Em 1859, aos 50 anos, o naturalista inglês Charles Darwin, já reconhecido por seu trabalho científico, publicou em Londres o livro "A origem das espécies". A primeira edição, de 1250 exemplares, esgotou-se no mesmo dia. O livro seria um marco na história da Biologia. Estava destinado a causar uma revolução nos conceitos de todas as ciências ao atestar a evolução dos seres vivos. Na cultura religiosa cristã, onde segundo o Gênesis o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, a tese de Darwin enfrentou espanto e reservas. Embora a ideia tivesse sido aventada por contemporâneos, nenhum cientista conseguira provar com a precisão do inglês o mecanismo que tornava possível a seleção natural. Na luta pela sobrevivência no planeta, os seres sofriam modificações diversas e não eram os mais fortes que sobreviviam, mas sim os mais aptos. Darwin colhera centenas de provas disso desde que, ainda muito jovem, havia participado de missão científica a bordo do navio Beagle, navegando por cinco anos por diversas regiões do planeta, inclusive a América Latina. No Brasil, ele e outros cientistas permaneceram alguns dias. Mas essa é outra história.
Neste mesmo ano de 1859, nascia no outro lado do Canal da Mancha, numa família de judeus emigrados da Irlanda, Henry Bergson. Criança superdotada tornou-se leitor voraz quando adolescente e ainda bem jovem leu “A origem das espécies”. Ficou impressionado. Mais tarde, doutor em filosofia, levava às suas aulas dezenas de jovens entusiasmados com sua interpretação do Tempo. Ele justapunha ao cronológico, chave da ideia darwiniana, outro tipo, não mensurado pela sucessão dos fatos, o psicológico. Também discorria sobre a diferença entre o pensamento científico e o filosófico. O limite da inteligência estaria em constatar o que acontece, como o fizera Darwin em suas pesquisas e descobertas, alinhavando períodos de evolução. O domínio do cientista era a matéria, mas o do filósofo era a intuição, um tipo de simpatia intelectual aproximada do senso artístico: “O Tempo se transforma no interior de um objeto para coincidir com o que tem de único e, em consequência, inefável.” Bergson coloca luz no campo da duração do tempo, que pode ser longo no sofrimento e fugaz na alegria, ainda que o relógio marque para o sujeito os mesmos 60 minutos. Darwin mostrou que tinham sido necessários milhões de anos para que os seres vivos chegassem ao que eram. Bergson fundou uma teoria com base na percepção de que a vida não está constituída de segmentos estanques e sim de momentos contínuos. Tudo se movimenta mudando na direção do desaparecimento: “Vivemos para morrer”.
Como Darwin e Bergson, o parisiense Marcel Proust nasceu numa família de classe média alta. Criança tímida, também grande leitor, foi influenciado pela teoria da Evolução de Darwin e pela noção de Tempo de Bergson. Seu longo romance “Em busca do tempo perdido” é uma versão literária desses dois tempos, na medida em que nos sete volumes que o compõem o leitor tanto é apresentado a quatro gerações de aristocratas, como também é levado, pelas sensações do autor-narrador Marcel, a qualificar o tempo do protagonista afetado por diferentes emoções. O cientista Darwin nos fala de quantidade; o filósofo Bergson, de qualidade; o escritor Proust, dos efeitos desses dois Tempos sobre o ser humano, quer no corpo físico que se desgasta, quer no campo das emoções que são fugazes.
Proust morreu há cem anos, no dia 18 de novembro de 1922, aos 50. Estamos no mês em que proustianos do mundo inteiro falam ainda mais de sua obra e publicam livros sobre ele. Um dos títulos lançados recentemente é “Proust e as Artes”, do professor brasileiro Roberto Machado. Ele se debruçou sobre o tema por dez anos e resgatou, entre os personagens, três que são simbólicos: o escritor Bergotte, o pintor Elstir, o compositor Vinteuil. Na análise que faz deles, o crítico introduz, o que é inevitável em se tratando de Proust, a questão do Tempo, comentando o recorrente lamento do narrador pela sua inexorável passagem e o impossível ato de congelá-lo.
Como Machado, outros já abordaram o papel das Artes e do Tempo na obra do gênio francês. Alguns já escreveram a respeito das preferências culinárias do narrador e de vários personagens, um deles o Barão de Charlus. Mas ainda nada li sobre a massiva presença das flores nas páginas desse que é considerado um dos dez maiores romances do século XX. Da sebe de pilriteiros floridos da infância em Combray, até as catleias que ornavam os decotes de Odette de Crécy nos salões parisienses, o leque abre-se vasto não apenas como item de decoração, mas sobretudo como índice de emoções que incidiram sobre o narrador, alter ego do autor. Por isso estou tentada a escrever a respeito.
Como já não faço planos a longo prazo, pretendo ir por partes e começar pelo primeiro volume: “No caminho de Swann”. Eleger um interesse é estimulante para continuar a viver e não apenas sobreviver.