19 de março de 2026
NOSSAS LETRAS

À mesa, memórias

Por Luzia Izete da Silva | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

Ora, ora, como vou escrever sobre esse livro de Sonia Machiavelli, Prosa à Mesa?

De repente me peguei lendo como se estivesse num remanso de rio, num balanço à sombra de um dia fresco, de vento sul a soprar lembranças e folhas ao ar. Leio sem marcações, saboreando desde a primeira página, que já me pegou pelo encantamento, e encantados não pensamos mais em nada. É ao mágico que nos apegamos. No caso de Prosa à Mesa, é à memória que ele nos prende. A lembrança e a saudade nos inundam em muitas páginas.

Uma escrita fluida como água na palma da mão, a lembrar Drummond, vejo a autora mergulhada nas palavras de jeito que não há como desviarmos os olhos. E viajamos juntos. Essa é a mágica conseguida pela escritora, onde nos vemos no nosso passado comum, nossas raízes ali revisitadas, cavando nossas memórias, nós, os mais velhos, os mais antigos na arte de lembrar, a sentir aromas no ar, a lembrar pessoas que já se foram...

O porco na lata feriu-me em memórias fartas de saudades da minha infância: a lata no canto do armário sem portas, o cheiro ao ser destampada por minha mãe, o gosto único como única é a nossa vida...os tempos que, segmentados, guardamos para sempre um cheiro, um gosto na boca.

O tempo e a tecnologia se encarregaram de mudar tudo. O medo que senti, aos doze anos, ao ver a chama do gás na luz azul como um céu num dia gelado de inverno, o triste horror de não sentir mais o cheiro da comida feita sobre fumaça e brasas, a partir dali tudo mudaria e daria lugar a uma nova fase da vida, o tempo da memória - agora sei. Memórias que agora cheias de lembranças e saudades pego-me lendo este livro sobre a culinária de um lugar específico deste Brasil, levando-me a um recorte sensorial...Como devo explicar isso?

Quem ler este livro saberá a resposta. Ao milho, criado pelo deus asteca Centeotl, à mandioca, rico carboidrato complexo, dádiva de Tupã aos humanos da América do Sul, aos alimentos outros e aos gostos inconfundíveis trazidos pelos africanos soma-se o legado tardio dos italianos – justiça seja feita.

Nossa culinária é tudo isso e muito mais. É assim que posso falar desse livro historiográfico, visto que mapeia, contextualiza e justifica a história de um prato. Evocativo, pois traz à tona aromas, gostos, preparos, saudades... e memórias.