Não se sinta constrangido ou constrangida com esse meu “bom dia pessoas tóxicas de toda natureza e gênero”, estou aqui para provocar alguma reflexão desenhando certas linhas da poesia. Então não fume nem cheire porque esse vício pode matar tanto quando a hipocrisia: cuidado quando andar na linha, já disseram que o trem pega. Mas ser gente fora da curva também é arriscado, o nosso Guimarães Rosa já tinha dito isso de um jeito diferente só dele.
O hábito-prática até faz o monge o atleta o escritor, mas é preciso reconhecer a centelha dentro para soprar e acender. Ascender é outra palavra. Evoluir não é uma jornada "para o alto, para o sublime, para o 'tornar-se uma pessoa boa'; antes, ascender é admitir nossa humanidade com todas as limitações para aceitar e nem sempre superar. Seja realista quando puder, honesto sempre. Transitar e transgredir amorosamente: há de ser tudo da lei.
À primeira luz da manhã, um poema: os tons de Drummond na morte do leiteiro, há muita poesia na paleta fosforescente da aurora, quem acorda mais cedo tem mais tempo limpo, se beber da fonte deixa água limpa pra quem vem sedento, o branco do leite fortalece os ossos dos trabalhadores, o sangue de todos não será suficiente para a burguesia sonolenta, na mistura suor-esperança moramos, também namoramos, também escrevemos, também compartilhamos de graça o que recebemos de graça, embora tudo para o sistema tenha preço o meu amor é livre de fronteiras alfândegas e jurisprudência.
Sou pessoa do tipo Pessoa, penso com os olhos ouvidos mãos pés nariz e boca. Pensar uma flor é ver a cor da flor e sentir o cheiro dela; pensar você e morrer de amor por um minuto ressurge em mim pensamento novo. Porque também sou um guardador de rebanhos: o rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações.
Gosto de imensos espaços urbanos vazios, existe uma dimensão sagrada no vazio. Às vezes é possível captar o indizível mesmo envolvido nos ruídos comuns da urbe, melhor se der para afastar-se. Os subúrbios são ilhas de concreto entre pequenas matas que florescem, longe dos centros. De ponta a ponta, círculo a metrópoles em busca da ausência sagrada do vazio. Sinto-me parte e único, indivíduo coletivo cuja singularidade custa caro: um zero perfeitamente oco, infinitamente significante.
Desista dos seus sonhos, eles podem ser obsessões. Ou pior: sonhos de outras pessoas que você herdou e não te pertence, um fardo muito pesado. Se for o caso, desapegue. Eu moro longe-tão longe de qualquer centro que basta uma pernada e chego em qualquer parte num instante, se eu quiser chegar. Sobre mudar isso ou aquilo, acho que seja assim: você sabe que precisa desapegar de pessoas lugares e coisas, mas ainda parece que tudo cabe onde você já é outro. Desapego deixa leve, e mais fácil. Quanto menos, melhor. Só na alma cabe tudo, e mesmo assim só o que transmuta.
E pra terminar ainda falando em transmutação, Amor é por excelência o sentimento que se transmuta em Bandeira: pra quem não sabe ver: envelheço perdendo juízo / saber teu nome é privilégio / se te esperei por toda vida / suspeitando que chegaria (...) o tempo certo das coisas / é quando acontecer se dá / do jeito que veio, se ficar / fique mais como chegou (...) gosto e falo, dou bandeira / se não motiva, saio antes / fim de festa para bêbados / madrugada para amantes (...) a linha curva do seu rosto / nas linhas da minha mão / destino do gostar é amor / isto traduzido sem noção (...) um brinde à nossa bebedeira sóbria / existe alegria sustentável? / esse nosso ficar quietinho / doce sorriso luz metálico / se deixa vai, que te faço feliz / vem contar-me histórias / e navega no meu poema / que à meio caminho do sono / beberei toda sua poesia.