Olho no espelho/ E não me vejo/ Não sou eu/ quem lá está é o prólogo do poema Eclipse, escrito pelo poeta Carlos de Assumpção, transformado em música pelo cantor Péricles. O ato foi uma homenagem do cantor para o autor nesta sexta-feira, 18, junto com um minidocumentário para prestigiar especialmente o Dia da Consciência Negra.
O “poeta invisível”, como é conhecido Carlos de Assumpção, tem 95 anos, é neto de escravos e um dos maiores ativistas da cultura negra brasileira. O poeta, professor do ensino fundamental, advogado e doutor honoris causa pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), nasceu em 1927 no município de Tietê (SP) e vive desde 1969 em Franca.
A música e o minidocumentário são resultado de uma viagem de Péricles a Franca para conhecer pessoalmente o poeta, que o recebeu na Casa da Cultura de Franca, no espaço onde ocupa o Memorial Carlos de Assumpção. Lá realizaram um bate-papo emocionante cheio de cultura e boas histórias.
A música, no "Lyric Vídeo", e o minidocumentário já estão disponíveis para dar o play em todas as plataformas de streaming e principalmente no YouTube.
Carlos de Assumpção
Poeta, professor e uma imensidão de títulos, Carlos de Assumpção foi pioneiro da literatura afro-brasileira, atualmente um dos últimos elos vivos ligados à escravidão. Foi criado com as histórias da escravidão, contadas por seu avô e beneficiário da lei do ventre livre. Sua obra transpõe em linhas, versos e prosas a realidade dos negros no Brasil na época. Ainda com tanta bagagem e obras com tamanha importância, é considerado o “poeta invisível”, por não receber o devido reconhecimento.
“A história de um homem extraordinário como a do Carlos de Assumpção era para ser conhecida por todos nós, brasileiros. Era para ser ensinada nas escolas, assim como é feito com outros autores igualmente importantes para a história do nosso país", declara Péricles. "Espero que através dessa homenagem, seus poemas ecoem pelos quatro cantos do Brasil e as pessoas descubram essa joia, essa raridade chamada Carlos de Assumpção. Foi emocionante ter a oportunidade de musicar um dos seus poemas”.
Letra da música Eclipse, poema de Carlos de Assumpção, cantado por Péricles:
Olho no espelho
E não me vejo
Não sou eu
Quem lá está
Senhores
Onde estão os meus tambores
Onde estão meus orixás
Onde Olorum
Onde o meu modo de viver
Onde as minhas asas negras e belas
Com que costumava voar
Olho no espelho
E não me vejo
Não sou eu
Quem lá está
Senhores
Quero de volta
Os meus tambores
Quero de volta
Os meus orixás
Quero de volta
Meu Pai Olorum
Em seu esplendor sem par
Quero de volta
O meu modo de viver
Quero de volta
As minhas asas negras e belas
Com que costumava voar
Olho no espelho
E não me vejo
Não sou eu
Quem lá está
Séculos de destruição
Sobre os ombros cansados
Estou eu a carregar
Confuso sem norte sem rumo
Perdido de mim mesmo
Aqui neste lado do mar
Um dia no entanto senhores
Eu hei de me reencontrar