Jovem, professor e assumidamente LGBT, Guilherme Cortez (PSOL) representou a única candidatura de esquerda nas eleições de Franca. Apesar de não planejar, a campanha a deputado, com poucos recursos e basicamente regional, ecoou em todo o estado de São Paulo – mais de 45 mil eleitores confiaram em suas propostas.
Cortez nasceu em 1997, na capital paulista. Filho de pais publicitários, o agora eleito deputado estadual afirma ter tido uma infância felizmente confortável. E foi logo na infância que apareçam os primeiros apreços pela política.
“Eu sempre gostei muito de política, mesmo criança, gostava muito de horário eleitoral. Depois fui representante de turma, tentei entrar para o grêmio. Sempre gostei de falar muito, representar”, diz.
A certeza de que gostava – muito – do assunto foi no ensino fundamental. Guilherme saiu da escola onde estudava em seu bairro e foi para uma escola pública no Centro de São Paulo. Seus olhos viram pela primeira vez um ambiente extremamente mobilizado politicamente.
Uma das histórias no colégio marcou a memória de Guilherme. Em 2013, ano de efervescência política com manifestações em todo o país para que baixasse o preço da passagem de ônibus, tudo ficou mais intenso.
“Um dia a diretoria da escola fechou um dos portões que dava acesso, uma coisa relativamente banal, que não mata ninguém. Só que naquele momento assíduo, isso foi motivo de imensa mobilização. Teve abaixo-assinado, reunião, manifestação e nada deu certo. Até que eles quebraram o portão, saíram em caminhada e conquistaram que o portão ficasse aberto”, relembrou.
“Eu não entendia nada daquilo, mas foi muito inspirador para mim a força de um coletivo. Seja um portão que as pessoas querem que fique aberto enquanto a direção quer que fique fechado, seja a passagem que as pessoas querem que abaixe enquanto o governo quer que aumente, absolutamente qualquer coisa, se as pessoas se mobilizarem, as coisas mudam”.
Foi a partir deste pensamento que decidiu se filiar ao PSOL, aos 16 anos de idade. Não por pretensões de se candidatar, inicialmente, mas por entender que quando se luta por meio de um coletivo, há muito mais possibilidades de resultado.
“Se indignar sozinho é muito difícil, no coletivo a gente tem mais resultados. Me filiei por achar que era um instrumento coletivo que poderia lutar pelas pautas”.
Franca e a primeira campanha
Em 2016, Guilherme Cortez se mudou para Franca para cursar Direito na Unesp. O coração estava ainda dividido entre o curso de Direito no interior ou o de História na capital, mas a decisão foi se mudar de cidade.
Ao se envolver com movimentos estudantis e de outras pautas, em 2020 surgiu um novo pensamento. “A gente precisava trazer esses movimentos para a política de Franca, uma cidade rica em cultura, artistas, mas que tem uma estrutura política extremamente atrasada. Quando olhamos para a Câmara de Vereadores, parece que está estacionada há três décadas. Debates muito mornos, e aí pessoas me indicaram. Não fiz nada para terminar assim, candidato, mas foi consequência”, disse Cortez.
Por se tratar de uma cidade conservadora e com partidos de esquerda com pouco espaço, a expectativa era pequena. No entanto, ao final da apuração, a candidatura de Cortez foi a 4ª mais votada na cidade, mas pelo coeficiente do partido, Guilherme não conseguiu ser eleito.
“Naquela eleição a gente representou uma inovação política, um jeito diferente de fazer, tanto na cara quanto no conteúdo. Não fomos eleitos, mas tivemos muito mais votos do que a maioria que foi eleita. Óbvio que foi um baque, mas foi muito além do que esperávamos chegar. A partir disso começamos a ter mais relevância, alcance, audiência. Fizemos a campanha municipal daquele ano se expandir, agora como estadual”.
Mandato para SP
Apesar dos muitos votos em Franca – o segundo mais votado, com mais de 10 mil –, a maior parte veio de fora, como da capital, por exemplo, onde Guilherme Cortez teve 12 mil votos. O deputado eleito relatou que durante a campanha muitas pessoas mandavam mensagem afirmando que gostavam do candidato, mas que tinham dúvidas se o mandato era apenas para Franca.
“Só fizemos campanha de rua mesmo em Franca e Ribeirão Preto, o resto só mandamos material para as pessoas que nos apoiavam. É muito surpreendente mesmo, nossa campanha furou a bolha. Foi muito na autenticidade e humildade. Muita gente perguntava se eu seria deputado só para Franca. Eu vou representar especialmente nossa região, que é onde eu conheço a realidade, mas o mandato é para o estado inteiro. Os problemas que a gente tem em Franca, a gente tem em Bauru, em Ribeirão, no Vale. Claro, cada um com suas particularidades.”
Propostas
Mesmo com as pautas claras como a diversidade, Cortez afirma que não tem propostas monotemáticas, “muito pelo contrário”. O jovem afirma que não é possível defender educação sem falar de transporte ou saúde, e que vai tratar de todos os assuntos em seu mandato, especialmente a crise ambiental atual.
“O que a gente viveu em Franca me surpreendeu muito. Racionamento de água, queimadas, tempestade de terra. Isso precisa ser falado”.