Imagina ir à farmácia e não encontrar remédios? Por mais contraditório que possa parecer é a realidade em Franca e no Estado de São Paulo. A falta de medicamentos, principalmente para crianças, gera dor de cabeça nos pais e preocupação no setor.
"Desde que ele (filho)está doente, a gente passa no plantão e os antibióticos que são solicitados, até os antialérgicos, a gente não está encontrando", diz Michele Caroline Oliveira, de 32 anos.
Michele é mãe do pequeno Benício de 7 meses. O bebê foi diagnosticado com infecção de ouvido e garganta. Os médicos prescreveram alguns remédios e a família conseguiu encontrar apenas na sexta farmácia que visitou. "Como foi o único lugar que achamos, o preço estava um pouco acima, mas a gente precisou pagar".
Os próprios farmacêuticos orientaram os pais a buscar em outra cidade. "Em uma farmácia falaram para o meu esposo assim: ‘tem só lá em São José do Rio Preto, estou vendo aqui no meu sistema’. É uma preocupação".
A moradora do bairro Vila Real, na zona Sul de Franca, estranha a falta de medicamentos mesmo pagando. "Por mais que está sendo um medicamento pago, não está tendo. A gente não sabe o que está acontecendo".
Michele não está errada. O próprio setor reconhece a escassez. Em pesquisa realizada pelo CRF-SP (Conselho Regional de Farmácias do Estado de São Paulo), 98,52% dos farmacêuticos entrevistados sofrem com o desabastecimento de medicamentos.
Deste público, 93,49% relataram sofrer com a falta de antimicrobianos - amoxicilina e azitromicina estão entre os mais citados. Os mucolíticos, como acetilcisteína e ambroxol, foram apontados por 76,56% dos entrevistados. Completam a lista, anti-histamínicos - como dexclorfeniramina e loratadina - com 68,66%; analgésicos - como Dipirona, ibuprofeno e paracetamol - com 60,69%. Relataram outras classes 37,15% dos farmacêuticos.
egundo o presidente do CRF-SP, Marcelo Polacow, o público infantil é o mais prejudicado com o desabastecimento. “Os relatos mostraram que os medicamentos em falta são principalmente em suas formulações líquidas, o que prejudica em especial, a população pediátrica, já que a maioria dos medicamentos para esse público é na forma líquida por serem mais fáceis de administrar”.
A pesquisa tinha 20 perguntas e obteve 1.152 respostas válidas, entre os dias 19 a 30 de maio de 2022, no Estado de São Paulo. O levantamento teve 82,81% dos farmacêuticos trabalhando em unidades privadas, 10,24% em públicas, 4,17% em públicas com parcerias privadas e 2,78% responderam outros.
Qual é a causa do desabastecimento?
O delegado do CRF-SP na seccional de Franca, Wilson Rigoni, explica que a guerra na Ucrânia e o lockdown na China atrapalharam o fornecimento de insumos para fabricação de remédios na indústria brasileira.
"Essa logística de produção, transporte e distribuição ficou totalmente afetada. Dependemos muito de fora, não temos uma produção muito interna de insumos", diz.
O próprio delegado sente na pele a falta de medicamentos e diz que o desabastecimento é realidade. "A gente tem problema com antibióticos, expectorantes, antialérgicos, anti-inflamatórios... Até analgésicos, estamos tendo falta de alguns. Franca está na linha desse desabastecimento".
Wilson reforça as palavras do presidente Marcelo Polacow. As crianças são as mais prejudicadas pela falta de remédios. "Tem faltado os insumos líquidos, principalmente na parte de embalagens e insumos líquidos, que são os xaropes e as gotas".
"Teve época, aqui, que não tinha xarope mais na farmácia. Se continuar com isso, os estoques que já são poucos vão ficar zerados", completou.
Apesar da falta, o farmacêutico não pode fazer a troca de medicamentos. "Orientamos ao paciente retornar ao médico e tentar prescrever algum outro tipo, uma outra classe de antibióticos e até ligar em outras farmácias".
Wilson diz que a tendência são os preços aumentarem com a falta de remédios, mas não crava o percentual. "Realmente vai subir. A parte de medicamentos industrializados não tem como saber (de quanto será o aumento", finalizou.