Idas e voltas ao pronto-socorro. Noites sem dormir. Falta de estrutura adequada. Sentimento de impotência misturado com revolta. A Saúde para os pacientes de Franca, quando se trata de média e alta complexidade, respira por aparelhos: 34 pessoas aguardavam vagas em hospitais públicos da região neste sábado, 11, “internadas” em leitos em prontos-socorros ou UPAs da cidade.
O cenário de falta de estrutura e longas esperas nos prontos-socorros é uma realidade que vem se repetindo na cidade. Quatro pessoas aguardavam na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Anita, cinco crianças no Pronto-socorro Infantil “Dr. Magid Bachur Filho”, seis na UPA do Jardim Aeroporto e 19 no Pronto-socorro Adulto “Dr. Álvaro Azzuz”.
Os números elevados se mantiveram durante os primeiros dias de março, com 44 pacientes aguardando transferência no domingo passado, dia 5, e 43 registrados na última quinta-feira, 9, além de 38 nesta sexta-feira, 10.
O prefeito Alexandre Ferreira (MDB) admite a situação grave. Em entrevista ao programa A Hora É Essa!, da rádio Difusora, na última sexta, disse que a capacidade máxima da rede municipal de saúde é manter internados, de forma improvisada, já que esta não é a função de UPAs e de PSs, de 60 a 65 pessoas, no máximo, número próximo ao que registrado durante a fase aguda da pandemia do coronavírus e não muito distante do que acontece agora.
Quem decide onde internar os pacientes é o governo do Estado, parte da forma como o SUS é estruturado. A referência é a Santa Casa, que diz operar no limite e aponta a necessidade de mais dinheiro para estruturar leitos adicionais, o que demanda, além de recursos, também tempo. Quando não há vaga lá, caberia ao Estado encontrar espaço em outros hospitais da região ou de outras regiões do Estado.
“Eu levo os pacientes onde eles (o governo do Estado) destinarem vaga. Eu levo o paciente com segurança, sem problema algum", disse o prefeito. Mas isso, na prática, não tem acontecido. O governo do Estado fica à espera de liberação de vagas na própria Santa Casa, o que só acontece com a alta – ou o óbito – de algum paciente que já está lá. Enquanto isso, quem precisa internar espera nas unidades do município como as UPAs e PSs. “A gente tem essa capacidade. Não é o ideal, não é o certo e não é a função do pronto-socorro, mas numa condição extraordinária a gente consegue dar suporte para essas pessoas", disse o prefeito.
Luta por vaga
O portal GCN tem acompanhado semanalmente histórias de famílias lutando por vaga, como a da pequena Sofia Lopes Almeida, de dois meses, que ficou cinco dias no Pronto-socorro Infantil até conseguir transferência. Com a filha sofrendo de bronquiolite e os sintomas se agravando pela espera, a mãe Fabiana Faria Lopes, de 25 anos, chegou a registrar um boletim de ocorrência. Após ajuda da médica, a sonhada notícia chegou na tarde da última quinta. “Alívio por ter conseguido a vaga dela”, comemorou a mãe.
Enquanto isso, as obras do Hospital Estadual de Franca, sonho para desafogar o sistema de saúde da região, estão apenas começando. Com 200 leitos previstos, 40 deles UTI, o Hospital Estadual de Franca está orçado em R$ 230 milhões. "As obras estão em andamento. Já começou a fazer a fundação, cercou tudo, colocaram placa", finaliza Alexandre. Franca é a única sede de região administrativa do Estado de São Paulo a não ter um hospital estadual ou unidade semelhante, dependendo 100% da Santa Casa de Franca para os atendimentos de média e alta complexidade.
Apesar do otimismo, a realidade não permite que se espere a solução definitiva, já que se não houver nenhum contratempo nas obras do hospital, é pouco crível que ele entre em operação antes de um prazo de pelo menos três anos. Até lá, ou o Estado amplia a capacidade da Santa Casa ou viabiliza vagas nos hospitais filantrópicos da região ou na rede particular de Franca. Sem uma dessas alternativas, histórias como a do bebê Sofia Lopes Almeida vão continuar a se repetir, em volume cada vez maior, e com gravidade idem.