar pelas aparências de boa educação e laços de amizade torna uma academia só mais um clube, desinfectado limpo sem vida, sem aquelas palavras que Deus teria dito uma vez que estavam escritas; haja lugar de fala para quem representar Abdias do Nascimento.
Abro o debate para incomodar quem acha que “falar de racismo é chatice” ou “que somos todos iguais” esquecendo-se de que somos iguais sendo diferentes. Não tornar o debate público só esconde o racismo em nós.
Minha manifestação aqui não é sobre o voto das candidaturas à cadeira 9, legítimas como já inferi, e cada membro da AFL votará segundo seus próprios critérios numa votação secreta. O meu posicionamento é sobre a necessidade de haver debate, dentro e fora da Academia Franca de Letras.
Qual é sua opinião sobre o assunto? Existe racismo na Literatura? Talvez você leitor e leitora queiram saber mais sobre Abdias do Nascimento e os candidatos e candidatas a representar esse patrono de importância singular, se for o caso então fique atento e pesquise: ler as fontes é sempre a melhor informação.
Como diz o poeta Carlos de Assumpção: não pararemos de gritar.
Baltazar Gonçalves é historiador, escritor e membro da AFL