19 de março de 2026
NOSSAS LETRAS

No meio da tarde, que tarde

Por Mirto Felipin | especial para o GCN
| Tempo de leitura: < 1 min

"O suficiente é para quem não ama."
Mia Couto

oscilo no meio da tarde
quente de verão precoce
quente de febre juvenil.
rastejo  sem esperança
e não decreto a tristeza
de meu coração ‘inda febril.

sei bem a hora de todas as horas
e essa já era hora de ter partido,
mas não vou.
fico em meio ao caminho
mesmo sabendo
que ele já terminou.

meus olhos teimam não chorar
e eu choro
parado, mudo, sem me alterar
para que as atenções não se voltem
e eu tenha de explicar.

nos contidos movimentos da lembrança
contenho o grito que me dilacera
e, ansioso, controlo meus gestos
para que eles não agridam.
e todo esse civilizado controle
humilha minha fortaleza.